
O segundo episódio foi protagonizado por um vizinho que, inconformado desde a vitória de Dilma Rousseff nas eleições de 2014, passou a agredir sistematicamente a socióloga Walquíria Leão Rego, pesquisadora dos benefícios trazidos pelo Bolsa Família e eleitora convicta do Partido dos Trabalhadores, até que o caso fosse parar na polícia. O terceiro, talvez o mais chocante, aconteceu durante o enterro de José Eduardo Dutra, figura histórica da sigla. Entre a distribuição de panfletos que diziam “petista bom é petista morto”, além de montagens da presidenta sentada num vaso sanitário, e protestos contra o ex-presidente Lula, estava o sinal de que já não há mais fronteiras para o exercício do ódio num país francamente dividido.
Em coluna lapidar publicada logo após o incidente com Guido Mantega no início do ano, Eliane Brum recuperou o conceito de “banalidade do mal”, elaborado por Hannah Arendt, para descrever a automaticidade na realização das mais diversas atrocidades durante o 3º Reich na Alemanha, a despeito de seu potencial conscientemente monstruoso, substituindo-o pela ideia de “boçalidade do mal”, experiência provocada pelo avanço da internet na sociedade contemporânea. A boçalidade do mal, diz Brum, revela-se através da queda de máscaras que permitiram a revelação do verdadeiro eu recalcado pela experiência pública marcada pela impessoalidade, entendida como um mal social escancarado pelo declínio do homem público.
Mal social porque, em primeiro lugar, representa a negação do valor que nos é mais caro desde pelo menos o século XIX: a intimidade. Não por acaso a experiência pública se vê em derrocada porque escola, trabalho e assembleias são frequentados a partir de seu efeito instrumental, apenas um meio cujo objetivo principal é outra coisa. Neste sentido, importa menos o que a pessoa faz do que o que ela mesma sente a respeito. Efeito e causa disso são os programas de TV e revistas de cotidiano popularizados a partir dos anos 1970 e que brindam espectadores com aspectos que são fundamentalmente privados das mais diversas celebridades. O que sente seu artista favorito?
Não é por acaso que frequentemente as agressões sejam objeto de orgulho dos algozes, que muitas vezes expõem-nas, eles próprios, num exercício mórbido de narcisismo que se quer impor como liberdade de expressão e, a rigor, autenticidade, que é essa tendência de livramento das agruras da impessoalidade da vida pública.
No limiar do século 21, as redes sociais trouxeram consigo, de maneira direta ou não, uma promessa: horizontalizar as relações de poder calcadas pela informação, cada vez menos dependente de intermediadores de grande porte. Se a guinada provocou, de um lado, uma crise até agora não superada pelo jornalismo tradicional, de outro congestionou o espaço virtual. E isso implicou num processo quase natural de aquartelamento verificado pelos hábitos cotidianos dentro e fora da internet.
Em primeiro lugar, Eliane Brum estava certa. Com o avanço das plataformas de comunicação, a internet virou terreno fértil para que a queda de máscaras provocasse uma avalanche de pensamentos íntimos, muitos deles agressivos. Segundo, e talvez mais importante, a dinâmica das redes sociais mais populares, o que é o caso do Facebook, contribuiu para que a aparente abertura de janelas representasse na verdade uma experiência de isolamento.
Em maio, pesquisadores vinculados à rede de Zuckerberg anunciaram os resultados perturbadores de um estudo realizado com 10 milhões de usuários, detectando que, em geral, interage-se somente com postagens cuja afinidade é explícita. Por outro lado, o algoritmo Edge Rank reforça a lógica predominante entre eles e passa a direcionar publicações conforme o grau de interação desenhado anteriormente.
Na prática, isso significa uma tendência cada vez maior de aprisionamento de usuários em bolhas que afastam aqueles que pensam diferente e promovem uma sensação de bem-estar, na medida em que o mundo, tal como nos é apresentado ali, soa muito melhor, já que estamos entre semelhantes. O resultado é uma incapacidade cada vez mais flagrante de lidar com a diversidade, seja de que lado for.
