A desorientação da oposição
por Aldo Fornazieri
O que o Brasil tem hoje é um presidente que não governa, um presidente que desorganiza o próprio governo, um presidente que estimula conflitos políticos e institucionais, um presidente que desune o país, um presidente que agride a consciência democrática e o Estado de Direito, um presidente que despreza a Constituição, um presidente que tece elogios a ditadores sanguinários, um presidente que desmoraliza o próprio cargo e perde autoridade, um presidente desmoralizado no plano internacional, um presidente que não tem um plano e nem um projeto de governo. Várias outras constatações acerca da conduta de Bolsonaro poderiam ser elencadas. Mas, em que pese tudo isto, é preciso ser franco e afirmar que a oposição está desorientada, mesmo com as várias brechas que a atuação desastrada do governo permite para uma oposição forte e consistente.
Ouve-se de muitos oposicionistas e articulistas dizerem que Bolsonaro estaria no fim de seus dias como presidente, mesmo que não haja nenhuma evidência disto. Admita-se, por hipótese, que essas afirmações estejam corretas. Mesmo assim, pouco ou nada acrescentariam à oposição, pois se Bolsonaro caísse seria pela sua incompetência e não por um movimento de massas, não através da ação da oposição democrática. Então, ao propalar esta tese, o que oposicionistas e articulistas estão fazendo é propalar uma ilusão enquanto se espera a queda de um presidente desastrado. É aquela velha história aventureira: quer-se apanhar o fruto sem plantar a árvore.
O fato é que as oposições vêm sendo pautadas pelos posts e pelas declarações de Bolsonaro, pelos seus ministros desastrados, pelos conflitos internos do governo e pelo embate ideológico proposto pelos bolsonaristas. Não que os desatinos de Bolsonaro e dos governistas não devam ser combatidos. Mas esta deve ser uma subpauta das oposições. As oposições deve ter a sua própria pauta vinculada aos problemas reais da sociedade. Em política, operar apenas na defensiva resulta em colher derrotas.
Na semana passada houve um encontro de líderes oposicionistas em Brasília visando buscar uma atuação unificada. O encontro em si é alvissareiro. Mas as diretrizes que saíram do encontro são precárias. O primeiro ponto da nota assinada pelos líderes oposicionistas é mais ou menos óbvio: combater a Reforma da Previdência que quer impor o regime de capitalização e tirar direitos dos mais pobres. Já, o segundo ponto, prima pela confusão: “Do mesmo modo, convidamos para a defesa da soberania nacional”, acrescentando que por trás do discurso nacionalista de Bolsonaro há atitudes antinacionais, o que é verdade. Mas, “convidamos” quem? Ir para onde e fazer o que? Qual a tática? Uma diretriz tão vaga e desprovida de senso prático como essa não pode ser levada a sério. Os militantes e ativistas precisam de orientações concretas, com formas de luta objetivas, com líderes e partidos ativos no exercício de seu papel dirigente.
O terceiro e último ponto chama a atenção para a decisão de Bolsonaro de comemorar o golpe de 1964 e define como centralidade da luta a defesa da democracia, contra a criminalização dos movimentos sociais e dos mais pobres. Aqui também, a orientação fica no declaratório. No epílogo, a nota pede tratamento isonômico para Lula e a sua liberdade porque a sentença ainda não transitou em julgado. A nota deveria ter dito que Lula está condenado sem crime e sem prova e que a sua prisão é política.
Por onde quer que se queira olhar esta nota, no seu conjunto, ela é vaga e frouxa e não orienta as ações das oposições e das esquerdas. As oposições estão passando ao largo dos principais problemas do país que são os mais de 13 milhões de desempregados, o aumento da estrema pobreza e da miséria, a volta da fome, e as tragédias da saúde, da educação, da habitação e da violência. Chega a ser espantosa a pouca incidência que os partidos progressistas tiveram acerca da tragédia de Brumadinho – um crime brutal e coletivo praticado pelos executivos da Vale.
Quem transita pelas periferias ou tem contato com pessoas que vivem nas periferias sabe da trágica decomposição social em que elas se encontram. Não existe renda e emprego. As pessoas vivem de escambo. Trocam serviços, não por dinheiro, mas por comida. Muitos prestam serviços a pessoas das classes médias e sofrem calotes porque as classes médias também se empobreceram. Há um crescimento exponencial do uso de drogas, de tráfico e de prostituição. Há o crescimento da violência interpessoal e, principalmente, da violência doméstica, na qual, mulheres e crianças são as maiores vítimas. Há crescimento de abandono do lar pelos pais/companheiros/maridos. Crescem o número de pessoas que vivem nas ruas e aumenta o número de camelôs, de trabalhadores informais. Não é que as pessoas não têm acesso ao atendimento hospitalar. As pessoas sequer estão tendo acesso a médicos. A tragédia social se avoluma e se agiganta e as oposições e os sindicatos não têm estratégias ou táticas para enfrentar esses problemas. A grande maioria dos pobres estão abandonados à sua própria sorte. Não são muitas as pessoas das periferias que são tangenciadas o articuladas por movimentos sociais organizados.
