
Jornal GGN – A Rede Brasil Atual entrevistou o professor de Economia da PUC-SP, Ladislau Dowbor, a respeito da crise econômica e suas causas. Para ele, mais do que uma alegada incompetência da presidente Dilma Rousseff, o que está travando a atividade no país é o endividamento das famílias, os juros sobre o dinheiro de investimentos para pequenas e médias empresas e a alta da taxa Selic.
Para o economista, não se sustenta a noção de que a crise é da presidente Dilma Rousseff e menos ainda que um eventual governo Temer vai resolver logo a situação.
Da Rede Brasil Atual
Setor financeiro é mais responsável do que Dilma pela recessão, diz Dowbor
Por Helder Lima
Explosão do endividamento das famílias, juros sobre investimentos e alta da taxa Selic tornam inviáveis o dinamismo da economia, segundo o professor da PUC-SP
São Paulo – Quem acha que a culpa da crise econômica é apenas da presidenta Dilma Rousseff e que um eventual governo de Michel Temer vai resolver a situação de estagnação da economia está longe de enxergar os reais motivos dos problemas que o país tem enfrentado. “O que ocorre é que três fatores estão travando a demanda dos consumidores, os investimentos das empresas e também os investimentos públicos”, afirma o professor de Economia da Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP) Ladislau Dowbor.
Segundo ele, os três fatores são o endividamento das famílias, os juros sobre o dinheiro de investimentos para pequenas e médias empresas e a alta da taxa Selic, que atrai recursos que em outro contexto poderiam estar no setor produtivo. Esses três fatores estão relacionados ao processo de financeirização, “que cada vez mais concentra recursos para o setor financeiro, e atualmente são responsáveis por travar a economia”.
O endividamento das famílias, segundo dados do Banco Central (BC), é bem sintomático do travamento da demanda. Quando a série histórica começou a ser apurada, em março de 2005, a relação entre dívida e renda era de 19,3%, subindo para 44,6% em janeiro de 2016, o último dado apurado. A evolução ao longo desses dez anos mostra que a expansão do mercado imobiliário, com base na dívida para conquistar a casa própria, provoca uma alta no endividamento, que agora retira capacidade das famílias para consumir produtos de menor valor agregado e maior giro.

“O problema não está nas contas do governo, mas nos intermediários financeiros. Você tem um estoque de dívida de R$ 3,1 trilhões que é de pessoas físicas e jurídicas, não é do governo”, afirma Dowbor. “A taxa de juros média dessas dívidas é de 28%, o que sobre os R$ 3,1 trilhões representa R$ 800 bilhões. Pessoas físicas e jurídicas pagam esse montante só em juros sobre a dívida”, afirma, destacando que o total de dívidas representa 56,3% do PIB do país, atualmente de R$ 5,5 trilhões. “Na Europa e Estados Unidos, as taxas pagas são entre 2,5% e 3%”, lembra.
O segundo fator da paralisia da economia, que é o investimento empresarial, atualmente paga “entre 30% e 40% de juros nos bancos comerciais e isso também inviabiliza o investimento, porque sai mais caro depois”, afirma o economista, destacando que essa situação de crédito não afeta tanto os próprios bancos e as grandes empresas, que acabam captando recursos no exterior, com juros mais baixos.
Quanto ao terceiro fator, a taxa Selic, Dowbor diz que “quando o empresário tem a alternativa de 14,25% (remuneração com títulos do Tesouro) ele vai investir para quê? Melhor ficar com títulos”. A Selic alta trava o investimento público, “porque você tem um estoque da dívida pública que supera R$ 3 trilhões”, observa. “E a taxa Selic é uma remuneração fabulosa às custas de impostos, que proporciona uma transferência de recursos para o setor financeiro da ordem de R$ 500 bilhões por ano.” Esse montante é perto de 8% do PIB do país, um dinheiro que deixa de entrar no setor produtivo. “Esse dinheiro é dos nossos impostos, que o Estado recolhe para dar aos bancos e rentistas.” Enquanto isso, os títulos do Tesouro nos Estados Unidos remuneram à ordem de 0,5% ao ano.
Governo Temer
Ao analisar a crise econômica e política atual, Dowbor lembra que ao reduzir a Selic para 7,25% em 2012 e 2013, a presidenta Dilma fez com que os bancos públicos reduzissem também suas taxas, diminuindo o estrangulamento do orçamento de consumidores e empresas. “Quem ficou indignado com isso foram os rentistas, que não investem e compram papéis. Isso gerou revolta e o governo recuou para retomar o travamento”, afirma.
