4 de junho de 2026

Ex-militar descreve pacto de silêncio com jovens queimados no Chile

 
Por Victor Farinelli – Santiago 
 
Fernando Guzmán confessou a juiz que militares que participaram da ação contra fotógrafo e estudante foram treinados para dar versão falsa à Justiça Militar

Foram 29 anos de silêncio, ameaças de morte contra ele e sua família, sentimento de culpa e depressão, até que, na noite desta terça-feira (21/7), o ex-soldado Fernando Guzmán resolvesse contar tudo o que sabia sobre o caso “Queimados”, um dos mais emblemáticos casos de violação dos direitos humanos durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

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Fernando Guzmán confessou a juiz como funcionava pacto de silêncio entre militaresA confissão aconteceu no escritório do juiz Mario Carroza, da Corte de Apelações de Santiago – o mesmo que investigou os acontecimentos durante o Golpe de Estado de 1973 e morte do ex-presidente Salvador Allende (1970-1973), e que ainda trabalha no caso da morte do poeta Pablo Neruda.
 

Em entrevista ao canal estatal TVN, Guzmán contou como seus colegas, liderados pelos tenentes Julio Castañer e Pedro Fernández Dittus, queimaram vivos o fotógrafo Rodrigo de Negri e a estudante Carmen Gloria Quintana – a segunda conseguiu sobreviver às queimaduras, o que permitiu que o caso fosse conhecido pela opinião pública.

Guzmán também revelou como funcionou o pacto de silêncio que manteve a impunidade sobre o caso durante quase três décadas. “Eu não participei da ação. Sou muito católico, e, quando me pediram para queimar uma pessoa viva, aquilo foi contra os meus princípios. Levei uma reprimenda no ato, e me afastei. Eu vi o tenente Castañer ateando o fogo sobre os dois jovens, mas depois não consegui mais olhar. Os gritos da moça eram assustadores”, contou.

Caso Queimados

No dia 2 de julho de 1986, um grupo de estudantes da Universidade de Santiago realizava um protesto com barricadas na Avenida General Velásquez, no centro da capital chilena, quando foi interceptado por uma patrulha militar. Guzmán era o operador dessa patrulha, que conseguiu capturar apenas uma das manifestantes, a estudante Carmen Gloria Quintana. O fotógrafo Rodrigo de Negri, que registrava o evento, tentou ajudá-la a escapar e também foi detido pelos soldados.

“A patrulha era feita por dois veículos que traziam uns dez homens em total”, contou Guzmán na confissão. “Eu estava no que chegou depois, junto com o tenente Castañer. Quando desço do carro, eu vejo os dois: o homem estava deitado de barriga para o chão, a moça estava de pé contra a parede com um soldado segurando o seu braço.”


Estudante Carmen Gloria Quintana sobreviveu às queimaduras e contou sua história, o que permitiu que os fatos viessem à tona

Guzmán afirmou que a ordem para queimar os prisioneiros partiu do tenente Julio Castañer. “A patrulha que chegou primeiro também apreendeu um galão de querosene com os manifestantes, provavelmente usado pra fazer a barricada. Castañer ordenou que se jogasse combustível sobre os dois.” O relato conta que os demais soldados banharam Carmen Gloria Quintana com querosene da cabeça aos pés. Já Rodrigo de Negri, somente pelas costas. Finalmente, o mesmo Castañer teria iniciado o fogo com um isqueiro.

“O tenente Castañer foi quem disse que era preciso matá-los e desaparecer com os corpos. O tenente Fernández Dittus se opôs, porque ele também é católico, mas depois aceitou a determinação, quando Castañer disse que haveria consequências se eles seguissem com vida”, contou Guzmán ao juiz Carroza.

Depois de queimar os prisioneiros, os militares levaram os dois, carbonizados a uma área rural a 20 quilômetros do perímetro urbano de Santiago, sem perceber que ambos ainda estavam vivos. “Quando despertei, senti uma dor imensa, não conseguia gritar, não conseguia me mover bem, por sorte apareceu um sujeito que nos acudiu e nos levou a um hospital próximo. O Rodrigo também me ajudou a levantar, ele parecia estar menos afetado que eu”, lembrou ela, hoje professora de psicologia, em entrevista para o documentário “Chile: As Imagens Proibidas”, do canal Chilevisión. Na verdade, Rodrigo de Negri, então com 19 anos, teve o tórax comprometido de forma irrecuperável, e uma infecção pulmonar acabaria levando-o à morte, quatro dias depois.

Horas depois do resgate dos dois jovens, o Exército chileno emitiu um comunicado dizendo que as queimaduras haviam sido provocadas pela explosão de um coquetel molotov que eles mesmos teriam carregado antes da captura, e que o pessoal militar havia salvado suas vidas contendo o fogo com cobertores. Ainda assim, foi aberta uma sindicância interna da Justiça Militar, que determinou a prisão do tenente Dittus pelo crime de negligência. No entanto, ele foi solto após cumprir 600 dias de presídio, após sua defesa comprovar perante a corte marcial que ele sofre de “psicopatia orgânica”, o que também lhe valeu uma pensão estatal por invalidez.

