18 de junho de 2026

Prêmio Camões: Chico Buarque e a celebração da alma nacional, por Luis Nassif

Com sua música, humanizou os pobres, os negros, as mulheres, os vulneráveis, celebrou a solidariedade, a generosidade, em uma sociedade profundamente marcada pelas chagas da escravidão.

A conquista, por Chico Buarque, do Prêmio Camões é o reconhecimento de seu talento literário, mas, mais que isso, da extraordinária personalidade pública que se tornou. É daqueles personagens inesquecíveis, que marcam várias gerações.

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A primeira vez que ouvi Chico foi um choque. Já tinha trocado o cavaquinho-bandolim e o piano pelo violão, o melhor amigo de um adolescente. Arriscava alguns arranhões em bossa nova. De repente surge um lírico compondo em cima de acordes quadrados, dizendo-se admirador de Ismael Silva. Antes da coleção de música popular da Abril, lá em Poços de Caldas tínhamos apenas uma vaga ideia de quem fosse Ismael.

Depois da bossa nova, a chamada MPB tinha se enredado em uma complexidade inócua, um subjazz repleto de acordes dissonantes, colocados de forma perdulária para guiar a melodia, um tecnicismo para compensar a perda do foco criador. Os grandes continuavam grandes, Tom Jobim, Carlos Lyra, mas o fogo da criação da bossa nova já se esgotara.

Esse vácuo seria preenchido pela nova geração que surgia, a mais brilhante da história da música popular brasileira, com Baden Powell, Edu Lobo, Caetano e Gil, Geraldo Vandré, pouco depois Milton Nascimento e João Bosco. E brilhando intensamente, a estrela de Chico Buarque.

O que ele fazia com os acordes era extraordinário. Recuperava a música tonal brasileira, as sequências tradicionais, o padrão de harmonia que vigorou até os anos 50, pré-Caymmi, pré-Garoto, um padrão que se julgava esgotado, e trazia de volta com uma capacidade extraordinária de inovação.

E não eram  apenas as letras excepcionais, mas melodias e harmonias que inovavam sem perder as raízes tradicionais.

A primeira música que tirei foi “Olê Olá”. Começava com um dó com 7ª seguindo para a nostalgia de um mi menor. Depois, na segunda parte, “meu pinho toca forte”, pulava para um fá maior e ia em um crescendo, de semitom em semitom, até explodir na solução final. Tudo em cima de acordes “quadrados”!

A partir dali foi uma ligação instantânea do nosso grupo de serenatas com a música de Chico. Cada compacto que saia com duas músicas novas era celebrado e se incorporava imediatamente ao nosso repertório.

Foi a época da “Quem te viu, quem te vê”, “Umas e outras”, os sambas ismaelinos “Juca” e “Rita”, o rancho “Noite dos Mascarados“. Comparado a Noel Rosa, aliás, desde o início Chico declarava-se seguidor do grande Ismael. Desgostei apenas com “Carolina” e “Januária”. Brincávamos que as serenatas começavam com “Olê, Olá”. À medida em que íamos bebendo e ficando sonolentos, passávamos para Lupicínio e, no instante final, para caaaa-ro-lina.

Era uma injustiça, porque minimizávamos a coitada da Carolina em comparação com outras músicas de Chico. Como cada novo lançamento era uma nova surpresa, criamos uma expectativa que algumas músicas não alcançavam. Com o tempo, ela se tornou parte essencial nos repertórios dos seresteiros, mostrando o meu equívoco.

Assim que entrei no jornalismo, na revista Veja, antes do primeiro ano, tive dois desafios envolvendo Chico.

O primeiro – com três meses de jornalismo – foi o de fazer uma crítica do show de Chico na Boate Dobrão, na rua Cubatão. Fui com minha prima Rosa Maria, enchi a cara de Cuba Libre e, quando ouvi “Valsinha”, de Chico e Vinicius de Moraes, estatelei. No dia seguinte, comecei a escrever a crítica e fiquei em dúvida: Valsinha era das músicas mais bonitas que já havia ouvido, ou minha sensação foi nublada pelo álcool. Ica, a namorada, não facilitou:

– Quando você bebe, se emociona até com o Wando.