Agora, diante da perspectiva de um governo do vice-presidente Michel Temer, que tem cotado como possível ministro da Fazenda o tucano liberal Armínio Fraga, o que vem “são medidas que consistem em reduzir o tamanho do governo e aumentar os impostos para ter mais dinheiro para os rentistas”, afirma o professor. “Isso vai aprofundar o endividamento e a transformação de recursos em renda”, diz Dowbor, ao mesmo tempo destacando que não concorda com o caráter golpista do impeachment.
O economista vê no horizonte atual um aprofundamento da crise no país, processo que ocorreu na Europa a partir de 2008 com a adoção de receituário de austeridade fiscal: “Os governos passam mais dinheiro para o sistema financeiro e reduzem o acesso público à educação”.
Gilson AS
20 de abril de 2016 12:59 pmInfelizmente para os
Infelizmente para os senadores golpistas isso não quer dizer nada.
Somebody (temporário)
20 de abril de 2016 1:24 pmFinalmente alguém para expor
Finalmente alguém para expor o óbvio para vocês sobre a sua economia (vocês não acreditariam em um anônimo e eu não posso me identificar).
Vou dar a versão curta para vocês: Primeiro, vocês gastam um valor ridículo na tentativa de comprar a casa própria ou um carro e isso reflete pesadamente na capacidade de compra de todo o resto. Posso dizer que vocês vivem bem mas sem carro e casa própria ou vivem com casa própria e carro mas eternamente (e pesadamente) endividados.
Segundo, como Dowbor corretamente colocou os seus empresários precisam gastar demais para se financiarem (eu pessoalmente acompanho isso constantemente) e isso inviabiliza mesmo a maioria dos empreendimentos que poderiam ter sucesso no seu país.
E terceiro, e tenho que ser duro com vocês agora, é parte da cultura do seu país se acomodar em receber juros ao invés de procurar atividades produtivas. Lembram-se do que eu vivo dizendo sobre a cultura de vocês ser medieval? Uma das características da cultura medieval era que os nobres viviam dos rendimentos das suas terras, taxas devidas pelos vassalos que trabalhavam nelas. Isso nos dias atuais é chamado de “rentismo” e persiste na sua cultura até hoje. E os seus “nobres” reagem violentamente quando esta renda é reduzida porquê como na Idade média eles acreditam mesmo que seja “direito” deles viver de renda e que ninguém pode interferir nisso, muito menos quem eles consideram ser “vassalos”.
E estes “nobres” mandam desde sempre no seu país e na forma como a economia é dirigida, portanto não é surpresa que todos os impostos do país estejam sendo direcionados para pagar juros e nunca pareça ser o suficiente.
Maria Luisa
20 de abril de 2016 8:17 pmJa falei muito disso com os meus, mas
Sabe o que é, somebody, aqui neste blog praticamente todos têm consciência dessas coisas todas. Mas no Brasil do status, vai dizer para o médico, o advogado, o dentista, que se na cidade dele tem metrô e VLT, é melhor para todos, incluindo ele mesmo, usar o serviço publico… Minha prima prefere pagar mais de dois mil reais numa “escolinha” (eufemsimo para creche) à colocar o filho de um ano na otima creche da Secretaria de Finanças do estado onde trabalha. A mentalidade ainda é essa. E quem ganha muito com o provincianismo….
ML
20 de abril de 2016 2:11 pmA hora do medo.
Aos
A hora do medo.
Aos poucos, as “elites” brasileiras começam a perceber o tamanho do buraco que cavaram. Comecemos pelos economistas. Os do “mercado” venderam fantasias à população e aos políticos. Ajuste fiscal por meio de redução de gastos, recusa de aumento de impostos, reformas do setor público, volta das privatizações, independência do BC, etc. etc. Mas Armínio não quer o ministério. Lisboa muito menos: as reformas exigiriam a legitimidade que o governo do golpe não possui. Esse de bobo não tem nada. Os colunistas da Folha e outros começam a apontar para “dificuldades”… talvez seja necessário aumentar impostos.