As oposições, claro, devem travar a luta superestrutural, institucional. Mas, acima de tudo, precisam ter uma pauta para o povo desesperado, para o Brasil abandonado. É verdade que existem movimentos combativos como o MTST e o MST. Mas isto é pouco para o tamanho do desastre social em que o Brasil está mergulhado. Isto é pouco para o crescimento da fome, da miséria e do desemprego. Os partidos políticos têm a responsabilidade principal de colocar a luta em movimento para buscar saídas ante o agravamento da crise social. O fato é que sem lideranças e partidos fortes e competentes deteriora-se a qualidade geral da política e as perspectivas de um país.
As oposições não podem mais ficar apenas na conclamação à “resistência aos retrocessos”, pois os retrocessos, principalmente os retrocessos sociais e de direitos, já estão dados. Os retrocessos são brutais, pois geraram multidões, milhões de pessoas que não têm esperanças, que não tem destinos e que não são capazes de se dar um destino. Milhões de pessoas estão sendo tragadas pela desgraça social e pela falta de acesso a uma dignidade humana básica.
O bônus das expectativas positivas em relação ao novo governo evapora rapidamente. Caem as expectativas positivas do comércio e da indústria, assim como a intenção de consumo das famílias, pois, passado o primeiro mento de euforia com o novo governo, a sociedade começa a perceber a agudeza da crise em toda a sua gravidade.
Se as oposições não agirem agora poderão perder o momento, como o perderam várias vezes em 2015 e 2016 e como o perderam em relação a uma campanha popular em defesa de Lula. Se as oposições perderam o momento outras forças poderão aproveitá-lo caso o governo não consiga governar ou Bolsonaro se recuse a governar, agravando a crise. No caso da hipótese do governo se recuperar, as oposições progressistas, se não agirem agora, terão perdido a chance de agregar força e organizar a sociedade e os movimentos sociais.
A longa crise brasileira tem vários momentos críticos em seu interior. Ao que parece, a conjuntura está entrando em um novo momento crítico que exige soluções, mesmo que parciais. Os militares que estão no governo já perceberam esta situação e começam a operar para superar este momento em favor do governo. As oposições precisam despertar para esta situação. Precisam dizer qual a estratégia, quais as táticas, qual a pauta, quais as lutas e quais os meios para enfrentar esta crise. É preciso sair da ação meramente reativa ao que o governo faz e da oposição declaratória e ter capacidade para passar para uma tática ofensiva.
Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP)
Bruno Cabral
1 de abril de 2019 8:24 amEscutei de uma bolsominion quando confrontada com o bom governo Lula e a falta de planos do desgoverno Bozonaro: “o PT não fez mais que a obrigação”
É inacreditável a incapacidade de análise. Se o PT fez a obrigação, e os golpistas não fizeram e não fazem, por que a culpa da crise ainda seria “do PT”???
PS ela também acredita que o PT não abriu universidades públicas… mesmo confrontada com dados!
JJLopez
1 de abril de 2019 8:33 amTudo verdade. Poderia elencar dezenas e dezenas de fatos para mostrar a ineficácia das oposições. Talvez as duas mais clamorosas sejam Covardia e Ausência completa de Planos Alternativos Eficazes para enfrentar a situação é só blá blá blá. Aliás, Lula só está preso por falta de uma análise e um plano realista que deveria ter sido apresentado bem antes da sua detenção. O PT foi na onda do discurso demagógico do Stédile que dizia: em Lula ninguém põe a mão! Puseram, e pra valer.
Felipe A.
1 de abril de 2019 9:41 amExatamente !
J.Marcelo
1 de abril de 2019 8:43 amVAI CORINTHIANS !!
Zé Antônio
1 de abril de 2019 11:01 amTudo o que o articulista pede para a oposição fazer tem sido feito pelo PDT, pelo menos o grupo mais próximo e articulado pelo Ciro, como a Tabata Amaral, por exemplo. Não ficam só na negação a Bolsonaro, mas buscam apresentar propostas e soluções como contraponto ao que o governo faz (ou deixa de fazer na maior parte das vezes). Mas são um grupo pequeno que não consegue fazer muito barulho e que não é visto como oposição pelo resto dela.
