
Do Estadão
José Roberto de Toledo
Quando o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, for denunciado à Justiça por corrupção e permanecer no cargo – argumentando que muitos colegas seus também o foram e nem por isso renunciaram ao mandato –, a atual legislatura se tornará oficialmente a mais inacreditável pós-redemocratização. Mesmo competindo com anões do orçamento e o maníaco da serra elétrica, a atual safra parlamentar supera as anteriores em despudor.
A lista do Janot, como ficou conhecido o rol de políticos sob investigação do procuradorgeral da República no âmbito da Operação Lava Jato, tem duas arrobas de deputados federais e uma dúzia de senadores. A eles somamse mais de uma centena que é alvo de inquéritos variados, além de três dezenas que já se graduaram como réus. Todos seguem firmes e fortes nos seus gabinetes, sem qualquer vestígio de vergonha ou embaraço.
Todo mundo é inocente até prova em contrário. Porém, pululam entre os investigados e denunciados aqueles que vão à tribuna fazer discursos indignados clamando pelo impeachment ou pregando a renúncia de políticos rivais – mesmo quando estes ainda não atingiram formalmente o status de investigados e denunciados. Faça o que eu digo, não faça o que eu faço é o seu mote na vida.
Até aí é palavrório. Faz parte. A conta a ser paga pelo seu, o meu, o nosso só aparece quando essa turma resolve votar. Apenas concedendo aumento de tetos salariais e vinculando a remuneração entre várias carreiras do setor público, somam um par de bilhões por ano às despesas dos governos. Bastalhes apertar um botão. Se alguém ameaça vetar, unem-se para derrubar o veto – numa mistura de vingança e populismo. Fazem porque podem, e basta.
Quando Cunha for denunciado por Janot ao STF, será curioso acompanhar quantos e quais deputados pedirão que ele renuncie. Formalmente, é legal ele continuar presidindo a Câmara, mas será legítimo? Ou o conceito em moda esta semana não se aplica àqueles que são amigos enquanto forem inimigos dos inimigos?
O Congresso chegou ao ponto em que chegou porque – com raras exceções – só políticos profissionais e seus familiares têm coragem de se candidatar a uma cadeira em qualquer uma das Casas. Se falar mal de deputado e senador virou esporte nacional, por que um líder empresarial ou comunitário vai se arriscar a concorrer? Ainda mais sabendo que o custo de uma campanha eleitoral é impossível para quem não tem patrocinador.
Como regra, o dinheiro é o fator mais determinante para o sucesso em eleições proporcionais. Assim, muito antes de chegar ao Congresso, o candidato a candidato já estará comprometido com os acordos feitos entre partido e empresas financiadoras. Como muitas vezes a doação é intermediada pela direção partidária, o candidato arriscase a ser vinculado a uma empreiteira padrão Lava Jato sem nunca ter visto ou conversado com um diretor dessa empresa.
Isso dá enorme poder ao burocrata partidário. Vira ótimo negócio dirigir um partido. Não por outro motivo, há 32 deles, e mais tentam se viabilizar. Pelas mesmas razões, nenhuma mudança no sistema eleitoral mexeu com as doações empresariais de campanha. Ao contrário. O Congresso que aí está certificouse de que tudo será como antes quando o STF ensaiou quebrar o esquema.
Tudo isso gera um paradoxo do qual o Brasil não consegue sair. Quanto mais criticase os políticos, mais eles monopolizam a política. E aqueles que se enojam dela são condenados, a cada eleição, a serem governados pelos que têm estômago de aço.
*
Este texto foi escrito antes de Janot apresentar denúncia contra Cunha ao STF. Por isso, há uma possibilidade de o procurador ter denunciado o presidente da Câmara e este ter renunciado ao cargo. Esse cenário mudaria algumas vírgulas de lugar, mas não a conclusão nem o problema. E tudo seria ainda mais inacreditável.
Roque
21 de agosto de 2015 1:52 pmÉ um palvrório inacreditável
É um palvrório inacreditável de um jornalista-comentarista inacreditável… Fala conforme muda o vento.
sergio martins pinto
21 de agosto de 2015 3:07 pmO diabo, no caso, não é o
O diabo, no caso, não é o vento. É o cisco chamado por aí de congresso.
savio sá
21 de agosto de 2015 2:21 pmDevemos todos os brasileiros,
Devemos todos os brasileiros, apoiar e reverenciar o procurador Janot pela sua coragem e zelo pela coisa pública. O nosso pais está acima de partidos e agremiações políticas que se organizam em coluios, formando verdadeiras quadrilhas que delapidam a nação e destroem toda esperança de um povo que trabalha duramente para contruir nesse pais dias melhores para todos. Parabéns Dr. Janot. Todos os homens e mulheres de bem deste pais, nesse momento crucial que estamos vivendo, torcemos por você. Não podemos perder esse momento. É a oportunidade que temos para reconstrução da ética e da moralidade. Sem esse valores, não podemos alimentar esperanças. Somente a verdade e a justiça genuina são capazes de nos levar a um futuro promissor.
lenita
21 de agosto de 2015 2:43 pmMoney
Money,money, money…………..
aliancaliberal
21 de agosto de 2015 4:32 pmNão é momey.
