4 de junho de 2026

O vencedor não leva tudo, por Fernando Nogueira da Costa

Populista justifica sua conduta alegando, individualmente, representar o povo. Isso explica porque as revelações de despreparo raramente parece afetar o líder populista. Aos olhos de seus seguidores, “ele está fazendo isso por nós”

A eleição presidência brasileira não se dá no sistema “the winer takes it all”, ou seja, “o candidato mais votado leva tudo”, assumindo o papel de déspota eleito. A eleição dos delegados (ou “grandes eleitores”) para elegerem o presidente dos Estados Unidos é feita dessa forma, estado a estado. Nesse sistema norte-americano, o candidato mais votado leva todos os delegados do estado, mesmo sendo o mais votado por apenas, por exemplo, 46% dos votos contra 29%, 12% e 5% dos outros três candidatos seguintes, como ocorreu no primeiro turno da eleição brasileira de 2018. No segundo turno, o capitão miliciano, por conta do antipetismo irrefletido, recebeu 55% dos votos válidos.

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No entanto, o último levantamento de sua popularidade mostra o eleito de extrema-direita ter a pior avaliação entre presidentes eleitos em primeiro mandato, desde o inicio da série histórica da pesquisa de opinião pública realizada pela CNI em parceria com o Ibope. No levantamento mais recente, realizado entre os dias 12 e 15 de abril de 2019, o instituto apurou apenas 35% dos brasileiros ainda avaliarem o atual (des)governo como ótimo ou bom, ou seja, quase 2/3 o rejeitam.

Em maio de 1990, 45% dos brasileiros consideravam o governo Fernando Collor como ótimo ou bom. Em 1995, Fernando Henrique tinha 41%. Em março de 2003, a avaliação positiva de Luiz Inácio Lula da Silva era de 51%. Em 2011, Dilma Rousseff iniciou seu mandato com 56% de respaldo. José Sarney, que assumira como vice de Tancredo Neves, eleito indiretamente pelo Congresso, tinha 71% de ótimo ou bom em março de 1986 após o lançamento do Plano Cruzado. A pior avaliação de todas foi obtida por Michel Temer, em pesquisa de junho de 2016. Ele teve 13% de bom e ótimo.

Quem indica e quem nomeia o presidente do Banco do Brasil? Sou eu? Não preciso falar mais nada então”, disse o arrogante capitão após censurar uma campanha de marketing do Banco do Brasil, voltada para o público jovem e protagonizada por atores e atrizes negros e tatuados. Além disso, ordenou a demissão do diretor de comunicação e marketing do banco. “A linha mudou, a massa quer o quê? Respeito a família, ninguém quer perseguir minoria nenhuma”, completou. E demonstrou seu desdém com a insistência dos jornalistas sobre o que ele teria visto de errado na propaganda do banco. “Você̂ se olhou no espelho?”, perguntou a um repórter, revelando sua intolerância com jovens descolados de sua autoimagem evangélica.

Ele imagina poder alterar tudo o que não for alinhado à sua linha ideológica conservadora. “Não é minha linha. Eu tinha uma linha, armamento. Eu não sou armamentista? Então, ministro meu ou é armamentista ou fica em silêncio. É a regra do jogo”, disse. “As pessoas sabem que eu fui eleito com uma agenda conservadora, defendendo a maioria da população brasileira, seus comportamentos. Quem quiser fazer diferente do que a maioria quer que não faça com verba pública”, salientou. Depois, a própria Secretaria de Governo, a quem a equipe de comunicação está subordinada reconheceu a Secom não ter observado a Lei das Estatais por não caber à administração direta intervir no conteúdo de publicidade.

Alegando “excesso de interferência” do capitão sobre o Banco do Brasil, o Ministério Público (MP) junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) pediu a Corte investigar o episódio onde ele mandou vetar uma propaganda da instituição financeira direcionada para o público jovem. De acordo com o MP, o ato do presidente fere a Lei das Estatais, de 2016, e pode ser classificado como abuso de poder.

A autonomia das empresas federais está em questão, desde quando o prepotente obrigou a Petrobras a reverter um reajuste no preço do diesel. A medida, depois revertida, levou a uma forte queda de valor das ações da petrolífera (e a uma perda de bilhões de reais por parte dos demais acionistas), pelo questionamento sobre qual seria o grau de interferência desse sujeito despreparado nas estatais.

O tuiteiro também deu destaque em sua rede social a um vídeo no qual uma aluna dedura críticas de uma professora de cursinho ao seu guru, o astrólogo de Richmond-Virginia-USA. Na postagem, disse o slogan do movimento obscurantista Escola Sem Partido: “professor tem que ensinar, e não doutrinar”.

Daí a perseguição política de seu preposto no ministério da Educação aos professores: bloqueou 30% dos recursos de custeio de três universidades federais —UnB, UFBA e UFF— por motivos ideológicos. O burocrata olavete disse ao jornal O Estado de S.Paulo ser uma retaliação a atividades políticas. Ele classificou de “balbúrdia”, “bagunça e evento ridículo”. Como exemplo, citou a presença de sem-terra e “gente pelada dentro”. Evidentemente, essa retaliação política fere princípios constitucionais como a autonomia universitária e a impessoalidade, conforme comprovado por juristas.