Como as medidas que defenderam tirariam o país da recessão? A famosa “volta da confiança”, na qual cada vez menos eles próprios confiam. Sim, porque combate à recessão exige aumento da demanda agregada. E as medidas defendidas durante o tramar do golpe diminuem a demanda agregada. Vejamos, como era mesmo aquela equação? Demanda é a soma do consumo, do investimento, das exportações menos importações e… dos gastos do governo. O consumo depende da renda, dos juros, do crédito… por aí não há muito que esperar. O investimento? No Brasil, o investimento depende… do governo, o setor privado vai a reboque. Só a Petrobras era responsável por 10% da formação bruta de capital fixo. A construção, principal item dos investimentos, depende de financiamento. E as empreiteiras estão em ruínas. Os investimentos dos principais setores exportadores dependem da rentabilidade associada ao ciclo das commodities. Exportações menos importações? Há alguma esperança por aí se a taxa de câmbio for favorável. Esperança pequena, pois a participação do comércio exterior no PIB não é lá muito grande, como todos sabemos. Sobram os demonizados gastos do governo, a “gastança”. Isso aumentaria o deficit e a dívida. É necessário, portanto, aumentar os impostos. Mas e o pato? Isso nos leva aos políticos.
Pouco afeitos às questões econômicas, os políticos, devidamente estimulados pela grande mídia, por seus incompetentes conselhos editoriais e economistas, compraram a “volta da confiança”. Os desinformados ainda acreditam nela, mas durará pouco. Os mais espertos começam apenas agora a intuir que há enorme risco de afundarmos numa espiral recessiva que destruirá carreiras, como aconteceu nos países europeus. E os movimentos sociais ressurgiram. Haverá luta. Alguns políticos correm para os Estados Unidos à espera de salvação. Mas os EUA não se notabilizaram, ao longo de sua história, por jogar dinheiro fora. É certo que desejam a separação do B dos RICS. Mas à custa de tamanho desastre? Pois haverá (será?) eleições. Investir nos golpistas pode ser uma aposta desastrosa para os próprios interesses americanos.
O risco de uma espiral recessiva é real, muito real, principalmente se a coerência com o discurso do golpismo for mantida, ou seja, cortes e mais cortes no setor público. Timidamente banqueiros já começam a falar em queda dos juros. Não será suficiente.
altamiro souza
20 de abril de 2016 2:23 pmacrescento um dado
acrescento um dado fundamnental divulgado recentemente pelo mestre dowbor,
para entendermos tb o significado do golpe dado…
cerca de somente 40 grandes multinacionais mandam e desmandam no mundo…
imagine quem são então os verdadeiros chefes do golpe senão o capitalismo internacional,
o infame esquema de financeirização já implantado na europa, onde os dirigentes da
banca tornam-se de um dia para o outro dirigentes políticos de governos
submissos a esses interesses espúrios contra a autonomia de
seus países.
na europa, o desemp/rego é expresivamente degradante, faz tempo.,..
e os governos não conseguem se libertar dessa financeirização que cria o caos em
todo o sistema capitalista mundial…
o brasil simplesmente pode entrar nessa roda-viva da infamia financerizadora,
expropriadora de nossas riquezas…
ARH
20 de abril de 2016 2:34 pmE qual a causa?
Endividamente das famílias, taxa de juros, SELIC, qual a responsabilidade do governo Dilma sobre estes temas?
As famílias estão individadas sim, pq lá atrás, ainda no governo Lula, a opção de crescimento foi pelo consumo induzido pelo crédito. Crédito que um dia teria que ser pago… Taxa de juros e SELIC são relacionadas e um mal crônico do Brasil. Mesmo as taxas bancárias, que o governo Dilma tentou baixar a marretada utilizando o BB e Caixa, voltaram a níveis históricos (e alguns casos, como o Cheque Especial, estão maiores do que nunca).
Então, pergunto, Dilma não tem nada com a crise, mesmo que a causa da crise sejam ações tomadas pelo seu governo?
CarloB
20 de abril de 2016 3:24 pmEu não sei porque é tão difícil assim de ver o óbvio
o que ferra o brasileiro classe média(baixa e alta) não é o exagera do consumo , é claro que tem pessoas que extrapolam com a facilidade , mas sim os juros que são embutidos na compra e principalmente esses juros pornográficos de cartão e cheque especial dos bancos.
Com esses juros absurdos ninguém vai conseguir se livrar de dívidas. Somente se não consumir mais. E depois que dificilmente vão voltar a consumir também , travando ainda mais a economia.
Nenhum país e povo , a não ser os rentistas e os donos dos bancos , consegue ter uma economia saudável com essas discrepâncias.
martos
20 de abril de 2016 3:43 pmA casa grande quer é isso.
A casa grande quer é isso. Pouco investimento do governo, taxa selic nas alturas e o povo, que vai se lascar.