27 de junho de 2026

A democracia não é para qualquer um, por Janio de Freitas

É tão legítima a operação do pretendido impeachment que têm sido de madrugada reuniões do presidente da Câmara
 
 
Jornal GGN – No artigo a seguir o colunista da Folha, Janio de Freitas, pondera que a sociedade brasileira não está preparada para a democracia relembrando que, pela história, vivemos a décima situação de golpe. Para provar sua análise destaca que o planejamento do processo de destituição do mandato da presidente Dilma Rousseff  “é no mínimo indecente”, conduzido “como chantagem e vingança”. 
 
E ironiza: “É tão legítima a operação do pretendido impeachment que têm sido de madrugada as reuniões em que o presidente da Câmara, na sua casa, articula tanto para derrubar a presidente como para salvá-lo no Conselho de Ética”. 
 
 
 
Por Janio de Freitas 
 
Chegamos a mais uma encruzilhada. Vem de longe a motivação mais profunda que aí nos põe: democracia não é para qualquer um, e o Brasil não tem aptidão para vivê-la. É historicamente inapto, como provam suas poucas e vãs tentativas.
 
A democracia exige certo refinamento. Sua difícil construção exige, para os passos iniciais que jamais completamos, algum desenvolvimento mental da minoritária camada da sociedade que detém os instrumentos de direção do todo; e, para levá-lo a resultados razoáveis, alguma qualidade moral, a que podemos até chamar de caráter, dessa camada.
 
A ridícula industrialização do Brasil só se iniciou de fato mais de 450 anos depois da chegada dos mal denominados colonizadores. Assim espelha bem a combinação de avareza e preguiça, mental e física, da classe que sempre preferiu, e prefere ainda, amontoar patrimônio a ter de trabalhar no possível investimento em produção, em crescimento, em inovação.
 
Daí os monstros de concreto que são nossas cidades, destino imobiliário dos resultados com a fácil exploração de mão de obra na lerdeza da agricultura e da pecuária, na mineração, no açúcar e no café. Depois, o máximo da modernidade, nas ações de uma Bolsa cujo número insignificante de empresas figurantes atesta a outra insignificância, a do próprio empresariado brasileiro.
Estamos na décima situação de golpe, consumado ou não, só no tempo de minha vida (e não sou o recordista nem entre os que escrevem na Folha). Apenas uma teve raízes fora da minoritária camada que dirige o todo. Foi a de 1935, quando Prestes precipitou uma quartelada desastrosa, que levou ao retorno absoluto do velho poder. Na décima, já seria para ter me acostumado. Nem de longe.
 
É no mínimo indecente que um processo de impeachment seja conduzido por quem e como é conduzido, já desde o seu primeiro ato como chantagem e vingança. É no mínimo indecente o conluio, com a indecência anterior, do partido que representa a cúpula social e econômica do país e, sobretudo, de São Paulo. É no mínimo indecente que, “ao se propor o impeachment sem cumprir os requisitos constitucionais de mérito” –palavras “em defesa da democracia” dos reitores das universidades federais–, se falsifique como crime uma prática contábil também de presidentes anteriores. E nunca reprovada. Por isso mesmo posta, desta vez, sob o apelido pejorativo de “pedaladas”, para ninguém entender.
 
É tão legítima a operação do pretendido impeachment que têm sido de madrugada as reuniões em que o presidente da Câmara, na sua casa, articula tanto para derrubar a presidente como para salvá-lo no Conselho de Ética. A votação da Câmara logo mais ainda não é decisiva, se vitorioso o impeachment. Mas, até onde se percebe, deverá ser suficiente para dar início a preliminares de fermentação social que o governo seguinte, com o que pretende, só fará agravar. Até onde é a nova incógnita brasileira. O que, aliás, nem está questionado pela minoritária camada que dirige o todo. O que busca é esse domínio livre de divisão e contestação, exercido com os seus políticos de mãos falsamente limpas. 
 

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6 Comentários
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  1. joão adalberto

    17 de abril de 2016 1:46 pm

    Aprendendo a história

    Destes 10 golpes , um foi da esquerda(tentativa de golpe) , oito foi da impensa e este , o décimo, de quem seria? O destaque que oponentes ao impeachment tem dado a Cunha e a Temer coloca em segundo plano a ação  da mídia tradicional . Hoje não há como  sair do foco sobre os políticos do PMDB. Mas, em se concretizando a saída de Dilma, a história no futuro concluirá   , mais uma vez, pela autoria de mais um golpe da imprensa.Todos sabemos quem é o mordomo das instituições que, como na ficção, sempre é o culpado.

  2. altamiro souza

    17 de abril de 2016 1:59 pm

    p legado desse golpe é o

    p legado desse golpe é o legado inevitável entre os legalistas

    e os ilegalistas que jácomrprovaram, com o golpe, que desrespeitarão

    qualquer lei e qualquer sentimento de honra e democracia para concretizar suas infamias…

  3. Marcos Antônio

    17 de abril de 2016 2:17 pm

    De pai para filho…

    O Golpismo passa de Pai para FILHO(S)…

    É a segunda geração dos marinhos encabeçando um golpe!

  4. ocator

    17 de abril de 2016 2:57 pm

    Não há problema! Daqui a 30

    Não há problema! Daqui a 30 anos os herdeiros dos atuais canalhas se desculparão de novo e estarão enpreendendo um novo golpe se seus interesses precisarem.

  5. Manubhz

    17 de abril de 2016 3:28 pm

    Triste vai ser o PSDB, que

    Triste vai ser o PSDB, que entrou nessa canoa, pois com as críticas era um partido legítimo, os demais a favor do golpe não tem história, mudam de nome para fugir das trapalhadas políticas…

  6. Flavio Aguiar

    17 de abril de 2016 3:35 pm

    golpe

    Muito bom, mas faltou o articulista mencionar que o golpe também é orquestrado pela mídia em que ele escreve, mais Estadão, Globo, Veja, Isto É et caterva.

     

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