
Enviado por Monier
E mais sobre a configuração progressista da nossa Corte Superior:
A que veio o Ministro Edson Fachin?
por Breno Tardelli
No julgamento de descriminalização do porte de drogas para consumo em andamento no Supremo Tribunal Federal, tudo caminhava para um resultado positivo para os abolicionistas. Os advogados pró-descriminalização haviam sido qualitativamente superiores aos representantes do Ministério Público – em especial a Rodrigo Janot, que se utilizou de um discurso ignorante sobre o tema, como quando, por exemplo, afirmara que 90% dos usuários de maconha são viciados, dado este classificado como piada por médicos. Além disso, o voto do Ministro Gilmar Mendes foi completo em termos de proteção aos direitos humanos, indo além da própria descriminalização, ao consagrar a audiência de custódia em todo país, e também entrando em temas sensíveis, como a falta de critérios para se definir o que é tráfico e o que é uso.
Ao fim do voto do Ministro Gilmar, relator do caso, o próximo a votar seria o mais novo em tempo de corte, Edson Fachin. Pois foi quando o ministro que passou pela sabatina e ambiente político mais acirrados de toda história, pediu vista e interrompeu o julgamento, que pode não só ser fundamental na vida de tantos punidos por conta de uso em todo país, como também representar uma nova perspectiva judicial sobre o tema.
Fachin, até o momento, apenas decepcionou quem lutou para que ele se sentasse na corte judicial mais alta do país. O começo da tragédia foi quando teve de ser sabatinado no Senado, por figuras como Magno Malta e Ronaldo Caiado. Naquela oportunidade, Fachin agradou a gregos ruralistas e troianos fundamentalistas. Até aí, dizia o público que acreditava no potencial dele, “faz parte do processo político para passar por lá – diga o que querem ouvir e isso passará rápido…”.
A sabatina passou, o Senado votou e a festa por sua indicação foi grande. De fato, foi unanimidade entre grandes juristas do país acerca de sua capacidade técnica para compor a Corte. Afinal, Fachin foi inovador enquanto pensador jurídico, em especial na área de Direito de Família. Até que a poeira abaixou, as férias do Supremo chegaram e, quando menos se prestava atenção, Fachin começou a votar. Será que o que dissera na sabatina fora apenas em homenagem ao ritual de passagem, ou ele realmente acreditava naquilo? Naquela oportunidade, quando questionado sobre se era a favor de descriminalizar as drogas, demonstrou preocupação – “onde passa o boi passa a boiada”.
“Quem abre uma fresta para as drogas, muitas vezes, não consegue segurar as outras portas da casa. E aí é preciso ter muito cuidado, porque estamos falando dos nossos jovens, da juventude brasileira”.
Na prática, Fachin foi ao encontro de suas posições na sabatina. No julgamento trazido pelo Min. Barroso, que sugeria algumas teses bases referentes ao princípio da insignificância para serem aplicadas pelo Judiciário, foi do Min. Fachin que saiu o voto mais duro, que sequer conheceu os Habeas Corpus sobre casos bizarros, como furto de bombom de chocolate. Em outras palavras, Fachin não entrou no mérito da questão e deixou passar uma grande oportunidade para balizar a insignificância na Justiça, outro tema “Torre de Babel” – cada Tribunal a aplica de um jeito.
Mas, não é só de entendimentos repressivos penais que se faz um ministro decepcionante. No julgamento sensível para a pauta animal e ambiental, o Ministro Marco Aurélio trouxe a pauta das vaquejadas e maus tratos animais. Em discussão, o que prevalece: a tradição cultural ou a proteção à fauna e meio ambiente? Marco Aurélio votou pela inconstitucionalidade de uma festa que consiste em laçar bois pelos pés ou rabo. Segundo ele, a prática chamada de “esporte” causava danos terríveis aos animais, como quebra da coluna, das patas e mutilamento do rabo. Gilmar Mendes foi em sentido contrário, de que se tratava de uma tradição do povo brasileiro, entendimento este seguido por Fachin, que chegou a afirmar que não havia evidências de que o esporte causava danos aos animais.
De fato é juridicamente possível defender que o multilamento de animais não prevaleça à força da cultura da raça humana. Mas seria esse o entendimento majoritário de quem brigou para que Fachin sentasse onde está sentado? Seu voto sobre a vaquejada gerou revolta de ativistas da pauta ambiental. Carolina Salles, colunista do Justificando, esclareceu o assunto no texto Não, nem a tourada nem a vaquejada são modalidades esportivas, no qual aborda bem o tema.
