5 de junho de 2026

Caro Temer, todas as cartas de amor são ridículas, por Leonardo Sakamoto

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Do blog do Sakamoto

Caro Temer, todas as cartas de amor são ridículas. Mas nós também somos

Leonardo Sakamoto

A primeira carta de amor que escrevi foi ridícula. Não o ridículo vindo da autocrítica, essa megera que nos assola, prima-irmã da culpa cristã. Muito menos o ridículo inerente a todas as cartas de amor, mote que virou até comercial de lingerie fazendo com que o cadáver de Álvaro de Campos (a.k.a Fernando Pessoa) desse cambalhotas em sua cova.

O ridículo foi que, quando eu era um pequeno ser, não tive a coragem de entregar uma cartinha para a menina bonita que não dava bola pra mim. Daí, ao tentar coloca-la sorrateiramente em sua mochila, logo depois do recreio, fui flagrado por uma amiga da menina bonita que correu para ela e disse algo do tipo: “Olha, o Leo tá abrindo sua mochila!”. Até explicar que o focinho de porco não era uma tomada, o estrago já havia sido feito, com aquela sala de fedelhos transformada em um pandemônio.

Convenhamos que crianças sabem ser bem ruins e, diante daquele clima estabelecido, se eu resolvesse levar adiante a ideia de dar aquelas folhas de caderno, escritas com lápis HB e devidamente sem rebarba, ela seria lida para a classe inteira, cravando – pela eternidade – meu nome no rol dos intocáveis. Talvez até os professores de português a usassem para mostrar como não se deve fazer orações subordinadas e a importância de revisar ortografia a fim de não passar vexame. Para evitar o exílio em algum porão de monastério no Nepal, a carta nunca foi entregue. Afinal, antes ficar conhecido como ladrão do que como cobaia.

Se isso não for ridículo, não sei mais o que poderia ser.

Aliás, sei sim. Anos depois, escaldado com essa experiência anterior, decidi mandar uma carta para outra moça pelo correio. O que não contava, porém, é que o conceito de inviolabilidade de correspondência não fosse algo universalmente conhecido e socialmente aceito. O que você faria se fosse um pai machista e opressor e abrisse uma carta de um moleque que estava apaixonado pela sua filha? Simples: bronca na filha – porque, em sua cabeça doentia, a culpa é sempre da menina que estava se oferecendo para os meninos da escola ao invés de estudar. E o que a filha faz? Mostra a carta pras migas. E o que as migas fazem? Fofocam para um mundo de gente, repetindo de orelha em orelha o que fora escrito para apenas um par de olhos lerem. E o que as orelhas fazem? Bullying no japonês. “O Leo tá apaixonado! O Leo tá apaixonado!…”

O japonês sempre se fode.

Não deixei de escrever cartas de amor em papel, mas é claro que elas escassearam. A facilidade do e-mail e, depois dos WhatsApps e messengers do Facebook da vida, tornaram anacrônico o ato de empunhar uma caneta Bic até que os dedos ficassem marcados com suas arestas. E a nossa pressa cotidiana também derruba o charme das coisas. Já houve namorada que me pedisse para parar de escrever porque ela não teria tempo para ler. OK, cá entre nós, sabemos que não era verdade. Mas acreditar em meias-verdades faz parte do serviço de quem escreve cartas de amor.

O que não significa que elas não mereçam existir, saídas do próprio punho, desenhadas letra por letra. Afinal, no fundo, elas não são feitas para o destinatário que estampa o envelope, mas para nós mesmos.

Peço desculpas para quem esperava um texto político relacionando à nossa atual conjuntura, pois este texto é sobre o ridículo de escrever cartas de amor.

“Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas. E só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas.”

Portanto, sugiro a Michel Temer que não deixe de escrever cartas de amor. Afinal, elas são ridículas. Mas todos nós também somos.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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5 Comentários
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  1. Anna Dutra

    9 de dezembro de 2015 2:34 pm

    O Ridículo…
    [video:https://youtu.be/tK0pQyfd5F8%5D

    “… Estar apaixonado é parecer um ser ridículo
    E não estar, com isso, nem aí
    Você se sente solto e livre mesmo num cubículo
    Tal como eu me sentia bem ali…”

  2. D_P

    9 de dezembro de 2015 2:49 pm

    Numa boa, ridícula é a

    Numa boa, ridícula é a atuação do Governo Dilma até o momento neste proceso de impedimento.

    Parece que ela está querendo sair….

  3. maria rodriguesm

    9 de dezembro de 2015 4:20 pm

    É melhor ser chamado de

    É melhor ser chamado de ladrão do que de cobaia caiu como uma piada muito bacana no contexto da história das cartas de amor de Sakamoto. Ri-me a valer.

    A outra boa tirada foi dizer que a namorada pediu pra parar de escrever por falta de tempo de ler. Isso aí é demais pra um Sakamoto apaixonado, Um fora que ninguém merece. 

    Por fim, Sakamoto escreve tão bem que a gente vai solvendo as palavras como se comesse um doce. E ainda nos põe o mistério, revelado ao final. 

    Parabéns.

  4. Fábio de Oliveira Ribeiro

    9 de dezembro de 2015 4:21 pm

    Carta de cu é rola. O tempo

    Carta de cu é rola. O tempo das missivas acabou:

     

    recomenda: contra o golpe de estado do , e use ORSIS T-5000!

     

  5. Marcos Carvalho

    9 de dezembro de 2015 4:30 pm

    O Sakamoto sacô tudo!

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