Injustiça com o Wando. Outro dia ouvi umas faixas dele e era um grande cantor.

Acabei apostando no sentimento e reconheci que Valsinha superava até o nível de emoção que eu ficava quando bebia.

O segundo desafio me foi confiado por Tarik de Souza, o grande crítico de música da Veja. José Hamilton Ribeiro, da Realidade, encomendou ao Tárik um especial sobre Chico. E Tárik me pediu um boxe analisando tecnicamente as músicas de Chico.

Para demonstrar a criatividade de Chico dentro da música tradicional, bolei um gráfico para analisar sequências harmônicas. Quando a sequência era tonal, previsível, as cores se alteravam pouco. Quando com acordes complexos, as cores mudavam bastante.

Peguei uma música convencional de Chico e outra de Milton Nascimento. O gráfico do Chico virou um pastel, o de Milton, um arco íris. A rigor, não significava que uma fosse superior a outra. Apenas que o tipo de harmonização era diferente.

Muitos anos depois, em 2002, Edu Lobo me convidou para escrever o texto de abertura do relançamento do Grande Circo Místico. Para tanto, precisava ouvir os dois autores, Edu e Chico, para recolher elementos para a abertura. Quando liguei para Chico, me surpreendi:

– Me lembro daquele gráfico pastel da minha música.

Balbuciei que, depois daquela fase, sua música se sofisticara bastante.

De fato, logo depois Chico se mudaria para o Rio e iniciaria a segunda etapa de sua carreira musical, inaugurada pelo clássico “Construção” e parcerias notáveis com Vinicius, Tom Jobim, Sivuca, Francis Hime e com o gênio das melodias, Cristóvão Bastos.

Dei todas essas voltas porque não dá para falar de Chico, sem falar de suas músicas.

Mas o ponto mais relevante de Chico é sua personalidade. Desde o início, se tornou uma referência de caráter, assim como Antonio Cândido, Barbosa Lima Sobrinho, Raimundo Faoro e poucos outros.

A MPB era um universo particularmente competitivo, sujeito a personalismos, especialmente depois que os festivais tornaram os músicos personalidades nacionais. Nesse ambiente, Chico se tornou uma unanimidade. Não se conhece um gesto mesquinho, um escorregão.

Aliás, só um país musical como o Brasil poderia ostentar essa recriação do mito de Baco e Dionísio, Caetano e Chico, um provocador, debochado, outro introspectivo, personalidades totalmente distintas e, no entanto, ambos gênios líricos da música popular. Caetano procurava o conflito, Chico ficava na dele. Tornou-se unanimidade nacional sem investir um instante sequer no marketing pessoal. Impôs-se pela discrição, caráter, coerência pessoal, sensibilidade. Atravessou a ditadura sem se dobrar. Tornou-se uma das vozes principais da abertura política, sem se deslumbrar. Virou alvo do ódio das bestas das redes sociais, não se intimidou nem recorreu à demagogia.

Com sua música, humanizou os pobres, os negros, as mulheres, os vulneráveis, celebrou a solidariedade, a generosidade, em uma sociedade profundamente marcada pelas chagas da escravidão.

Nesses tempos bicudos, em que o caráter nacional é colocado à prova, tempos de oportunismo e medo, em que as referências são a besta-fera dos Bolsonaros ou a auto louvação dos Luis Roberto “eu sou bom, eu só faço o bem” Barroso, Chico Buarque permanece como figura referencial.

Por isso mesmo, o Prêmio Camões não premiou apenas o escritor talentoso, mas a alma nacional que resiste a esses tempos de barbárie.

