Por MiriamL
Revolução no Cairo deu a Obama chance de atuar no mundo árabe
Nova York (EUA)
Os cantos passionais vindos das multidões na Praça Tahrir –“Vá Embora! Vá Embora!”– reverberarão por muito tempo no mundo árabe e além, juntamente com as imagens emocionantes que mantiveram o mundo fascinado até o final tumultuado da era de Hosni Mubarak no Egito.
Levantes populares, sempre o ponto crucial de grandes revoltas na vida de uma nação, tendem a criar heróis imprevistos –no Cairo, os jovens ricos com conhecimento tecnológico que organizaram e mobilizaram centenas de milhares de manifestantes contra o governo.
Movimentos pacíficos pró-democracia como o deles também oferecem uma plataforma para os países ocidentais, especialmente os Estados Unidos, falarem alto e claro em prol dos oprimidos e contra governos despóticos, mesmo o governo de um aliado de longa data.
A revolução do Cairo deu ao governo Obama a oportunidade histórica de atuar como uma força moral no mundo árabe. Era uma oportunidade para o presidente Barack Obama e sua diplomata-chefe, a secretária de Estado, Hillary Rodham Clinton, de falarem com uma só voz e apresentar uma posição bem definida.
Em vez disso, como na relutância em reagir mais vigorosamente em apoio aos manifestantes no Irã em 2009, a equipe Obama frequentemente se manifestava com posições contraditórias, hesitando em uma direção, depois em outra, nem totalmente em apoio à revolta e nem publicamente resoluta na oposição a Mubarak.
Com a ajuda de funcionários não identificados da Casa Branca citados na imprensa americana, que o retrataram como reconhecendo desde cedo a importância da revolta e pedindo a Mubarak que fizesse o mesmo, Obama recebeu nos últimos dias um salvo-conduto por parte da imprensa e dos analistas.
O mesmo não aconteceu com Clinton. Após um início forte em meados de janeiro, Clinton pareceu hesitar enquanto a revolta no Cairo, iniciada em 25 de janeiro, ganhava impulso e se tornava o centro da atenção mundial.
Em 13 de janeiro, Clinton alertou os países árabes que eles corriam o risco de “afundar na areia” caso não implantassem rapidamente reformas políticas e econômicas. Ela falava em uma conferência de diplomatas e líderes empresariais do Oriente Médio em Doha, Qatar.
“Aqueles que se agarrarem ao status quo poderão resistir ao impacto pleno dos problemas de seus países por algum tempo”, ela disse, “mas não para sempre”.
Ela enfatizou que as crescentes populações jovens nos países árabes estavam clamando por liberdade e oportunidades econômicas, e que negar essas exigências representava um risco de fazê-las se voltarem para os extremistas e terroristas.
Um dia depois, o antigo governante da Tunísia, Zine el Abidine Ben Ali, foi derrubado por uma revolta popular. Menos de um mês depois, um levante de 18 dias derrubou Mubarak.
Olhando para trás, as palavras de Clinton no Qatar representaram seu momento mais ousado em um período que testou a política americana no mundo árabe até seu limite.
A queda do governo de Mubarak, um espetáculo televisionado para todo o mundo dia e noite, apresentou para Clinton a oportunidade de expandir suas declarações feitas no Qatar.
Em vez disso, ela caracterizou o governo de Mubarak, no início da revolta, como sendo “estável”. (O vice-presidente Joseph R. Biden Jr. a superou, proclamando que Mubarak não era um ditador.)
Em seguida, ela teve que recorrer rapidamente a Frank G. Wisner, o diplomata veterano e ex-embaixador no Egito, que Clinton teria sugerido para o papel de emissário especial de Obama para o Cairo. Wisner, após transmitir a mensagem para que Mubarak acelerasse a transição para a democracia, disse em Munique que o ditador era essencial para a transição.
Clinton disse aos repórteres na mesma conferência de segurança em Munique que esses pontos de vista não refletiam a posição do governo, mas ela reiterou sua ênfase na necessidade de uma “transição ordeira” no Egito.
Uma ardorosa defensora dos direitos da mulher e igualmente segura em meados de janeiro sobre as exigências dos jovens árabes, Clinton parecia repentinamente menos segura.
O presidente também mudou de curso pelo menos duas vezes –falando por conta própria ou por meio de Clinton. No final, o governo deixou os manifestantes e aqueles que os apoiavam decepcionados e confusos.
“A Casa Branca aguardou, observou, dançou e tropeçou”, escreveu Aaron David Miller, um especialista em política externa, na revista “Foreign Policy” em 12 de fevereiro. Um especialista em assuntos árabes e israelenses, ele citou o conflito entre valores morais e interesses estratégicos que o governo Obama teve que equilibrar.
Na semana passada, durante aquele que se tornou um final feliz na Praça Tahrir, Clinton teria tranquilizado governantes e autoridades por todo o Oriente Médio que o Egito pós-Mubarak não representaria um risco para eles.
Mas em grande parte ela sumiu de vista, deixando os especialistas em política externa debatendo se ela saiu enfraquecida.
“Ela se saiu muito bem, andando na corda bamba”, disse Steve Clemons, um especialista em Oriente Médio da Fundação Nova América em Washington, por telefone. Ela se aliou ao pensamento mais conservador do Pentágono, disse Clemons, ficando em choque com os assessores mais conciliatórios da Casa Branca, que buscavam um apoio pleno aos manifestantes. “Ambas as mensagens são necessárias”, disse Clemons.
Segundo o “New York Times”, entre esses assessores de política externa da Casa Branca que pressionaram Obama a apoiar claramente a revolução, em vez de adotar a posição defendida por Clinton e o Pentágono, estava Samantha Power, uma ganhadora do Prêmio Pulitzer e ativista de direitos humanos, que durante a campanha presidencial de 2008 se referiu a Clinton como sendo um monstro.
Desta vez, Power permaneceu no segundo plano. Outros no círculo conciliatório, mas publicamente quieto, da Casa Branca incluíam Denis McDonough, o vice-conselheiro de segurança nacional, e Benjamin J. Rhodes, que escreveu o discurso de Obama aos países islâmicos no Cairo, em 2009.
Dois dias após a queda de Mubarak, foi perguntado a David Brooks, comentarista e colunista do “New York Times”, no programa “Meet the Press”, qual era seu ponto de vista sobre como o governo Obama se comportou durante a revolta. “Eu não acho que Hillary Clinton lidou bem com a situação”, ele disse. Ninguém discordou, apesar de que o julgamento final sem dúvida só virá após muito mais capítulos na história extraordinária do levante no Egito.
Tradução: George El Khouri Andolfato
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/herald/2011/02/16/revolucao-no-ca…

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