
Por Elias Mattar Assad
Com a capacidade de raciocinar eclipsada pelos cerebrinos bombardeios das redes sociais, de blogueiros, além de setores da mídia colaboracionista, nossa população faz ressurgir aquela velha turba que, com igual vigor, grita para culpados e inocentes: “crucificai-o”!
As reações são as mesmas de outrora. A diferença para com a atualidade está apenas no cenário: roupas, cortes de cabelo e smartphones em punho. Facilmente manipuláveis, continuam aplaudindo Judas, escolhendo Barrabás, cultuando bezerros de ouro, matando pessoas em fogueiras, ou de forma vária. Sabem os poderosos que, para cometer injustiças impunemente, é preciso demonizar previamente.
A desinformação em tempo real dá origem a falsas imagens, e a massa ignara transforma-se em monstro multifacetado, no afã de “combater monstros”.
Assim, inconsequentes deturpadores de opinião constroem castelos de fumaça, e alienados passam a “residir” neles com seus infalíveis smartphones.
Nossos bárbaros contemporâneos são emancipados de costumes, predadores do direito posto e ladrões da liberdade. Instintivamente, praticam a Lei de Lynch, atentam contra instituições, banalizam patrimônios, crenças, honras e vidas alheias. Aliás, casos de linchamentos físicos têm aumentado vertiginosamente nesta quadra histórica brasileira, fronteiriça da desesperança, em brados insanos por mais prisões e presídios, afora o silêncio com o sucateamento da educação. Comemoram inaugurações de shopping centers e não se incomodam com fechamento de fábricas e hospitais.
Das torres dos seus castelos de fumaça, os alucinados por superexposição midiática vislumbram planícies imaginárias de um mundo perfeito. Daí as ilusões pisoteiam a lógica racional e se propagam geometricamente, rumando ao insuportável do incompreensível. No paraíso dos hedonistas, supor e odiar são mais cômodos do que raciocinar.
Mas se os problemas são reais, como enfrentá-los com ilusões?
Investigações e processos devem partir de fatos determinados, comprováveis tecnicamente e às claras, assegurando defesas. Não se concebem imposições de vontades pessoais para destruir reputações dos investigados ou de terceiros em explícito terrorismo de estado.
Como se não tivéssemos leis, apresentam-nos como troféus a prostituta das provas, agora como rainha e, em público, acusados torturados psicologicamente, coagidos e extorquidos, travestidos de testemunhas “fidedignas”. Para completar a calamidade artificial, tribunais, postos para conter abusos, vivem dias de Pilatos, mortificando cláusulas pétreas e até convertendo a maior delas em “negas corpus”, como se a única regra fosse esta: “se o povo gostou, tudo pode…”
Culpas somente podem ser estabelecidas com prudentes sentenças judiciárias calcadas na lógica racional. Investigar, acusar, defender e verdadeiramente julgar são atos de ciência, de construção e de amor pelo próximo, jamais de ódio e de destruição.
Violações de princípios basilares são nefastas para todos. Por justiça divina ou poética, observo que o mesmo governo que permitiu o linchamento moral da médica que defendo, agora, em espetaculosa investigação, ficou também exposto a idêntico desatino, enquanto Justiça é obra serena de cultura de um povo!
Há muito tempo luto contra o que denominei “delinquência processual”. Não concebo o prometido estado democrático de direito sem uma lei que tutele o manejo das normas processuais, inibindo severamente violações, que solapam os mais elementares direitos das pessoas, com os respectivos violadores impunes.
Indago aos templários do caos, produtores e mercadores desses medievais espetáculos de horror: se mesmo a pena definitiva tem caráter ressocializador, por que prisões temporárias ou preventivas têm esse poder destruidor e irreparável na vida das pessoas?
Ou a nação se mobiliza, suprapartidariamente, em um pronto pacto social para restaurar o Brasil, conforme a Constituição prometeu, ou, entregues ao jugo dos liberticidas, sem volta, entoaremos o canto lúgubre das liberdades perdidas!