Aí vão ficar esperando eternamente pelas propostas do PT e seus (cada vez menos numerosos) satélites. Propostas estas que desde o governo Dilma não aparecem e que hoje resumem-se em pedir Lula Livre (o que até isso fazem mal, conforme o articulista mesmo diz).
J.Marcelo
1 de abril de 2019 11:58 amCerto Zé Antônio,só q Ciro é “coisa mandada”(Por quem?Pela esquerda é q não!)a mesma coisa me parece q é esta Tábata Amaral,estudou em Havard e no bairro onde morava na periferia ninguém sabia q ela era candidata e…ELEITA DO NADA,fora q ela e Ciro são sim a favor da reforma da previdência,são uns infiltrados!!
Maria Lucia Pereira de Sampaio
1 de abril de 2019 11:24 amMaravilha de análise!
Só não concordo com a foto que ilustra a matéria.
Parece estar em desacordo com o que diz o texto!
Sugiro que coloquem uma relativa à situação precária dos mais pobres!
Atenciosamente, Maria Lucia
Duque
1 de abril de 2019 11:52 amProfessor, o PCO alerta desde 2013 sobre o golpe, faz campanha forte – porém limitada pelo número de militantes e força
de alcance pequeno de sua imprensa (mesmo com aumento grande nos dois últimos anos) – pela liberdade de Lula e por uma pauta de luta junto aos trabalhadores. PT é o maior partido de esquerda que temos, mas deixou Lula praticamente isolado, Haddad não é e nunca será Lula.
helio dias horvath
1 de abril de 2019 12:07 pmEstive ontem na Praça da Paz, no Ibirapuera, como era de meu dever, no ato em lembrança dos oponentes mortos e dos desaparecidos da ditadura militar instaurada em 1 de abril de 1964.
O conjunto do que testemunhei no local não me agradou em termos políticos. Havia um indisfarçável cheiro do passado no ambiente. Com efeito, era como se tivéssemos voltado ao ano de 1973, ao ato religioso celebrado na Catedral da Sé em memória de Vladimir Herzog, assassinado naqueles dias pelo regime servil aos EUA que então ensanguentava o país. Eu não estava no Brasil naquele momento, mas não escapou à percepção daqueles que viviam fora a percepção de que a classe média finalmente se punha em movimento em favor de mudanças políticas. A população das periferias das cidades e das áreas rurais arquejava sob uma exploração que logo atingiria níveis inauditos. O resultado de tudo foi a vitoria do MDB nas eleições do ano seguinte.
Tentar restaurar esse clima em pleno século 21 é um acabado anacronismo, como já eram anacrônicas as idéias que Bolsonaro, no auge da juventude, se esforçava para enfiar em seu cérebro limítrofe.
Salta aos olhos que é preciso trazer a realidade de volta ao nosso discurso político. É preciso respeitar os fatos. Reconhecer o esgotamento de nossa organização política liberal, vulnerável como de hábito, em qualquer parte do mundo, à hegemonia de tendências políticas retrógradas como as que soubemos vencer no passado.
Mas é preciso, sobretudo, encarar de frente, sem nenhuma prevenção política ou religiosa.o extraordinário conflito em marcha do bravo povo venezuelano contra os EUA. Estou certo que neste conflito estão os elementos que pautarão doravante a luta política em nossas Américas Latinas.
WAGNER
1 de abril de 2019 3:08 pmIndividualmente somos fracos por isso precisamos no unir
Não podemos deixar os Deputados e Senadores decidirem nossas vidas Temos que mostra nossos pontos de vista.
Só como exemplo. Se eles representassem nossas vontades o Temer teria saído pois apenas 3% dos brasileiros o apoiavam.
Henrique Barros.
1 de abril de 2019 4:27 pmToda a esquerda, todos os progressistas, toda a oposição, deveriam ter uma única pauta imediata:
Mini-reforma tributária apenas para fazer os ricos pagarem impostos.
Ricos não pagam impostos no Brasil. E isso desde sempre.
Mini-reforma tributária para elevar o imposto de renda para os ricos, isentar os que ganham até 5 salários mínimos e taxar lucros e dividendos.
Nada, nem qualquer discussão antes de rico pagar imposto!
Além de ser o certo a ser feito, táticamente Bolsonaro ficaria preso entre não conseguir aprovar suas reformas e também não conseguir desagradar o grande capital que lhe apoia.
O povo logo ia entender que Bolsonaro só defende ricos e seus filhos.
Anônimo
1 de abril de 2019 6:14 pmDe onde não se espera nada, daí que não sai nada.
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Quando o Professor Dr Aldo Fornazieri coloca que o encontro de cinco figuras completamente fora da casinha e/ou com alto grau de oportunismo identifica isto como “A OPOSIÇÃO” e pretende que saia desta algo de objetivo e amplo, começa completamente errado o artigo e daí por diante desanda.