A Constituição brasileira prevê como Princípio da Educação a liberdade de “divulgar o pensamento, a arte e o saber”. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação define a responsabilidade da União em assegurar os recursos suficientes para manutenção das instituições de educação superior por ela mantidas.

Entende-se como crime de responsabilidade qualquer tipo de conduta contrária às normas estabelecidas na Constituição, além de ações cometidas pelos agentes políticos contra o exercício dos direitos políticos, individuais e sociais, entre outras. Como punição, de acordo com a legislação brasileira, por exemplo, o nomeado ao cometer crime de responsabilidade deve perder o cargo público e ficar inabilitado de voltar a exercer atividades no âmbito da administração pública.

O persona non grata às Universidades buscou se proteger, posteriormente, com suposta “isonomia”: estendeu o arbítrio persecutório a todas as Universidades Federais!  Todos os professores e estudantes universitários, em todos os estados, passam a ser impedidos de exercer suas atividades de ensino e pesquisa! Os contingenciamentos orçamentários colocam em risco o funcionamento mínimo dessas instituições, como fornecimento de energia e água. Atiça o movimento estudantil e de professores em reação judicial a tal descalabro, mas não só, a OAB e o MP devem denunciar o ministro.

Além de ser antielitista (e daí anti-intelectuais), o populista de direita está sempre contra minorias. O populista afirma: “eu, e somente eu, represento o povo”. Desafia seus numerosos críticos: “Sou o povo. Quem é você?” Claro, ele sabe seus oponentes serem também naturais da mesma Nação. A reivindicação de representação exclusiva não é empírica, é sempre distintamente moral.

Quando concorre ao cargo, o populista retrata seus concorrentes políticos como parte da elite imoral e corrupta. Quando chega ao Poder Executivo, ao decidir qualquer coisa, ele se recusa a reconhecer qualquer oposição como legítima. A lógica populista também implica em quem não o apoia ser classificada como “uma parte inapropriada do povo” – sempre definido como justo e moralmente puro. Para o populista, “o povo” é apenas seus seguidores na rede social, os demais são inimigos dissidentes.

O populista representa um perigo para a democracia. Porque ela requer o pluralismo e o reconhecimento de precisarmos encontrar termos justos de vida juntos como cidadãos livres, iguais, mas também irredutivelmente diversos. A ideia do povo único, homogêneo e autêntico é uma fantasia populista.

A governança populista faz seguidas tentativas de sequestrar o aparato estatal, busca o “clientelismo em massa”, trocando benefícios materiais ou favores burocráticos para apoio político de tecnocratas oportunistas, tornados “clientes” populistas, e esforços sistemáticos para suprimir a sociedade civil organizada. Populista justifica sua conduta alegando, individualmente, representar o povo. Isso explica porque as revelações de despreparo raramente parece afetar o líder populista. Aos olhos de seus seguidores, “ele está fazendo isso por nós”, as pessoas autênticas. É tipo “rouba, mas faz”.

A oposição não pode cometer o erro de subestimar o populista, deixando de enxergar a esperteza política sob seus factoides. Esse desdém pela figura de proa do populismo vem acompanhado de uma arrogante depreciação de seus partidários. No entanto, todos teremos de compartilhar a Nação enquanto vivermos no mesmo território. Não se deve o subestimar e nem depreciar essas pessoas eleitoras do populista de direita.

Os opositores ao déspota eleito não podem deixar de atuar unidos. Aflitos e apavorados, os adversários do populista começam a fazer “o jogo político da pureza ideológica”, impondo testes a seus potenciais parceiros e, mais equivocado ainda, recusando-se a aceitar em suas fileiras os antigos aliados do populista dispostos a lhe dar as costas.

Os oponentes do estropício deixam de planejar e divulgar uma perspectiva positiva para um país melhor. Em vez de tentar convencer seus potenciais eleitores de eles poderem oferecer benefícios tangíveis, concentram-se apenas nas falhas gritantes de seu inimigo. Mas a maioria dos partidários do “elenão” tem plena consciência de seu líder mentir, disseminar mensagens de ódio e não passar de um bronco. Convencidos de os políticos tradicionais nada terem a lhes oferecer, é precisamente essa postura antissistema [anti-establishment] o atraente nele. Sempre existe a chance, pensam, dele realizar uma fração de suas promessas irreais. Pelo menos, ele vai poupá-los da hipocrisia envaidecida da velha-guarda. Os raivosos desqualificados pelo mercado de trabalho exigente de preparação mais adequada à atual revolução tecnológica se tornam anti-establishment e apoiam esse suposto contestador do sistema dominado por elites.

Fernando Nogueira da Costa é professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Métodos de Análise Econômica” (Editora Contexto; 2018)

Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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  1. republicano arrependido

    1 de maio de 2019 8:29 pm

    a infamia virou moda.
    abominável…

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