4 de junho de 2026

Uma pequena correção sobre o Socialismo na China

Foi publicado um post onde o general vietnamita Giap faria críticas ao Capitalismo Chinês. Não há indícios do uso desse termo perjorativo da parte do general Giap. A luta dele é contra a exploração de bauxita em determinada região vietnamita. Não pude discutir antes, mostro as correções aqui.

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O texto que apresento abaixo é um artigo do Federico Rampini, publicado em La Republica, em 2009. É importante tomar algum texto de referência que seja da época da manifestação do general Giap.

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Primeiro o texto de Rampini, mais claro e bem documentado.

Falar em capitalismo chinês, um líder vietnamita mais que experiente, não parece provável, só pode ser acréscimo dos articulistas. Não estamos na década de 1960 quando os relatos — bem feitos — de Jean Baby mostravam uma virulência ímpar entre os comunistas de China e de União Soviética.

Lutar contra a exploração de bauxita e contra a penetração da China é uma coisa, acusar a China de Capitalismo é outra coisa por demais grave e poderia provocar uma crise grave entre Vietnam e China, o que não foi noticiado até agora.

O termo nomenklatura também esclarece um pouco a questão pois era usado na guerra fria contra os soviéticos, nunca entre países socialistas por pior que fosse o problema criado pela China.

Note-se também a forma como os acadêmicos se referem a China, como República Popular, nome oficial e correto do ponto de vista teórico. Admitir que os acadêmicos seguiram Giap depois dele cometer erro grosseiro (teoria) e grosseria (diplomacia) é muito difícil.

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Há mais artigos da época, 2009, que nada apresentam desse termo Capitalismo Chinês, tal como nos sítios aljazeera e novaE, basta levar em conta a data certa do artigo. Na Al Jazeera a própria foto principal mostra pelo que o pessoal luta: BELLO!

Não usei o texto postado por Laerte Braga, como ilustração, porque ele não traz data induzindo a erro: a manifestação de Giap foi em meados de 2009 e não em 2010.

Mas cito algumas pérolas do texto postado inicialmente no blog, pelo Laerte:

– “A NOVA GUERRA DE GIAP – O CAPITALISMO CHINÊS” : não é essa a luta do Giap, que sabe muito bem como enfrentar e derrotar a China no campo de batalha;

– “acusa o governo de seu país de ser tolerante com o capitalismo chinês, com graves prejuízos para o ambiente e povo do Vietnã” : não existiu tal acusação, ele estaria acusando ele mesmo pois é um dos principais líderes, a luta é contra a forma de extrair bauxita e pela vida melhor para os vietnamitas;

– “Giap denuncia o capitalismo chinês, conhecido no Vietnã como “sinistro”, pelo absoluto e total desrespeito ao ambiente e aos países onde põe o seu tacão” : frase livre, nada tem a ver com Giap, seria um profundo desrespeito aos povos chinês e vietnamita;

– “É difícil dizer que o regime chinês seja comunista…” : todo esse parágrafo é delírio mesmo, não se tente verificar em qualquer líder comunista tal asneira;

– “Vietnã com o governo sei lá o que da China” : outro delírio, se o autor quizesse criticar usasse seu próprio texto sem associar o nome de Giap, herói para todos os comunistas;

– “Comprou um país na chamada visão “social capitalista” do governo atual da antiga Saigon, hoje Cidade de Ho Chi Min” : agora já não é mais a China Capitalista, é o Vietnam Social Capitalista…;

– “O ataque de Giap teve efeitos milagrosos” : Giap não está em guerra, ele não atacou o governo, ele criticou, algo essencial para manter o Socialismo;

– “O comunismo na China é rótulo. Mero capitalismo disfarçado e imposto a chineses” : nada a ver com Giap, também não tem quem possa impor aos chineses uma forma social qualquer;

– “O que se vê é apenas o embate de dois monstros predadores. EUA e China” : a motivação do artigo seria a declaração de Giap… e resvala para filme de terror classe z.

 

O Laerte Braga e o Federico Rampini parecem nada conhecer sobre os comunistas e se danam a falar. No caso de Rampini é sitemático pois é um artigo pós outro a atacar a China, no jornal italiano La Republica. Giap é um líder de mesmo nível que Ho Chi Min, não tem sentido ele atacar um país socialista dessa forma: Capitalismo ou Social Capitalismo. E pode-se procurar em toda a bibliografia de 2009 e verificar que qualquer ataque aos comunistas de Vietnam ou de China ficam por conta do articulista, incluindo o Laerte Braga. Incluindo o uso das manifestações legítimas de um líder comunista para embasar os ataques… isso é o pior.