Elias Mattar Assad é advogado e ex-presidente da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas
Jossimar
21 de julho de 2015 7:08 pmGostei do texto. Mas, é causa
Gostei do texto. Mas, é causa perdida.
A não ser que antes matemos a globo, que é de onde irradia todo o mal.
Ou o Brasil acaba com a Globo ou a Globo acaba om Brasil.
Fábio de Oliveira Ribeiro
21 de julho de 2015 8:25 pmA “delinquencia processual”
A “delinquencia processual” não pode ser atribuída à população. Raramente o povo é chamado a julgar processos e quando o faz no Juri seu trabalho é supervisionado por um Juiz togado.
O povo não tem aulas de Direito Constitucional e de Direito Processual Penal nas escolas públicas. Para julgar os políticos o povo usa apenas ferramentas pseudo-jurídicas inventadas pela imprensa televisada, que costuma condenar preventivamente e sem provas os seus inimigos e absolver criminosos amigos apesar das provas serem fartas.
Os juízes paradigmáticos do povo cometem o que poderia ser chamado de “delinquencia jornalística”. Este assunto, contudo, não desperta o interesse do autor.
O jurista não se deu ao trabalho de criticar os responsáveis pela “datenização” das redes de TV. O clamor popular por pseudo-justiça é consequencia não causa.
Mas o autor confunde as consequencias e as causas. Curioso, não?
armandolo
21 de julho de 2015 8:39 pmNao creio que seja tao
Nao creio que seja tao complicado assim. Ocorre que a antiga maioria silenciosa nao existe mais. Passou-se a usar redes sociais, blogs, comentarios. O que de fato existe atualmente eh a democratizacao das opinioes. A imprensa noticia, quando eh livre. Ou alguem aqui sugere que nao deveria publicar-se mensalao, lava jato, etcetc. O que nos remete a regulamentacao da midia ou censura previa. A democracia eh caos anarquico mesmo, queiram ou nao os totalitaristas.
Wendel
22 de julho de 2015 12:52 amE………….
Realmente é uma bela análise do que ocorre atualmente neste celeiro chamado terra brasilis. A turba manipulada pelos interesse particulares imediatistas, sejam dos llobys ou corpoartivos, avançam sobre os incautos que, pouco importando em raciocinarem, pedem, ou melhor imploram para serem manipulados!
Dissertar sobre o comportamento humano, não é fácil, e várias das colocações postas, somente analisam o que somos e o que poderíamos ser sem levar em conta que somos seres humanos e como tais, algozes e vítimas ao mesmo tempo.
A submissão e o terror fazem hoje de nós, pobres mas não tão pobres mortais, troféus dos dominadores e há quem goste de que assim seja !!!!
Vá entender estes seres chamados de humanos !!!!!!!!!!
Sandropg
22 de julho de 2015 2:55 amBelas palavras que refletem
Belas palavras que refletem muito bem a difícil quadra histórica por qual passa o país hoje, onde vivemos a pior das ditaduras: a das togas!
Infelizmente, não há mais juízes em Berlim!
A população, levada por esse sentimento de vingança coletiva que reina, está contribuindo e alimentando esse monstro de forma completamente inconsciente desse perigo todo que uma sociedade fascista e intolerante, sem garantias mínimas ao cidadão pode transformar-se no grande inimigo do indivíduo, pois todos, quando necessário ao Poder, serão classificados como inimigo e sofrerão as consequências dessa delinquência processual contra a qual, tristemente, constatamos que de fato o Judiciário é inerte, mesmo que provocado!
Espero que a lucidez e serenidade voltem a reinar no meio jurídico e entre os operadores do Direito, antes que o barco afunde, pois estamos em uma nau sem rumo e fazendo água rapidamente e ainda sem o porto seguro da objetividade legal e constitucional à vista!
luis Henrique Ivanovski
12 de fevereiro de 2016 5:32 pmAnálise franca e honesta e
Análise franca e honesta e vou além, muito corajosa, compartilho em todos os aspectos. Ainda bem que temos uma voz guereira e generosa para nos alertar e abrir os olhos.