
No day after, Lula, por Wagner Iglecias
Vamos lá, a mais um exercício de futurologia: se eventualmente aprovado o processo de impeachment na Câmara no próximo domingo deverá recomeçar no minuto seguinte a caçada ao ex-presidente Lula. Seja para cassar seus direitos políticos ou para efetivamente recolhe-lo a algum presídio.
Se para uma parcela importante da sociedade, formada pelos grandes meios de comunicação (e a classe média que serve de caixa de ressonância para suas teses e interesses), pelo mercado financeiro e por instituições patronais como Fiesp, Firjan e CNI, o governo Dilma não tem mais condições políticas de continuar, para outra parcela importante da sociedade, formada pelas esquerdas, pelos movimentos sociais, pela intelectualidade e pela mídia independente o governo Temer não reúne condições políticas, éticas e jurídicas sequer para começar.
Se para a direita o governo Dilma, caso consiga arrebatar cerca de duzentos deputados na Câmara e se safar do impeachment, mesmo assim não terá mais quaisquer condições de governabilidade dali por diante, para a esquerda um eventual governo Temer, inventado por dezenas de parlamentares denunciados, indiciados ou mesmo já tornados réus em processos de corrupção não tem envergadura moral para comandar o país.
Mas mais do que isso: um eventual governo Temer, por provavelmente vir a ser formado pelas forças que apoiam o impeachment de Dilma, por se pautar na tal “Ponte para o Futuro” e por dever favores a todos os setores que estão atuando pela queda da atual presidente, terá de ser necessariamente um governo de um duríssimo ajuste neoliberal, trazendo ainda como adereços a pauta do conservadorismo moral tão cara ao baixo clero atuante na Câmara e no Senado.
Some-se a isso a luta de foice no escuro que deverá ocorrer entre os prováveis novos donos do poder para apossar-se de nacos importantes do Estado brasileiro e os significativos desajustes da economia legados pelo governo Dilma e imagine-se o conjunto de medidas amargas que deverão vir por ai. Com os custos recaindo, obviamente, sobre a classe trabalhadora e inclusive sobre os setores de classe média que hoje apoiam ardorosamente o impeachment da presidente.
Postas estas condições, em pouco mais de dois anos de seu eventual governo Temer terá poucas condições de entregar ao país uma situação muito melhor do que a atual. E terá sempre associado a si, perante parcelas da opinião pública brasileira e internacional, o estigma da ilegitimidade.
O consórcio PMDB-PSDB-DEM-Baixo Clero que poderá comandar o país caso Dilma caia deverá ter dificuldades nas urnas de 2018. Poderá se reencontar com Lula na eleição presidencial em situação de ampla desvantagem. O ex-presidente poderá apresentar-se ao país em 2018 como Vargas se apresentou em 1950, após o desastroso governo Dutra, que o havia sucedido em 1946. Daí porque tira-lo do jogo, seja cassando-lhe os direitos políticos ou mesmo prendendo-o, será um passo fundamental para a sobrevivência política por mais tempo desse novo consórcio que se insinua para comandar o país.
Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.
Jose de Almeida Bispo
15 de abril de 2016 11:04 am“…trazendo ainda como
“…trazendo ainda como adereços a pauta do conservadorismo moral tão cara ao baixo clero atuante na Câmara e no Senado…”
O doutor está sonhando! O doutor, ele também parece acreditar em Branca de Neve. Doutor, o baixo clero é a velha e popular pistolagem de que se servem os “da pauta do conservadorismo”, e não somente neste momento: SEMPRE! Tem que ter alguém pra fazer o serviço sujo. Bem, alguns pistoleiros, depois de muito manjados são afastados ou até mesmo “aposentados” ( The retirement, segundo Blade Runner – o Caçador de Andróides); mas isso não significa que eles não sejam substituídos por “peças” mais novas.
O Senado romano não permitia que as legiões (privadas, diga-se) de Roma entrassem em Roma, claro; mas elas poderiam acapar indefinidamente, enquanto não houvesse guerra, além do Rubicão. Só não podiam atravessar este.
No mais, concordo.
Marcos Antônio
15 de abril de 2016 11:06 amNada a ver!
Poderemos vir a ser o PRIMEIRO PAÍS GOVERNADO EFETIVAMENTE POR CORRUPTOS!
