TERRA MAGAZINE: TECNOLOGIA AGRÍCOLA BRASILEIRA PARA A ÁFRICA
Do Terra Magazine
África é oportunidade para tecnologia agrícola brasileira
Rui Daher
De São Paulo
“Tem tanto o que fazer” (Chico César, 1995)
Na última coluna, o aniversário de 30 anos do programa “Viola, Minha Viola”, da TV Cultura (SP) e o fato de ser apresentado por Inezita Barroso foram mais fortes e me tiraram a oportunidade de comentar a matéria da “The Economist” sobre a agricultura brasileira.
Atento, o ex-ministro Roberto Rodrigues o fez em artigo para a “Folha de São Paulo” do último sábado, 11/09. Está tudo lá, com exceção de um ponto a que o artigo da revista britânica dá relevância, mas aqui se costuma relativizar.
Falo das relações e do potencial de desenvolvimento que o Brasil tem com o continente africano. Não mais como o praticado pelas nações hegemônicas de séculos passados, na forma de um imperialismo que lá deixou miséria e atraso. Ou mesmo de movimentos atuais, disfarçados de ajuda ou de investimentos produtivos, que apenas visam garantir recursos naturais para o futuro.
AomeAo mesmo tempo em que países da África vão se livrando de governos ditatoriais e corruptos, suas posições desenvolvimentistas vão se tornando mais aguçadas.
Em ótima entrevista para a jornalista Cláudia Antunes, da “Folha” (12/09), a economista Maria da Conceição Tavares, mais uma vez se antecipa a seus pares:”Não tem centro e periferia como antes. Há países de desenvolvimento intermediário, entre os quais estamos”.
Pois bem, a renomada revista (28/08) descobriu o Cerrado brasileiro. Meio tarde, podemos ponderar, mas reconhecimentos, que não os banhados pelo ufanismo dos locutores esportivos, fazem-nos bem. Os repórteres foram ao oeste baiano, na Fazenda Jatobá, e ao sul do Piauí, na Fazenda CREMAQ, e lá conheceram o trabalho que a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) realiza na região. O mesmo que transformou o centro-oeste brasileiro há mais de 30 anos em área de alta produtividade.
A sugestão da revista é simples: transpor esse modelo para certas regiões da África.
Sempre tive dificuldade em entender as críticas à nossa política externa quando ela se orientou na direção das Ásia e África. Pregava-se, então, avançar no atrelamento às economias dos EUA e Europa. Conhecidos os desdobramentos da crise mundial de 2008, tida como a mais grave em 80 anos, e a forma como o Brasil a superou, pode-se economizar palavras.
No artigo, uma pergunta: “Poderá o milagre que aconteceu no Cerrado ser exportado, especialmente para a África, onde as boas intenções estrangeiras sempre murcharam e morreram?” Seguida de uma resposta afirmativa: “Cientificamente, não é difícil transpor a tecnologia (…) desde que usado um modelo sistêmico com todas as intervenções trabalhando em conjunto”. Vários projetos de inovação tecnológica da Embrapa, inseridos no programa Plataforma África – Brasil, estão em andamento em países africanos. Tecnologias de aumento de produtividade, melhores manejos de recursos naturais, fortalecimento de políticas, instituições, mercados e conhecimento direcionado para pequenos agricultores. De forma sistêmica, como quer a empresa do governo brasileiro.
No fim de agosto, foi assinado um acordo Brasil – Moçambique para o projeto ProSavana, de transferência de tecnologia para ajudar o país a produzir alimentos na área de savana, o que beneficiará 400 mil pequenos produtores da sua região nordeste.
A Embrapa, hoje, possui escritório e pesquisadores na capital de Gana, Accra, desenvolvendo tecnologias adaptáveis para cana, pastagens, mandioca, frutas tropicais. Não em mão única, pois recentemente sementes africanas de óleo de palma foram aqui introduzidas com grande sucesso.
Oportunidades que já despertam o empreendedorismo de nossa indústria.
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