do Vermelho
França x Marrocos: o gramado onde o fantasma colonial ainda joga
por Cezar Xavier
Quando França e Marrocos entrarem em campo nesta quinta-feira (9), pelas quartas de final da Copa do Mundo, haverá muito mais em disputa do que uma vaga na semifinal. Em campo, 22 homens carregam nos ombros a memória do Tratado de Fez. O que parece ser apenas mais um duelo tático é, na verdade, a reencarnação de uma velha e dolorosa assimetria: o encontro entre o colonizador e o colonizado.
Quando a bola rolar para França e Marrocos, duas nações entrarão em campo carregando nas chuteiras o peso invisível, mas sufocante, da história. É o reencontro entre o antigo colonizador e o ex-colonizado, um embate em que as linhas táticas se misturam às fronteiras geográficas desenhadas no século passado.
O eco do protetorado no gramado moderno
Para compreender a eletricidade que ronda o confronto, é preciso voltar a 1912, quando o Tratado de Fez formalizou o Protetorado Francês em Marrocos. Foram décadas de exploração econômica, submissão política e imposição cultural que só terminaram com a independência marroquina, em 1956.
Durante 44 anos, o império extraiu do solo magrebino fosfatos, trigo e mão de obra barata, sufocando revoltas e impondo sua cultura.
O idioma francês, ainda falado em Rabat e Casablanca, e as feridas sociais jamais totalmente cicatrizadas são testemunhas de que o passado não morreu; ele apenas mudou de endereço.
Hoje, esse endereço frequentemente é o subúrbio de Paris ou os campos de treinamento da federação francesa. O futebol, longe de ser uma bolha isolada, reflete a complexa teia migratória costurada pela colonização. Hoje, a mineração mudou de forma, mas a lógica metropolitana permanece intocada.
O império deixou marcas além das fronteiras
Durante os séculos XIX e XX, França, Reino Unido, Bélgica, Portugal e outras potências europeias dividiram grande parte da África entre seus impérios.
No caso marroquino, a presença francesa reorganizou a administração pública, a infraestrutura e a economia em função dos interesses metropolitanos. Ao mesmo tempo, milhares de trabalhadores marroquinos passaram a migrar para a França, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, ajudando a reconstruir o país europeu.
Vieram pais, depois filhos e netos.
Hoje, milhões de franceses descendem de famílias originárias do Norte da África. Muitos cresceram em bairros populares de Paris, Marselha, Lyon ou Lille, falando francês em casa, mas preservando laços culturais e afetivos com Marrocos, Argélia ou Tunísia. Dos 26 jogadores convocados para a seleção principal da França, apenas 6 não são filhos de imigrantes ou possuem raízes familiares diretas em países de fora da Europa. Três atletas do atual grupo nasceram fora do território francês: Michael Olise (Inglaterra), Brice Samba (Congo) e Marcus Thuram (Itália).
É dessa história compartilhada que nasce boa parte dos elencos contemporâneos.
A seleção-metrópole e a nova face da exploração
A chamada “Copa da Diáspora” escancara um fenômeno global: o torneio deste ano conta com mais de 300 atletas defendendo bandeiras diferentes de suas certidões de nascimento. Nas seleções europeias, em especial na França, a presença de filhos de imigrantes africanos é o motor que move engrenagens multicampeãs.
Esse fenômeno revela uma contradição persistente: embora o colonialismo tenha terminado juridicamente, as antigas relações de dependência continuam influenciando os fluxos de talentos, investimentos e formação esportiva.
Alguns estudiosos definem esse processo como uma forma de continuidade das assimetrias produzidas pelo passado colonial, ainda que mediada pela livre escolha dos atletas e pelas regras do futebol internacional.
A França, que historicamente drenou a riqueza africana, agora drena seu bônus demográfico e atlético. O atleta africano na seleção europeia é a face moderna do colonialismo: a matéria-prima do Sul Global é extraída, processada no Norte, e o lucro simbólico e esportivo fica inteiramente com a metrópole.
A história se repete com jovens talentos nascidos em solo europeu que chegam às categorias de base da Federação Francesa apenas para esbarrar no teto de vidro do racismo estrutural. Eles ouvem os cânticos de ofensa nos estádios, veem a mídia questionar seu “pertencimento” à nação francesa a cada erro, e recebem a mensagem silenciosa da sociedade: vocês são úteis em campo, mas indesejados na sociedade.
Anos atrás, o ex-jogador francês Lilian Thuram pontuou que, quando a França ganha, a seleção é celebrada como “multicultural”; quando perde, os jogadores de origem africana são apontados como “estrangeiros”. Sob uma ótica analítica, a absorção desses talentos pelas potências europeias mantém um sutil aspecto colonizatório: a metrópole continua a extrair a matéria-prima mais valiosa da periferia — neste caso, o talento, a força física e o gênio desportivo —, gerando riqueza cultural e títulos para o Velho Continente, enquanto os países de origem lidam com a evasão de suas maiores promessas.
A outra face da herança colonial
O futebol também reproduz desigualdades herdadas do colonialismo.
As grandes ligas europeias concentram investimentos, infraestrutura, direitos de transmissão e capacidade de formação de atletas. Em contrapartida, muitos países africanos continuam enfrentando limitações estruturais para desenvolver seus próprios campeonatos.
O resultado é um sistema em que talentos frequentemente deixam seus países ainda adolescentes para completar a formação na Europa. Para a Europa, é uma injeção de vitalidade que mascara suas próprias crises demográficas. Para os países de origem, é a dor da fuga de cérebros — ou, neste caso, de pernas. A bola rola livre, mas as engrenagens do esporte garantem que o capital gerado por esses corpos continue, em grande medida, orbitando as antigas potências coloniais.
Esse fluxo beneficia clubes europeus, fortalece seleções do continente e, ao mesmo tempo, limita o desenvolvimento das ligas nacionais africanas.
Não se trata da reprodução literal da lógica colonial, mas de uma dinâmica global marcada por profundas assimetrias econômicas construídas ao longo da história.
O caminho inverso e o orgulho de pertencer
Por outro lado, Marrocos se tornou o símbolo máximo da resistência a essa lógica. A federação marroquina estruturou, nos últimos anos, um mapeamento agressivo e afetivo para repatriar os filhos de sua diáspora espalhados pela Europa. O caso mais emblemático na história recente do futebol marroquino é o de Achraf Hakimi — nascido em Madri, formado no Real Madrid, mas que escolheu vestir o vermelho e o verde do país de seus pais. “Quero jogar por Marrocos porque é onde me sinto em casa”, declarou o lateral em entrevistas.
Hakimi costuma afirmar que representar Marrocos é uma forma de homenagear os pais e a trajetória da família, mostrando que pertencimento não se mede apenas pelo local de nascimento. Sua escolha tornou-se referência para jovens da diáspora espalhados pela Europa. O atleta que prefere a ex-colônia não busca apenas suas raízes; ele busca a dignidade que a metrópole lhe negou.
Na atual engrenagem do futebol, a escolha dos atletas de rejeitar o teto seguro das grandes potências europeias para defender as nações de suas linhagens é um ato político. É a prova de que a identidade e o orgulho nacional podem subverter a lógica do mercado e reescrever a geopolítica da bola.
Nesta quinta-feira, quando o hino francês e o hino marroquino ecoarem pelo estádio, o mundo não assistirá apenas a 90 minutos de esporte. Assistirá a um acerto de contas poético em que, por duas horas, os colonizados têm a chance legítima de ditar as regras do jogo diante de seus antigos colonizadores.
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