 

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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12 Comentários
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  1. Octavio Pires'

    22 de maio de 2019 1:59 pm

    Uma amiga minha estava voltando do RS para SP e viu o Chico em algum lugar. Pediu um autógrafo a ele e foi – sem as frescuras comuns “dos famosos”!!!. Quando ia saindo o caderno com o autógrafo caiu no chão molhado e perdeu-se. Chico já estava dentro de um carro. Viu o caderno ir embora e, com simplicidade, saiu do carro andou atrás da menina e deu-lhe outro autógrafo- agora com dedicatória. É esse cara, e com mais o que é descrito acima, que as redes sociais e outros imbecis soltos da coleira se dedicam a ofender na internet nas ruas em que o Chico anda lá no Rio. “Amanhã há de ser outro dia….”

  2. Maria Luisa

    22 de maio de 2019 2:10 pm

    Bonito texto, Luis Nassif. Um prêmio bonito desse a um autor consagrado faz com que coisas boas e belas nos lembrem que o Brasil é muito maior que todo o mal e obscurantismo que por ora o cera.

    Vai passar na avenida um samba popular…

  3. Joana

    22 de maio de 2019 2:18 pm

    Leio, concordo na maioria, mas preservou o silêncio. Hoje não deu: emocionante.

  4. Leila

    22 de maio de 2019 6:23 pm

    Texto lindíssimo! Quase uma ode para honrar esse grande brasileiro.

  5. republicano arrependido

    22 de maio de 2019 8:46 pm

    acho que é uma ode ao chico que o antonio
    candido genial tb assinaria….
    ps bambas sabem das coisas….
    e a gente
    – só resta à gente
    se emocionar,
    cara!

  6. Maria L

    22 de maio de 2019 8:54 pm

    Tudo o que vejo e sinto em Chico está nessa viagem ao tempo e à história da geração à qual pertenço. Brilhante texto. Obrigada, Nassif.

  7. Emanoel Eduardo Ribeiro

    23 de maio de 2019 8:08 pm

    Caramba, Nassif (desculpe a intimidade) que bela homenagem a esse enorme compositor. Parabéns a você que escreveu um texto à altura do homenageado. Esqueci os riscos por um momento…”Talvez no tempo da delicadeza…” ; com o Cristóvão.

  8. Carol Bentes

    24 de maio de 2019 3:05 pm

    Maravilhoso, só errou na “Carolina”! ????

  9. wposnik

    24 de maio de 2019 9:18 pm

    Disse-o bem Maria L. Esta identidade-brasilidade nos envolve a nós todos. Nos meus 74 para 75 (em setembro) … Quase tudo nos identifica. Ele começou arquitetura, na PUC/SP eu C. Sociais, na UFPR. Lembro-me muito bem, do primeiro show dele que assisti, aqui em Curitiba, na rua Marechal Deodoro – só não sei precisar o ano, mas lá por 1965-66, acho eu … Depois, teve o Projeto Pixinguinha e virava-se a noite, em filas intermináveis aqui no Teatro Guaíra, para descolar alguns ingressos … Como disse Fernando Pessoa, no seu ‘Mar Português’, ” … Valeu a pena ? /Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena …”

  10. Ne Gaspar

    25 de maio de 2019 6:22 am

    Ele merece!!! Grande compositor e pessoa admirável, belo texto.????

  11. Vera Márcia de Mendonça

    28 de maio de 2019 12:47 am

    Òtimo texto, reproduz com exatidão o envolvimento sentimental de cada admirador com cada obra do Chico. E foi assim mesmo, a cada nova música, a identificação com realidades muitas vezes tão distintas, mas que conseguíamos vivenciar, porque o Chico nos dava o tom.

  12. Lidia Maria de Melo

    28 de maio de 2019 11:37 am

    Emocionante! Chico é nosso patrimônio. Com suas músicas, Chico falou por nós o que não podíamos dizer. Lavou nossa alma.

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