Incluie-se ai a rede globo via FIFA!
Paulo Figueira
15 de abril de 2016 12:13 pmTanto pediram o “padrão fifa”
Tanto pediram o “padrão fifa” em 2013, que caso o impedimento não seja barrado, podemos dizer que conseguiram.
Giuseppe Junior
15 de abril de 2016 11:11 amÉ extremamente lógico que vão
É extremamente lógico que vão prender o Lula logo em seguida.
Jorge Vieira
15 de abril de 2016 11:20 amIlusão
Não se iluda Iglecias, o nosso pequeno stf vai dar o verniz de legitimidade para o golpe (vide os resultado da sessão de ontem).
Poucos homens, que comandam as falsas instituições desse país, tem estatura moral, sequer intelectual, para fazer o que é certo fazer.
Quase todos se apoiam no oportunismo e em seus próprios interesses.
É claro que, independente disto, vencerá sempre quem tem a seu lado a força bruta.
Para nós, democratas, nunca aprenderemos esta lição, mesmo porque, para nós, exercer a força bruta é totalmente disfuncional.
Temo pela vida do ex-Presidente Lula.
Somebody (temporário)
15 de abril de 2016 11:24 amEu sempre soube que o seu
Eu sempre soube que o seu congresso é cheio de “ratos”, mas eu nunca imaginaria que eles teriam a arrogância de se mover dessa forma e tão abertamente. Estou tentando descobrir qual é o “jogo” que está por trás de tudo isso considerando que não deveria ser possível tanta corrupção acontecendo abertamente para todo mundo ver e nada acontecendo com os corruptores como Cunha. Sério, têm algo realmente errado quando um relator de pedido de impeachment entrega uma ficção jurídica… rindo na cara dos que sabem que é uma ficção. Ninguém faz esse tipo de coisa sem ter absoluta certeza de que ficará impune e eu gostaria muito de saber qual é a razão para esta certeza.
Ninguém
15 de abril de 2016 11:33 amNão há a menor garantia de que haverá eleição direta para PR…
Esses golpistas vão fazer de tudo para acabarem com o regime presidencialista. Só há uma saída, mas ninguém quer ver isso.
maria rodrigues
15 de abril de 2016 11:55 amSomente o encarceramento
Somente o encarceramento poderá tirar Lula do cenário político. Afora essa hipótese, Lula prosseguirá sendo o único líder que o Brasil ainda tem.
Mas, quem sabe Moro, que diz ficar ainda nas suas perseguições ao PT até dezembro, já não tenha combinado direitinho com esa turma os modos pelos quais conseguiriam chegar ao Ex-Presidente.
Mas, tem uma coisa que ninguém pode descartar: o amor do povo por Lula.
Naturalmente o povo iria se insurgir contra a prisão dele, e não daria trégua ao Governo Temer enquanto não o colocasse novamente me liberdade. Nesse contexto, provável, entrariam organizções mundiais de direitos humanos aqui para impedirem.
Moro não ficou bem na fita com aquela prisão coercitiva de Lula, e também não conseguirá dormir direito enquanto não voltar à mesma tentativa.
Guimarães Roberto
15 de abril de 2016 12:03 pmEstão esquecendo o Janot
Se o golpe contra a Dilma se concretizar, o Janot passa a ser a pessoa mais importante da “Nova Velha República”. Somente ele poderá pedir o afastamento ou a prisão de Temer, Cunha e Renan. Já pensaram nessa hipótese? A presidência poderá, então, ser exercida pelo Ministro Lewandowiski que, por lei, marcará novas eleições. Mas, antes que isso aconteça, prefiro uma pequena convulsão social, só para marcar o momento e mandar um recado à classe dominante sobre futuras conspirações.
Oscar Kohl
15 de abril de 2016 12:11 pmCabeça erguida
Ganhamos quatro no voto. Se perdermos uma será no tapetão. Se não conseguirmos, cruz credo mangalo tres veiz, vamos na legalidade e não como golpistas, começar de novo.
rdmaestri
15 de abril de 2016 1:33 pmA prisão de Lula será o primeiro passo, após o fim dos partidos.