 

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A reportagem é de Federico Rampini, publicada no jornal La Repubblica, 30-06-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A pedra de escândalo é um das mais vastas jazidas de bauxita do mundo. Um tesouro escondido na região dos altiplanos centrais, ainda intacta em grande parte. Naquela área, estende-se a sombra da China, compradora de um mineral que é a matéria-prima para a produção de alumínio.

O governo vietnamita, por meio do seu monopólio de Estado Vinacomin, cedeu às ofertas de Pequim. Por 15 milhões de dólares, Hanói concedeu ao conglomerado chinês Chinalco os direitos de exploração da bauxita até 2025. Até 2015, a China espera extrair 6,6 milhões de toneladas de mineral por ano. É um roteiro que se repete em toda a Ásia: a riqueza de Pequim é o instrumento de um neocolonialismo voraz, das florestas da Indonésia aos diamantes da Birmânia, a expansão do dragão chinês parece incontrolável. Mas a República Popular fez as contas sem o patriotismo do indômito general.

Giap tem um prestígio tal que lhe permite atacar impunemente os dirigentes comunistas de Hanói. Ele não hesita em gastá-lo pela última vez, agora que sente o interesse nacional em perigo. “O projeto da Chinalco – declarou publicamente o velho militar – terá graves consequências para o ambiente, para a nossa sociedade e para a segurança do país”.

Acusações graves, que a propaganda do regime não pôde calar. Acima de tudo, a legitimidade dos líderes atuais está ligada aos gestos da “geração Giap“: ele é o último sobrevivente militar entre os companheiros de estrada de Ho Chi Minh, os protagonistas da longa resistência contra os EUA. O líder interpela diretamente a nomenklatura: “Convido o partido e o governo a escolherem uma política sadia para o futuro dos altiplanos centrais e das minas de bauxita”.

Giap sabe tocar uma parte sensível do seu povo. A sensibilidade ambiental se difundiu recentemente, e só esse argumento não bastaria. Mas a desconfiança com relação aos chineses tem raízes profundas na história nacional. Durante um milênio, o Vietnã foi assediado pela influência do Império celeste. Mais recentemente, em 1979, teve que resistir à invasão militar de Deng Xiaoping, decidido a “castigar” o Vietnã pela sua hostilidade aos khmer vermelhos do Camboja, defensores da China.

Os altiplanos centrais são povoados por minorias étnicas em perigo. A penetração do capitalismo chinês pode destruir equilíbrios demográficos delicados. A Chinalco, segundo os costumes das grandes empresas de Pequim, traria consigo milhares de operários e empresários chineses. Uma invasão pacífica, sustentada pelo poder do dinheiro, mas igualmente odiosa para o velho herói de guerra.

O ataque de Giap teve efeitos milagrosos. Deu coragem a outras vozes de dissenso, em uma sociedade civil que se moderniza velozmente. Quem se colocou como escudo do general de 97 anos, expondo-se, foram 135 acadêmicos, economistas e cientistas. Eles também assinaram um pedido ao governo, com tons duros para com a China: “A República Popular tem uma fama sinistra pelos desastres ambientais que está provocando”.

Baseados em um forte espírito de independência nacional, os ambientes mais diversos se mobilizam contra o extermínio da bauxita: redutos de guerra e jovens ambientalistas, monges budistas e comunidades católicas. A censura não é onipotente. Florescem os blogs em um país que já tem 20 milhões de usuários da Internet dentre 89 milhões de habitantes. Graças a Giap, a crise de consenso com relação a um modelo de desenvolvimento que parecia vencedor começa a aparecer.

Nos últimos anos, o Vietnã havia começado a se tornar uma pequena China, com uma florescente economia de mercado, dirigida por um regime não liberal. Os investimentos estrangeiros afluíram em abundância. Hanói obteve, em 2007, o ingresso na Organização Mundial do Comércio. Mas a recessão global deixou marcas. Em 2009, o Fundo Monetário Internacional prevê que o PIB vietnamita cairá em 5%. O fascínio do modelo chinês sofre um impasse: sobretudo se os dividendos do saque de recursos naturais acabam diretamente em Pequim.

 

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=23576

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