Poder, poder,
Não é momey.
Poder, poder, poder…….
Cunha
21 de agosto de 2015 3:15 pmA faxineira avisou que não ia
A faxineira avisou que não ia sobrar pedra sobre pedra.
Cunha é apenas uma pedra.
Faltam outros Cunha e outras pedras.
A Justiça é morosa.
Mas é só esperar com um pouquinho de paciência.
É pena que tucanos ainda permaneçam ininputáveis.
Mas o dia deles também chegará.
jc.pompeu
21 de agosto de 2015 3:20 pmpenso que o povo massa nas
penso que o povo massa nas ruas deveria dar um abraço de urso neste congresso escatológico fim dos tempos…
Orlando Soares Varêda
21 de agosto de 2015 3:27 pmO deputado e pastor Eduardo
O deputado e pastor Eduardo Cunha não tem a menor chance de vir a ser condenado por este STF que ai está a dormitar. A única hipótese para um cidadão, mesmo sendo um safado do porte desse Cunha, que, não sendo um filiado ao PT venha ser condenado pelo judiciário da classe domininte que temos. Pelo o que assistimos, diria que tal hipótese é igual a zero. Ou seja, absolutamente nenhuma.
Além do mais, o salafrário do deputado e quase pastor evangélico em apreço, é um especial protegido do Aécio da Cunha et caterva. Portanto, recolhamos os cavalos da chuva, e, oremos aos deuses, para que a enxurrada que se avisinha seja suficientemente forte para carregar todo esse rebotalho pras plutônicas profundezas do inferno. Amém.
Orlando
chris
21 de agosto de 2015 4:33 pmIncrível é um adjetivo brando demais
A decadência moral e a falta de vergonha desceram a limites inimagináveis. Mas sabemos que isso não aconteceu de repente, tudo foi progressivamente afundando com a conivência de todos nós… não é que não criticássemos antes e agora, mas com essa coisa de “nunca dar em nada”, eles foram se acostumando aos xingamentos e agora eles cagam e andam para nós (o termo chulo é bem apropriado!), pois nunca houve uma retaliação de fato do povo contra eles. Encarneirados vamos a todos os pleitos depositar nossas esperanças (!!!) numa suspeitíssima urna eletrônica, acreditando quando a TV nos diz que esta é a “festa” da democracia – mas que é a farra de alguns, eu não tenho a menor dúvida!
E a decadência veio por meio de inúmeros episódios, como o moralismo hipócrita de um Demóstenes, com um “estupra mas não mata” de um eterno impune Maluf (que fez questão de apertar a mão do Lula, ambos cientes do simbolismo envolvido), com todas as justificativas de um PT que ingressou na realpolitik sem nunca se dar ao trabalho de explicar ao eleitor o que isso significava…. todas as omissões e concessões, justificáveis ou não, geraram este monstro que está aí para nos devorar. Uma das cabeças é o congresso, outra está expressa no fascismo que avança ferozmente no coração dos insatisfeitos, iludidos por uma direita que aponta o dedo para a corrupção alheia, vestindo convenientemente a fantasia da castidade outrora usada por partidos ditos de esquerda.
O fundo do poço chegou, nada de paliativo vai ajudar. Vão esperar alguma “depuração” dos quadrilheiros do congresso?? Navalha na carne (faz-me rir)? A “justiça” de um Gigigolô Mendes?
Se nem o vestal PT tem coragem de fazer uma reflexão, um mea culpa, nada… para não dar munição para a oposição (!!!), como se eles precisassem disso…
Roberto Monteiro
21 de agosto de 2015 6:07 pmEle faria um favor a todos
se listasse esses deputados e senadores, com seus respectivos partidos. Veráimos o ranking da sem-vergonhice no Brasil, mas esse cidadão que escreveu o texto bem sabe que muita gente mostraria o fundilho e esvarizaria muitos discursos dos que lhe são iguais. Resumo: bando de hipócritas!