Pacto

Quando os corpos foram resgatados, Guzmán e todos os militares envolvidos no caso foram escondidos no Forte Arteaga, uma base do Exército localizada na cidade de Colina, na região metropolitana da capital. Lá, eles passaram duas semanas recebendo instruções sobre o que deveriam falar à Justiça Militar. “Foi como iniciou o pacto de silêncio. Era proibido falar sobre o que aconteceu. Era proibido dizer qualquer coisa diferente da versão divulgada oficialmente. Quem abrisse o bico arriscava represálias contra si ou contra sua família”.


Quintana (esq.) e De Negri foram queimados vivos por soldados durante ditadura; somente ela sobreviveu

O ex-soldado revelou também contou que se retirou poucos meses depois, e que passou vários anos sofrendo de depressão profunda devido ao episódio. “Eu ainda tenho vivo na minha memória os gritos daquela moça, era como ver alguém narrar a própria morte. Aquilo acabou com a minha vida, nunca consegui me recuperar”. Guzmán afirmou, em entrevista para a TVN, que havia pensado em confessar tudo outras vezes, mas que havia desistido devido a ameaças de ex-superiores.

O testemunho de Guzmán levou o juiz Mario Carroza a determinar a prisão de sete ex-oficiais, entre eles os tenentes Castañer e Fernández Dittus. “Fizemos todos os interrogatórios nesta quarta-feira (22/7) e decidimos manter a prisão de cinco dos sete réus”, explicou Carroza, em entrevista coletiva para a imprensa local.

O Palácio de La Moneda também falou sobre o caso. Marcelo Díaz, porta-voz do governo, afirmou que “a confissão de Fernando Guzmán é um grande passo para busca pela verdade, mas ainda falta que outras pessoas também tenham a coragem de romper o silêncio e colaborar com a Justiça.”

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

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5 Comentários
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  1. Charles Harnack

    23 de julho de 2015 5:10 pm

    Creditem essas mortes

    Creditem essas mortes juntamente com milhares de outras mundo afora, no cartão corporativo dos EUA, naquela época com Henry Kissinger assassinado a seu bel prazer, para impor a liberdade e democracia das multinacionais, como sempre, e como fica parecido com movimentos antigos e bem recentes no Brasil.

  2. João de Paiva

    23 de julho de 2015 5:30 pm

    Eu gostaria de saber como

    Eu gostaria de saber como reagiriam aqueles que foram à Av. Paulista, empunhando cartazes pedindo intervenção militar, se alguém da família deles fosse vítima de um crime horrendo como esse, cometido por um agente do Estado, em nome desse mesmo Estado.

    1. Frederico69

      23 de julho de 2015 9:41 pm

      eu acho que eles são tão estúpidos

      que são capazes de dizer que seu parente tinha mesmo umas idéias bolivarianas, um verdeiro petralha, que mereceu o fim que teve!

      estão quase tão doutrinados quanto o povo alemão no tempo de hitler.

  3. ana s.

    23 de julho de 2015 8:55 pm

    Ignorância em rede

    Há uns dois anos atrás este blog, entre outros, linkou um vídeo de PC Siqueira sobre esquerda x direita, a propósito das malfadadas “jornadas de junho”. O vídeo estava no Youtube e tive a curiosidade de ler os comentários. Coitado de PC! A direita acéfala da rede caiu em cima dele esculhambando (o vídeo revelava sua simpatia pela esquerda). O assutador é que um dos comentaristas dizia que a prova da superioridade da direita era o fato de que “nunca houve uma ditadura de direita”. “Como assim?”, alguém perguntou. “E o nazismo?” “Nazismo = comunismo”, respondeu o web-direitista. “O nome já diz tudo: nacional-socialismo”. Já estava quase rindo, achando que aquele era um caso isolado da mais profunda ignorância, quando percebi que vários outros vieram corroborar semelhante absurdo.

    Valeria perguntar aos “novos gênios da política” que pululam na web: Pinochet também era de esquerda? Se era de direita, não era um ditador? É bem capaz que digam que não, pois já dizem, com todas as letras, que o que tivemos no Brasil de 64 a 85 não foi ditadura (tanto é que pedem a volta do regime).

    Honestamente, não queria ter vivido o suficiente para ver o Brasil se encaminhando para um destino tão triste outra vez. Depois de tanta luta pela democracia. E o pior de tudo é que amplos setores da esquerda terminam agindo como linha auxiliar dos golpistas (Luciana Genro, Zé Maria do PSTU…)

    Muito cansada. 

  4. Galvão

    24 de julho de 2015 2:22 am

    Museu da Memória e dos Direitos Humanos

    Em Santiago (Cl), visitei o museu no dia 19/07/2015, eu que tinha 90% de certeza que o José Serra tinha sido apadrinhado pela CIA, hoje tenho 100% de certeza, de que sem a ajuda da Agência de Inteligência dos EUA, o Serra não saia de lá com vida. E a sua atuação como senador, é a indicação concreta de que ele trabalha para eles.

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