Evidentemente, o tempo é capaz de curar a ferida e de conscientizá-lo a não ser só mais um que passa e não deixa saudade. A curto prazo, nesta semana haverá o julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF), que pode obrigar o Executivo a fazer uma real política carcerária digna no país. Além disso, por certo que julgamentos e pautas mais variadas sob os aspectos do direito virão à discussão no Supremo e que sob Fachin irá pairar a dúvida se, de fato, valeu tanto a pena apoiar sua via sacra até a Corte.
Cabe agora esperar pelas oportunidades para Fachin se reinventar e mostrar a que veio. Certamente, poucas serão tão interessantes quanto o julgamento da descriminalização das drogas, uma vez que, se ele for o ministro que todos esperavam, terá obrigatoriamente que ser muito diferente do que foi tanto na sabatina, quanto no seu começo de vida na corte.
Brenno Tardelli é Diretor de Redação no Justificando.
Jorge Luis
27 de agosto de 2015 12:59 pmEu não considero
Eu não considero “preocupante” que o ministro Fachin tenha pedido vistas. Ele é o mais “novato” na corte e pode precisar de mais tempo para estudar o caso. É para isso que serve o pedido de vistas. Se ele devolver o processo dentro de um prazo razoável, não vejo prejuízo para o julgamento.
Não devemos confundir isso com pedidos de vista eternos, como o feito pelo chicaneiro Gilmar Mendes, esses sim tem o objetivo único de paralizar o processo e correspondem a um completo desvirtuamento dos reais objetivos dos pedidos de vistas.
Free Walker
28 de agosto de 2015 12:28 pmAssim como fez o ministro
Assim como fez o ministro Ricardo Lewandowski sobre o Caso Celso Daniel enviato ao Supremo.
alexandre costa
27 de agosto de 2015 1:38 pmNão conheço o Brenno
Não conheço o Brenno Tardelli, mas fico surpreso de ver como algumas pessoas querem enquadrar o discurso do outro na sua própria visão de mundo. O cara quer que o Fachin vote de acordo com a Brenno-visão-do-mundo. Os argumentos são fraquíssimos e contraditórios. Ele chega a uma atitude surreal de imaginar que Fachin é contra, e por imaginá-lo contra, criticá-lo por agir de acordo com a sua preocupação na sabatina. Dá para compreender? Fachin, na visão de Brenno, está sendo criticado por ser coerente… Depois critica o Fachin por entender que a vaquejada é uma manifestação cultural!! Caro Brenno, eu também penso que a vaquejada é uma manifestação cultural, mas nunca criticaria um juiz da suprema corte por pensar de forma contrária. isso chama-se democracia. Sua atitude está sendo policialesca: se não pensar comigo, é contra mim. Espero que você não seja tão inflexível nas suas relações pessoais e familiares…
Cara, que saber a minha opinião? Fachin pediu vista para que outro ministro mais à direita não pedisse primeiro e ficasse com o processo parado por mais de um ano como o ministro Gilmar está fazendo com a proibição de financiamento privado. Fique tranquilo, dessa vez o Supremo votará com voce!
Allex
27 de agosto de 2015 2:46 pmGMendes jogou pra galera ao
GMendes jogou pra galera ao votar rapidamente pela descriminalização, inclusive com direito a discurso pretensamente progressista e tal. O esperto viu aí uma boa oportunidade de ganhar alguma simpatia da população mais à esquerda, principalmente a parte composta de pessoas menos conservadoras e menos afeitas a uma postura de rebanho. Assim ele tenta usar este julgamento para diminuir as luzes sobre suas manobras políticas e ilegais em favor de uma tentativa de impeachment. Já o tal Fachin está no direito dele em pedir vista. Como já dito aqui, o importante é respeitar o prazo. Agora quanto ao seu voto sobre a vaquejada, realmente foi vergonhoso e decepcionante. Demonstrou um conhecimento primário e supercial acerca do tema.
Cunha
27 de agosto de 2015 3:18 pmO que se pode esperar de um
O que se pode esperar de um magistrado que considera tradição a covardia e a violência contra os animais?
Pior: que não está convencido de que os animais são maltratados nessas práticas a que chama tradição?
Luciano GM
27 de agosto de 2015 4:58 pmSanta ignorância.
Confundir é a essência do discurso da mídia. Gilmar Mendes não descriminalizou nada. O voto dele foi o de tirar das mãos da polícia a decisão de levar a prisão ou não uma pessoa que seja pega com tóxico.
Quem avaliará isso? O Juiz, para quem o preso deve ser apresentado pela polícia em 24h da prisão em flagrante, como determina a lei. Caberá ao Juiz liberá-lo do flagrante e aplicar penalidade alternativa, ou converter a prisão em flagrante em preventiva, de acordo com a avaliação das circunstâncias do fato. É aplicar o que já está no art. 28 da Lei 11.343/2006, que não prevê prisão.
Hoje a polícia aprecia os fatos e prende tanto traficante e como quem está na posse de drogas de mesmo modo. Ou seja, a polícia prende arbitrariamente e o Judiciário se omite, e as prisões estão abarrotadas de traficantes que na verdade são usuários.
