Por Carlos Henrique Machado
Nassif
Hoje, dia 11 de julho, comemora-se, e com muita justiça, o Dia dos Mestres de Banda. Acho que vale a pena contemplar uma homenagem a Paulo Moura estendendo a seu pai, Pedro Moura, que foi mestre de banda em São José do Rio Preto, e também seu primeiro professor e parceiro musical.
Os mestres de banda são, sem dúvida, referência de toda a consciência universal que a música brasileira contempla em sua multiculturalidade. Esses mestres devem ser considerados como um dos patrimônios da cultura brasileira por formarem uma imensa massa de profissionais de qualidade da nossa música.
O maestro Azevedo
por Luís Nassif
Um dos personagens mais constantes de minha infância tinha nome de gente, mas era banda: a “Banda Municipal Maestro Azevedo”, de Poços de Caldas, que tocava e ainda toca todo domingo de manhã no coreto do jardim do Pálace.
Algumas vezes, adolescente, eu ficava planejando com Wilson Danza, meu colega de pífaros na fanfarra dos Marista, o que iríamos fazer depois de aposentados. Voltaríamos para Poços e comporíamos dobrados para a banda. Wilson morreu cedo, em 1974, de morte besta quando cursava medicina em Belo Horizonte. Nos vinte anos de sua morte foi homenageado pela faculdade e, só então, soube que ele tinha deixado vários dobrados compostos, que nem sei se foram incorporados ou não ao repertório da nossa “furiosa”.
O Brasil tem uma legado rico de dobrados e marchas militares. Anos atrás a coleção “Revivendo” reeditou alguns desses clássicos. Mas a história dessa música ficou restrita às corporações de bombeiros e das Forças Armadas, ou às bandinhas municipais. E, no entanto, muitas delas têm o vigor das composições clássicas do luso-americano John Phillip de Souza, o mais conhecido dos autores de dobrados do mundo.
Outro dia mencionei aqui a banda e recebi uma carta de Joaquim Edmar Azevedo Zagatti, neto do maestro Joaquim Lourenço de Azevedo Filho, o “maestro Azevedo”, com vários recortes de jornais da região sobre sua morte, em 1952. Por elas, fico sabendo que o maestro foi autor de uma canção de ninar fulminante –”Dorme, dorme filhinho / meu anjunho inocente / dorme, queridinho / que a mamãe fica contente”. Havia uma segunda parte tristíssima: “O mundo é mesmo triste / eu bem sei, posso afirmar / Ainda há quem resiste / dores de não suportar”.
Lembrei-me de imediato dos meus 5 anos, resistindo ao sono, minha vó Martina me pegando no colo e cantando essa canção. Eu só balbuciava “essa não, vó, que eu durmo”, e cataplum! –dormia na hora.
Maestro Azevedo era de Santo Antônio do Pinhal, vizinha de Poços. Nasceu em 1872, filho de um comerciante português. Aos 16 anos entrou para o exército e teria feito carreira, não tivesse aderido à revolta federalista e monarquista do primeiro tenente Isidoro Dias Lopes, em 1893. Os federalistas foram esmagados pelos florianistas, o maestro Azevedo ficou alguns meses prisioneiros da fortaleza de Santa Cruz, no Rio, e desistiu da carreira. No curto período em que permaneceu no Exército, o maestro dirigiu a famosa Banda do Corpo de Bombeiros do Rio, substituindo o maestro Anacleto Freire.
Deixou um repertório apreciável de composições, incluindo polcas, tangos, e uma opereta – a “Sabiá do Sertão”—espalhada por todo o estado pela Companhia Sebastião Arruda. A canção de ninar de minha avó fazia parte dessa opereta.
Mas o forte eram mesmo as marchas e dobrados. Em 1920 compôs a marcha “Rei Soldado” , em homenagem ao rei Alberto Primeiro, da Bélgica, que visitava o Brasil.
O maestro também venceu concursos na Espanha, na Grande Exposição de Sevilha, que prendeu a atenção do mundo inteiro. A delegação brasileira compareceu com composições da nata dos músicos eruditos brasileiros, de Carlos Gomes, Leopoldo Miguez, Alexandre Levy, Lorenzo Fernandes a Alberto Nepomuceno, entre outros. E com duas obras do maestro Azevedo, entre as quais o “Sabiá do Sertão” e o “Dobrado à moda paulista”. Foi o vencedor da competição.
Lá pelos anos 20, o maestro entrou em um concurso de piano no Rio de Janeiro, que provocou o maior rolo na época, pela desclassificação de inúmeros candidatos regionais. Seu Aguirre, meu ex-sogro, já tinha me contado essa história, mas eu não havia ligado ao maestro. Era voz corrente que o vencedor havia sido o maestro Azevedo. Mas o prêmio havia sido feito de encomenda para o pianista Arnaldo Estrela, o mais famoso da época. Daí a grande polêmica que se seguiu.
O maestro morou também muitos anos em Mogi Mirim, em São João da Boa Vista, Santos, e, finalmente, em Poços, onde se tornou regente oficial da Banda Municipal, funcionário do governo do estado, aposentando-se no posto.
Que tal as três cidades se reunirem, recuperarem a história, e juntarem as obras do maestro?
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