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Quem é Fernando Haddad além mais do que um FHC 5.2, que como o original, perdeu a cadeira da prefeitura de São Paulo para um verdadeiro idiota farsante? Quem é Dino, que para suceder a Clã decadente dos Sarneys do Maranhão só precisava fazer um governo razoável? Quem é Boulos que tomou de emprestado de uma sigla já confusa a possibilidade de concorrer a presidência da república? Poderia seguir adiante. Para fazer oposição é necessário BASE SOCIAL, e nenhum destes junta uma pequeníssima fração da população brasileira. Além disto, quem eles representam?
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Ou seja, ciência não se cria através de dogmas, mas sim a partir de fatos.
Luiz Augusto Marcondes
1 de abril de 2019 10:02 pmQuem é Rogério Maestri?
Sebastião Farias
1 de abril de 2019 10:45 pmCaro Aldo, excelente material, rica em informações políticas e instrutivas só povo, ignorante e acomodado. É verdade que, um bom governo, se conhece pelo preparo, qualidade e patriotismo responsável, da sua oposição objetiva. Faltam às esquerdas e oposição brasileira, conhecimento profundo do Brasil e dos problemas brasileiros, preparo constitucional e em planejamento estratégico, unidade e coesão ideológica, agenda única e programática para que, fortalecidas por uma vontade política coesa e objetiva, sejam capazes de contestarem racional, constitucional e legalmente, as ações injustas e prejudiciais à população e à nação, protagonizadas pessoas, poderes, instituições, organizações, partidos, etc. E também, que sejam capazes de construir e submeter ao conhecimento da população, para participação e aprovação, de um Projeto Político de Nação Cidadã e Soberano, que todos possam entender seu objetivo, de divulgá-lo e defendê-lo.
Além desses problemas elencados acima, existem outros crônicos como, a falta de senso de cidadania, de consciência histórica e política do povo, o mais grave mesmo, é a ignorância e o desprezo que as pessoas têm, da verdade, do respeito aos seres humanos, dos direitos dos cidadãos e da justiça imparcial.
Tudo isso junto e, associados à lideranças sem conhecimentos de causa, que não valorizam a unidade para expressarem força, e que desenvolvam e implementam, uma estratégia lógica de instrução constitucional e conscientização política do povo em suas bases.
A ausência disso, agrava ainda mais, por não terem e nem defenderem publicamente, um Plano Político e Econômico Estratégico para o Brasil, onde numa primeira-fase, fosse voltado a fortalecer em todas as suas formas, o mercado interno, gerando desenvolvimento, emprego e renda e, combatendo a desigualdade da nação.
As etapas seguintes, seriam planificadas com maior cuidado, com a preocupação de que de agora em diante com amparo constitucional, as Políticas Públicas daí resultantes, não mais seriam mudadas ou eliminadas, sob pena do autor ou responsavel, ser indiciado por Crime de Responsabilidade, com perda de cargo, indenização ao Tesouro pelos prejuízos causados e penalizado com prisão equivalente a crime de traição ou hediondo.
Essas penalidades acima, devem ser as mesmas para quaisquer cidadãos, autoridades ou organizações privadas que protagonisem, defendam ou estimulem Golpe de Estado e/ou de Governo e que ponham em risco o estado de. direito, a democracia, a unidade, segurança e a soberania nacionais.
São as nossas sugestões e contribuições.
Sebastião Farias
Um brasileiro nordestinamazônida
André Lameira
1 de abril de 2019 11:51 pmBolsonaro é só um homem, É idiota, perigoso, um desastre, mas é só um homem. O perigo é o alto comando das forças armadas.
Esses generais que o cercam são o fruto da lei da anistia, criminosos de ação ou fé que vivem na total impunidade. Não se pense que só Bolsonaro é um autoritário, que só ele louva a ditadura militar e minimiza a tortura. A verdade é que a cúpula das forças armadas nunca sofreu intervenção, desde que deram o golpe de 1964. São os mesmos desgraçados.
O único líder legítimo das massas populares é o Lula. Não é à toa que só ele está preso. E não é à toa que vivemos essa confusão generalizada. O principal político do país está preso. Logo, falta política. O que o “quinteto” propõe é ridículo. Fica evidente que são oportunistas, que não têm um plano concreto, e que não estão visceralmente conectados com o povo e com a necessidade política do momento. Querem se apresentar como líderes da esquerda e fazem uma menção anódina ao Lula, como se estivessem resignados.
Wellington
3 de abril de 2019 8:23 pm“estremo” com S? Ô professor, assim não dá viu?