Não tem nada de descriminalização no voto do Gilmar Mendes, e sim o mero cumprimento do previsto em lei que o Judiciário dos Estados não cumprem o dispositivo legal.
Simples assim.
Arthemísia
28 de agosto de 2015 12:00 pmPois é, a questão é de poder.
Pois é, a questão é de poder. É devolver o poder ao Judiciário, que é a razão de viver de GM. Policiais já entraram, creio que no STF, contra as tais audiências de custódia, pois já estão se sentindo despretigiados e desautorizados. Essas facções brigam entre si e nós pensamos que opinamos em alguma coisa. Foi isso que virou o Estado brasileiro: briga de facções.
baader
28 de agosto de 2015 11:10 amcomo os arautos do
como os arautos do neoliberalismo não morreram como poderia supor um desavisado, se é que um dia estiveram moribundos no BR (ou noutras partes do mundo), como as tais PPPs são eufemismos para a sensaborona privatização (ou deveria dizer escandalosa), todo cuidado é pouco para pensarmos em algum avanço na questão. privatização de presídios vem se mostrando um beleza para os lucros (logro, engano).
Dario Achkar
28 de agosto de 2015 11:32 amFoi tudo combinado…
na minha opinião Fachin tomou tal atitude em comum acordo com os outros ministros… suponho que fizeram uma pausa estratégica para avaliar as reações da opinião pública ao voto do Gilmar Mendes. Pela reação do Lewandowski, foi isso que me pareceu…
Meire
28 de agosto de 2015 3:00 pmPequeno porte grandes implicações…
Inclusive pareceres médicos dos efeitos do uso de drogas no ambiente da família e trabalho. Menos ansiedade e um pouco de reflexão, não faria mal a ninguém.
Almeida
29 de agosto de 2015 2:44 amMalandragem Dá Um Tempo
Fachin segue conselho do Mestre Bezerra
[video:https://www.youtube.com/watch?v=UxYnBvSXsYw%5D
Adilsonbb
29 de agosto de 2015 4:54 amNão tenho como…
Não tenho como concordar com o articulista, pois Edson Fachin disse que um magistrado não deve deixar-se pautar pela mídia.
Vitor
1 de setembro de 2015 4:16 pmÉ um grande paradigma, mas
É um grande paradigma, mas tudo está ligado diretamente, o trafico o usuário bandidinho que te rouba e troca por crack qualquer coisa serve de moeda de troca, por causa da falta de controle da fissura (pois não é um comércio legal), o grande traficante que nunca vai preso mas tem armas e capital forte e contatos políticos e policiais ambos corruptos (a polícia deveria estar atrás de criminosos de verdade ou seja eles mesmos políticos que ficam empatando a parte da polícia honesta de resolver realmente crimes desviando a atenção, matando usuário, mini traficantes armados até os dentes, até polícia morrendo e inocentes nessa guerra burra) e que os grandes maus nunca caem na linha de frente como os ponteira no tráfico ou só usuário que vão preso, e entram outro ou outros no mesmo lugar dos mini traficantes para venda, e os que vão preso depois já saem formado na escola do crime (cadeia), deveríamos colocar a maconha para uso como qualquer droga licita como cigarro e álcool que porem são mais prejudiciais que a maconha já comprovado, e fins medicinais e todos fins que se pode usar que são muitos (reorganizando a economia dando empregos também consequentemente) não caberia todos benefícios se colocasse aqui, até um remédio que cura vícios de outras também. E as outras drogas deveriam ficar no âmbito da medicina vendido com receita na farmácia perante tratamento do vicio com indução a parar pelo médico assim podendo estudar mais profundamente a droga e o usuário, cuidando dos doentes certo, arrecadando impostos na produção e venda, tirando dinheiro do tráfico e investindo em informação para diminuir o consumo igual Portugal mostrou e outros países, tal como o Brasil mesmo com a divulgação dos males do cigarro estampado em fotos e informação atrás, então diminuiu muito (está claramente em pesquisas recentes) com informação ao povo, o restante de arrecadação vai para população e no que precisa que a receita é muito mais muito alta! Pense!!!!! Quanto mais proibir mais cara fica droga e mais interessados em vende-las e mais curiosos os jovens ficam para conhecer e sem informação coerente acham que as outras é igual maconha ao experimentar que não faz nada perto do crack e cocaína que tem a mesma proibição, aí experimentam e já é tarde acorda Brasil!!!!!! Descriminalizar é só o começo da evolução!!! Vamos esvaziar as cadeias tirar os inocentes doentes e quebrar as pernas dos traficantes e corruptos!! Assim ninguém iria comprar drogas de mal qualidade no trafico ilícito!