4 de junho de 2026

Um sopro de jornalismo no fim de semana

Neste final de semana, parece que um sopro de jornalismo moribundo varreu os últimos factoides plantados ao longo dos últimos meses.

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Começou com a entrevista com o presidente da Colômbia Juan Manuel Santos às Páginas Amarelas da Veja.

Elogiou a diplomacia brasileira, os interesses comuns com o Brasil, admitiu que muito do que sabe sobre negociações aprendeu com diplomatas brasileiros.

A repórter Mariana Pereira de Almeida segue a risca a pauta definida pelo aquário. Diz que o partido de Lula, o PT, rem relações documentadas com as FARCs. Pergunta se Santos pretende obter de Lula o repúdio às FARCs.

Deve ser estranho a um dirigente de país latino-americano embarcar naquele que supõe ser o mais moderno país do continente e ser exposto a tais tipos de indagações, próprias de ambientes mais anacrônicos.

Santos reportou-se à visita do Ministro Nelson Jobim à Colômbia, onde declarou peremptoriamente que os guerrilheiros seriam recebidos a tiros se entrassem em território brasileiro. Completa dizendo não ter percebido nenhuma simpatia de Lula com o terrorismo.

A intréprida repórter prossegue com o jornalismo-intriga. Menciona os tais documentos encontrados no computador de Raul Reys (chefe das FARCs morto em 2008), revelando «contatos amigáveis» com o PT.

Resposta de Santos: é possível que tenham ocorridos os contatos, assim como com diversos políticos colombianos, «inclusive comigo».  E a resposta óbvia: «Uma coisa é estabelecer contatos; outra é ser cúmplice».

Não sei o que mais disse. O fato da revista ter deixado passar respostas honestas, que vão contra suas elucubrações, é espantoso. Mas aconteceu.

O segundo sopro foi a entrevista da Época com o ex-Ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros (clique aqui).

Luiz Carlos manifesta a indignação com a quebra do sigilo mas é absolutamente racional e responsável nas suas respostas, não se mostrando disposto a participar de jogadas políticas.

ÉPOCA – Estamos distantes desse tipo de situação no Brasil, mas há governos na América Latina lançando mão de todo tipo de expediente condenável para manter o controle sobre a sociedade. Qual é o risco de que isso aconteça no Brasil?
Mendonça de Barros –
Esse tipo de comportamento político se desenvolve muito rápido em sociedades estruturadas institucionalmente de modo mais frágil. O Brasil tem instituições muito mais fortes e muito mais preparadas para enfrentar esse tipo de situação. Há outra vantagem aqui no Brasil. Se o governo tentar alguma coisa nessa linha, vai ser mais fácil identificar. E, se isso acontecer, não tenho dúvida de que a sociedade aqui no Brasil vai reagir. A começar pela imprensa. Se há alguém com condição de saber aonde isso chega, é a imprensa, porque é o primeiro veículo da sociedade a ser atacado e com mais virulência. Sinceramente, considerando os oito anos de governo Lula, não me parece crível que uma sucessora sua vá trilhar esse caminho. Mas aí vale aquela máxima: não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem.

ÉPOCA – A campanha da candidata petista Dilma Rousseff negou envolvimento com a quebra do sigilo, e o presidente do PT, José Eduardo Dutra, disse que o partido é o maior interessado em esclarecer os fatos e na punição dos culpados. O senhor acredita nisso?
Mendonça de Barros –
Acredito. Porque esse tipo de ação é tão truculento, tão medíocre e tão limitado que certamente vem de pessoas com menos sofisticação política do que o núcleo central do governo. Que vantagem eles teriam com uma coisa dessas? Mas sabemos que, dentro do todo político do governo Lula e, agora, da campanha da ex-ministra Dilma, existe um grupo mais truculento mesmo. Os nomes dessas pessoas sempre estiveram vinculados a ações desse tipo, como foi no caso da compra de dossiê contra o Serra em 2006 (no episódio que ficou conhecido como “escândalo dos aloprados”).

ÉPOCA – O fato de terem sido acessados irregularmente os dados do Ricardo Sérgio de Oliveira, também personagem do grampo de privatização da Telebrás, chama a atenção do senhor?
Mendonça de Barros –
A única coisa que me chama a atenção é que esse pessoal tem um software muito ultrapassado das relações do Serra. O Ricardo Sérgio, ao que eu saiba, não tem relação nenhuma hoje com o Serra. Um dos indícios de que a origem desse processo é de gente que tem mais truculência do que inteligência são esses pequenos detalhes. Eles usaram uma relação que talvez tenha sido importante e forte no passado, mas que não tem mais nada a ver nos dias de hoje.

 

 

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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