Em terceiro lugar, este cenário tem contribuído para que a boçalidade do mal seja naturalizada como parte do cotidiano. Agride-se frequentemente nas redes como se estivesse dando bom dia. Cada vez mais cedo, as crianças estão expostas a este fenômeno, que, ao que tudo indica, só tem alçado novas dimensões. Em 2013, o vídeo de um menino de cinco anos passou a circular como troféu para revoltados on e offline. Dava detalhes do que ele entendia que Lula havia feito com o Brasil. A gravação foi feita pela própria mãe, que intervém o tempo todo com comentários complementares.
Evidentemente o ódio contra o PT não é o único. Aliás, nada parece mais transpartidário que o ódio. A própria democracia tem sido vítima dele nos últimos meses, com pedidos de “intervenção” militar precedidos por relativizações estapafúrdias sobre o regime de 1964 no país. O Brasil assassina 50 mil pessoas por ano, lincha uma por dia e até agora não foi capaz de dar o nome de “guerra civil” para nenhum dos eventos que o lavaram de sangue, mesmo os mais distantes.
E isso diz muito mais do que parece. Ao se combater o ódio enquanto expressão e um problema moral individual, ignora-se a sua capacidade coletiva de mobilização e, principalmente, a boçalidade deste mal, que, se não chegou agora, nunca deu tantos sinais de que não vai mais embora.
Walter Benjamim, sempre ele, dizia que a retenção do choque da vida moderna nos tirou a concentração e a capacidade de imaginar. E se agora já não são mais as charretes a derrubar auras pelas ruas na metrópole, como escreveu Baudelaire, smartphones e tabletsalimentam uma predisposição perversa do ser humano pela violência. Resta saber o que mais é preciso para que o ódio seja convidado a voltar para o armário. Quando já nem a morte é mais suficiente, talvez seja hora de recuar.
chanceLer01
9 de outubro de 2015 5:53 pmNas redes sociais há coisa
Nas redes sociais há coisa bem pior do que alguns imaginam.
O que pensar de um povo que se deleita com um grupo de possíveis policiais não identificados tirando uma tatuagem de paçhaço das costas de um suposto deliquente à faca, enquanto outros o torturam?
Nota-se que essa aceitação do mal tem a ver com a atuação agenciadora da mídia.
Muito além da mera questão político-partidária, o não enfrentamento dos grupos de notícias nos legou esse estado de coisa lamentável.
Vivemos tristemente num período tenebroso, típico de sociedades brutalizadas.
Sergio Luis Br
9 de outubro de 2015 6:52 pmO caso do haitiano abordado
O caso do haitiano abordado por imbecil on e off line.
Álvaro Noites
9 de outubro de 2015 8:00 pmA internet e a mídia só fez
A internet e a mídia só fez cair muitas máscaras, mostrando a verdadeira essência de muitos.
Haviam pessoas que pelas quais eu tinha uma enorme consideração, mas que hoje não me sinto mais bem em continuar em convívio.
Como escrevi aqui anteriormente, testemunhei nas redes sociais antigos diretores executivos de uma multinacional, pelos quais sempre senti grande respeito e adimiração (são famosos no ramo e, quiçá, na própria imprensa) pregando abertamente a não convívio e o isolamento profissional dos “petistas”.
É simplesmente assustador o que a mídia fez.
Estamos equivalentes à Alemanha dos anos 30: Me recordo desta observação feita por um estrangeiro quando eu estava fora do país, referente à execução do hino nacional, à capela, na Copa das Confederações.
Claro que tratei de defender nosso país e, obviamente, mostrar o quão equivocado ele estava.
Hoje vejo que, equivocado, estava eu mesmo.
Elvys
10 de outubro de 2015 1:15 amNotei algo em comum com os
Notei algo em comum com os tais ‘indignados’ de redes sociais, que extrapolam na vida real seus preconceitos: são pessoas sempre com idade acima de 40, 45 anos. Traços de amargurados, com frustrações na vida pessoal (e profissional). Ao que me parece, não sabem lidar com adversidades, os contra tempos da vida. E acima de tudo, como diz Ciro Gomes, são “uns frouxos”. E imaturos.
alvaro marins
10 de outubro de 2015 11:54 amOs boçais se sentem
Os boçais se sentem legitimados pelo silêncio cúmplice da mídia, o que incentiva e osequiosamente aprova essas atitudes.