Por Edinéa Alcântara
doutora em desenvolvimento urbano pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e pesquisadora do Laboratório de Estudos Periurbanos e da CAPES
membro do Grupo Direitos Urbanos | Recife
O Recife vem passando por um intenso processo de verticalização pelo interesse do mercado imobiliário em consolidar um padrão de edifícios altos, as torres.
Exemplo emblemático dessa tendência é o Projeto Novo Recife, empreendimento com 12 torres de cerca de 40 pavimentos, no Cais José Estelita, que desconsidera a existência do bairro de São José, na região central da cidade.

No momento, o Projeto Novo Recife encontra-se paralisado e sub judice, devido a ações populares da sociedade e ações do Ministério Público Estadual e do Ministério Público Federal. No entanto, tal tendência vem-se multiplicando em outros locais e pouco considera a paisagem e a integração com o bairro e edificações vizinhas, como mostram as figuras a seguir.

Foi nesse sentido, que professores da disciplina de Planejamento Urbano 4, do Curso de Arquitetura e Urbanismo, da UFPE, resolveram trabalhar a área do Cais José Estelita.
O resultado foi além do esperado, pois os estudantes tiveram a ousadia de propor uma solução integrada com o Bairro de São José e um dos grupos ainda conseguiu maior área construída e maior área de espaços públicos com um gabarito médio de menos de 7 pavimentos.
Preocupados com a importância da paisagem desse local para a história e a memória da cidade, os estudantes foram buscar em Jane Jacobs, em Kevin Lynch, em José Lamas, a base teórica para projetar. Fizeram também uma análise crítica do Projeto Novo Recife, da Moura Dubeux, e do Projeto Nosso Cais, da Universidade Católica de Pernambuco.
A partir desses estudos, desenvolveram as propostas. Os quatro grupos que trabalharam a área apresentaram soluções distintas e variadas. Alguns propuseram manter os galpões previstos para demolição, pelo Projeto Novo Recife, como um mercado público, para melhor integrar com o Bairro do Coque e do Cabanga, ou um espaço cultural.

Apesar da diversidade de propostas, as características de todos os projetos foram: adoção de quadras curtas, espaços públicos de permanência, uso misto dos edifícios, sistema viário com ciclovias e calçadas largas e, acima de tudo, um gabarito médio de menos de 10 pavimentos.
Essas diretrizes vão propiciar a integração com o bairro de São José e atrair pessoas de toda a cidade para usufruírem daquela paisagem, tão cara a todos nós. Tal paisagem, do século XVII, da época de Maurício de Nassau, captada por Frans Post, é parte da nossa história e da nossa memória.
“O projeto Novo Recife destrói a paisagem do Velho Recife”, essa frase da Prof. Lúcia Veras é emblemática da arquitetura e do urbanismo que vem sendo praticados nessa cidade. Foi assim com a destruição de parte do Caiçara, da Casa de Saúde São José, do Clube de Engenharia e tantos outros exemplares da arquitetura de uma época.
Precisamos mudar essa forma ultrapassada de produzir cidade. O Novo precisa conviver com o Velho. É assim nas grandes capitais europeias e nas cidades que têm no seu planejamento construir cidades onde as pessoas se divertem e vivem a rua.
Os alunos aprenderam que a verticalização excessiva nem sempre cabe em todo lugar. Em frentes d’água não é recomendada, pois cria espaços segregados, e principalmente em sítios históricos. Se estudantes, ainda em formação, puderam entender tudo isso e ousaram propor uma solução distinta do que propõe o mercado, mas viável economicamente, o que está acontecendo com o mercado?
Por que os empreendedores não se renovam e percebem a tendência dos novos tempos e passam a propor alternativas de fato sustentáveis ambientalmente, culturalmente e socialmente e não apenas economicamente. Sustentáveis porque integradas ao bairro e que têm como premissa construir cidade para pessoas que vivem a rua e não para torres, para shoppings e para carros. Finalizo com essa citação de Jan Gehl, arquiteto dinamarquês, consultor internacional de projetos exitosos de revitalização urbana e autor do livro Cidade para Pessoas, para a reflexão dos arquitetos, que quiserem ousar e propor arquitetura e urbanismo integrados para produzir cidade para pessoas. O Recife está clamando por isso.
O segredo é que, para fazer uma cidade com alta densidade e prédios baixos você precisa ser um bom arquiteto. Se não é um bom arquiteto, você sempre pode fazer um edifício mais alto. Torres altas são a resposta preguiçosa à densidade. Pode-se, sim, ter uma área com grande densidade, e com cuidadoso desenho da cidade e dos edifícios. Olhe Paris e Barcelona e veja que pode ser feito. Jan Gehl.
Ivanise barbosa Maia
17 de novembro de 2014 3:01 amRevitalizar o Cais José
Revitalizar o Cais José Estelita incentivando e construindo espaços culturais é entrgar ao povo o que é do povo e acabar
o que estava inacabado. É tornar útil o que era inútil e tornar o Recife mais humano e belo.
Construção de prédios só benefecia a especulação imobiliária e só favorece os grandes empresários.
Não vamos permitir essas aberrações. Parabéns aos estudantes de Arquitetura pela luta