
Indo além com Ná Ozzetti e Zé Miguel Wisnik
Por Aquiles Rique Reis
Ná Ozzetti ouviu as canções de Zé Miguel Wisnik pela primeira vez em 1985. Atraída pelo que escutou, gravou quatro delas em seu primeiro disco solo, três anos depois. Agora se reaproximaram: nasce o CD Ná e Zé (Circus produções). Com direção artística dos dois, o trabalho reúne 14 músicas de Zé Miguel compostas entre os anos de 1978 e 2014, sendo oito inéditas em disco.
A produção coube a Marcio Arantes, ele que também fez alguns dos arranjos e, dentre outros instrumentos, tocou baixos acústico e elétrico e guitarras de seis e 12 cordas. Há também arranjos escritos por Gui Amabis e por Tiago Costa – os demais foram criados coletivamente – e participações especiais de Arnaldo Antunes e Marcelo Jeneci.
Louvo os que, indo além de seu tempo, geram belezas nunca vistas. Também louvo os que nos levam a altas viagens sonoras, trilhando quimeras ilusórias, quase inalcançáveis. Louvo a música e louvo os músicos que exprimem a emoção por meio de seus instrumentos e vozes. E feito Gilberto Gil, eu também “Louvo o amor que espanta a guerra”.
E são justamente elas, as belezas ainda desconhecidas, que vêm aos borbotões, quase nos afogando com seu sensível conteúdo. Por tamanha riqueza, este conteúdo devemos ouvir com o coração aberto, permitindo que nos inunde a alma e traduza emoções ainda anônimas.
A voz de Ná Ozzetti vai além do limite: agudos lhes saem da garganta afiados e afinados como uma gilete, cujo corte rasga a pele sem que percebamos; a sensibilidade com que divide as frases melódicas é uma adição da técnica ao sentimento. Sua emoção aflora a cada frase; sua respiração expõe o seu cantar, desnudando-o.
Wisnik é um musicista da linha de frente do modernismo paulista. Sua visão musical é tão larga, quanto larga é a sua produção cultural. Suas composições destacam-se pela pluralidade poética e harmônica.
Para iniciar, duas músicas entrelaçadas, quase xifópagas: “Gardênias e Hortênsias” e “Subir Mais”, ambas de Zé Miguel e Paulo Leminski. Ná começa o canto a capella. Logo a bateria puxa a levada para o pop. Seguindo, Ná e Zé cantam juntos… bela abertura.
“Noturno do Mangue” (Zé sobre poema de Oswald de Andrade). Traz arranjo de Letieres Leite para metais e a participação sempre eloquente de Arnaldo Antunes, cuja voz grave e apaixonada tem aloucado encanto. Seu duo com Ná é belo, como belos são os versos oswaldianos.
“Momento Zero” (Zé Miguel) tem Ná com sua voz cristalina e bonitos versos: Instante mudo/ No instante mudo/ Sem razão/ nem raiz/ Nada te peço/ Nem te confesso/ Somente estou aqui.
Por fim, “Louvar” (Zé Miguel sobre poema de Cacaso): Me dá licença de cantar/ Também de agradecer/ Coragem pra querer/ Um verso pra louvar/ Louvar a gente do lugar/ Louvar quem vai nascer/ Quem vai permanecer/ Também quem vai passar.
Após ouvi-los cantar, louvo Ná e louvo Zé, eles que me arrepiam da cachola ao pé. Louvo a música que queima a alma – e por quê não, ué? –, mesmo que não definamos exatamente o que ela é.
Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do mpb4
Danilo Prates
8 de maio de 2015 3:45 pmTenho escutado esse album no
Tenho escutado esse album no loop. A cada vez, descubro algum detalhe novo. Incrível.