Festas de final de ano sempre acabam pegando a gente por algum lado. Pela alegria, pela tristeza. Pelo desejo de estar junto e pela saudade de quem se foi. Inevitável.
Há 15 anos, no dia 27 de dezembro de 1995, meu mano Davi, nos deixava. Relutei em escrever isso no blog, o exercício de autodefenestração, mesmo em plena era do fim da privacidade, ainda é muito duro. A barra era pesada, ele contraiu HIV em meados da década de 80, duro para família, mais ainda para ele. Desconhecimento, preconceito, ignorância, são adjetivos autoexplicáveis para aquele momento. Idas e vindas em hospitais públicos, entremeados com clínicas de recuperação, descaso, família sumindo lá longe no horizonte, olhares desconfiados, julgamentos, desvelo.
O curioso é que depois de revelada a doença, a aproximação entre eu e ele foi maior. Era o laço que prevalecia. Antes ele era o irmão mais velho que fazia tudo para não ser incomodado pelo mais novo. E o mais novo incomodava. Eu queria saber tudo, da música, do futebol…da vida. Ele era do samba, eu era do rock, ele era bom de bola, eu perna de pau. Ele era Corinthians , eu Lusa. Ele era tortuosamente o herói. E naquele momento precisava ser incomodado o quanto mais fosse possível.
O samba que ele ouvia nas nossas vitrolas, Roberto Ribeiro, Martinho da Vila, João Nogueira, Originais do Samba, Partido em Cinco, o seus sumiços para o Rio de Janeiro e outros locais, em viagens até hoje para mim intrigantes. Ele foi ver, por exemplo, a seminal entre Corinthians e Fluminense (a famosa invasão corintiana) em 1976. Morri de inveja, não pelo jogo, mas pela aventura.
A facilidade que tinha com os instrumentos de percussão: tamborim, pandeiro (que ele dizia enrolar), surdo de marcação, tamborim (que ele dizia dominar, e dominava). As incursões pelas escolas de samba de São Bernardo e da zona sul paulistana (Ipiranga, creio). Eu tocando no máximo guitarras imaginárias.
As manhãs da várzea de São Bernardo do Campo, onde ele jogava no meio de campo, armando jogadas e chutando de fora. Eu la nos arrabaldes do campo sonhando em um dia poder jogar assim. Nunca joguei. Saia antes para casa, vagabundeando as manhãs de domingo mais deliciosas de minha infância.
Hiato.
Depois o escuro, a separação, vivendo ali no mesmo espaço e indo para lados diferentes. O sonho conjunto de irmão se desfez em pesadelos e distanciamento. Opções. Drogas Pesadas, que ao longe parecem ter glamour e de perto acabam esgarçando pontos de aproximação, desfazendo laços. Não quero transformar isso aqui numa peça do Coronel Ferrarini. Mas dói. E a conta veio.
Nos últimos três anos da vida do meu irmão, batiamos longos papos pela madrugada, nostálgicos, de coisas que eu não lembrava, de coisas que ele parece ter esquecido. Daquele tempo de admiração, da música, do futebol, voltando aos poucos, no tempo que urgia. Músicas, histórias do futebol, as tiradas engraçadas que ele sempre criava, os personagens imaginários baseados em pessoas reais, vizinhos, parentes, amigos. Eram divertidas as madrugadas.
A última vez que eu vi meu irmão foi no corredor do Hospital Emilio Ribas, era dia 26 de dezembro de 1995, ele tava ali na maca, e eu bravo reclamava por que haviam o deixado ali. Ele disse que havia pedido para ficar no corredor, perto da janela, e mostrou que dali podia ver as árvores da Avenida Dr Arnaldo, e que daquela imagem vinham lembranças dos trajeto a pé que fazia para ver o Corinthians no Pacaembú.
No dia seguinte, a tarde, ele faleceu. Foi enterrado com a camisa do Corinthians. Três meses depois chegava ao Brasil o coquetel e muitos que estavam ali perto dele naquelas macas conseguiram mais vida. Durante muito tempo não conseguia falar disso, agora coloco aqui, provavelmente, para pessoas que não conheço. Com dor, claro, e sem falsa resignação, mas conto porque esta história tem uma parte bonita, e a dor vai estar aqui mesmo, mesmo que eu não contasse.
O blog fala de música, e aí vão duas canções que meu irmão gostava muito.
Valeu brother!!!
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