Achar que a prisão de Lula servirá para diminuir a oposição ao golpe é pensar a curtíssimo prazo, depois virá um outro golpe institucional através da proibição dos partidos de esquerda, o processo será bem mais longo e penoso do que a mera prisão de Lula.
Ricardo Cavalcanti-Schiel
15 de abril de 2016 3:47 pmMaionese demais, minha farofa primeiro
“Proibição dos partidos de esquerda”!!!…
Parece que o desespero de alguns anda produzindo delírios da mais tresloucada inverossimilhança. Pelo jeito, uma vez vencida toda esperança, só resta o argumento do medo. Eis onde foi parar a mente miopemente petista. Vocês estão prestes a descolar completamente da realidade.
lfmrodrigues
15 de abril de 2016 2:03 pmTucunhas
Este consórcio é a tribo dos Tucunhas. Tucanos viraram participes menores.
Minha proposta e aviso a Haddad: nenhuma aliança com qualquer um desses partidos levará meu voto. A ser posta em prática nas próximas eleições.
Ricardo Cavalcanti-Schiel
15 de abril de 2016 3:42 pmFaltou mais coisas
Faltou ao Iglecias, pra começar, levar até o final o seu próprio encadeamento lógico.
Se houver impeachment, não haverá Lula em 2018.
Isso por uma razão muito simples: o Moro vai condená-lo em primeira instância (esse sempre foi o roteiro!), e ele se tornará inelegível.
Em havendo impeachment, seguindo a lógica bastante verossímil do Iglecias e mantidas inercialmente as condições gerais que ele descreve, em 2018 é provável então que o Ciro Gomes seja eleito presidente.
Nunca é demais lembrar, no entanto, que o governo Sarney, nascido de condições análogas ao governo que vier a substituir o governo Dilma, conseguiu sedimentar legitimidade com o primeiro plano Cruzado. Naquela época, isso permitiu ao país, ao menos, prover as condições políticas para produzir a Constituição de 88.
E é aí que moram todos os perigos, porque as forças políticas do varejo institucional, hoje, são completamente outras (imagino que o baixo clero moralista do Congresso sonhe exatamente com isso!): e se um governo Temer conseguir um desafogo econômico qualquer, o que diabos ele vai acabar parindo em termos de normatização social mais ampla????
Roberto P
16 de abril de 2016 4:56 amDay after
O processo de impeachment, se aprovado na câmara e no Senado, tramita em até 180 dias ou volta Dilma até votação. Se Lewandowski quiser acelerar a lá Cunha, podemos ter eleição para presidente juntamente com as eleições municipais. Temer não assume até 2018. Antes da metade do mandato, votado pelo senado e cassada Dilma, em 90 dias tem-se eleições. Então as aspirações de Temer são míopes, não vai sair do papel o projeto da ponte.
Movimento sociais tem que lutar para Dilma conseguir que oposição chegue a 2/3. Se chegarem, é difícil não abrirem, com maioria simples, processo no senado. Lá quem conduz, com toda delimitação necessária é Lewandowski, que já deixou possibilidade de questionar no STF ‘crime de responsabilidade’, mas o senado vai ter que votar e ter mais de 2/3 também. Em todo este período, que pode ser até outubro(na pior das hipóteses) a mobilização tende a aumentar, e tudo isto leva a uma eleição, sem contribuição de empresas, com a militância mobilizada, e com Lula em evidência este ano todo. Se chegarmos a este ponto(espero que se resolva domingo) Lula leva no 1º turno!
O papo de combate a corrupção foi para o beleléu com Temer/Cunha a frente. Psdb se pudesse colocar Aécio/Serra/Alkmin/Moro tudo junto, não chega a 30%, provavelmente iriam a reboque do Pmdb, mas quem? Temer? Marina teria sua rede e só. Não tem militância, não pode usar seus sócios natura e itaú. Bolsonaro não passa de 1 dígito. Ciro Gomes teria que pensar no futuro e ir de vice do Lula. Que se diga exatamente quais a prioridades e como se trabalhará sendo eleito, com quem e quais objetivos a alcançar.
É tudo suposição, mas temos que trabalhar com vitória no domingo, ou vitória no senado, ou no STF, ou nas urnas, onde já estamos acostumados, mas não podemos pensar que Temer irá até 2018!