‘Brasil 70: A Saga do Tri’: como aquilo deu nisso?
por Wilson Roberto Vieira Ferreira
Enquanto o Brasil estreava na Copa de 2026 contra Marrocos, os holofotes no MetLife Stadium não buscavam a bola, mas sim o banco de reservas: lá estava Neymar, convocado mesmo lesionado pelo técnico Carlo Ancelotti, mais atento aos celulares das arquibancadas e ao seu rendimento semiótico de celebridade do que ao jogo. Esse abismo entre o foco no extracampo e a bola rolando encontra um espelho retrovisor incômodo na minissérie O2 Filmes/Netflix “Brasil 70: A Saga do Tri”(2026). Ao recriar a histórica campanha do tricampeonato em meio ao caldeirão político da ditadura militar, a produção escancara, por um violento choque de contrastes, a decadência de um futebol que migrou da genialidade orgânica e descentralizada para se tornar uma engrenagem corporativa engessada e dependente de técnicos-CEOs.
Na estreia da Seleção na Copa do Mundo 2026 contra Marrocos em New Jersey (EUA) no último dia 13, uma imagem emblemática ajudou a ilustrar o contexto atual do futebol brasileiro: câmeras apontadas para os jogadores brasileiros que entravam no gramado e que, logicamente, procuravam Neymar – o personagem mais repercutido na cobertura, não tanto pelo seu talento, mas pela controversa convocação: por que o técnico Ancelotti convocou um jogador contundido?
Um pouco da resposta veio nas imagens do sintomático comportamento do jogador: o tempo inteiro olhando para as arquibancadas, sorrindo, acenando, como se perscrutasse entre o público amigos influencers, conhecidos famosos ou, simplesmente celulares apontados para ele.
Embora ainda em tratamento e fora da escalação da partida, Ancelotti o levou para o campo. Certamente para motivar o time. Mas o jogador-celebridade parecia mais interessado em outra coisa…
É oportuna a exibição da minissérie Netflix Brasil 70: A Saga do Tri, que narra e dramatiza os passos do escrete liderado no campo por Pelé, Gérson e Tostão, contextualizando o País de uma ditadura militar que se entronizava no poder e via a camiseta canarinho não apenas como entretenimento, mas como uma ferramenta de propaganda política e de coesão nacional.
Não apenas pelo timing de uma produção sobre a geração de jogadores mais famosa que acompanha como um fantasma cada convocação para as copas do mundo. Mas, principalmente, como leva para as telas uma história de resistência contra as transformações culturais e organizacionais do futebol brasileiro. Que deu nisso: uma estrela do futebol mais atenta ao seu rendimento semiótico nas arquibancadas do que para o rendimento esportivo nos gramados.

Em outras palavras: como aquilo deu nisso?
A produção ilustra, precisamente por um forte choque de contrastes, como o esporte migrou de uma manifestação cultural orgânica para uma engrenagem corporativa verticalizada: de início, como ferramenta de propaganda política de um regime militar; e depois como organização verticalizada corporativa.
A Minissérie
A ficção histórica Brasil 70: A Saga do Tri (Netflix/O2 Filmes) consegue a proeza de transformar uma história cujos resultados e lances todo mundo já conhece em um drama humano, político e estético profundamente envolvente.
Lançada estrategicamente no contexto da Copa do Mundo de 2026, a produção dirigida por Paulo Morelli, Pedro Morelli e Quico Meirelles acerta ao não se limitar ao campo de jogo, dividindo sua força em três pilares principais:
Primeiro, consegue visualmente mostrar a plasticidade do Futebol como Coreografia e Espetáculo Cinematográfico
Visualmente, a série é impecável. Em vez de apenas usar imagens granuladas de arquivo, a produção optou por recriar os lances históricos em campo utilizando tecnologia moderna, como tracking shots e drones, mantendo uma coreografia milimetricamente fiel às jogadas reais de 1970. O futebol ganha peso de cinema, capturando a plasticidade da era dos “cinco camisas 10” (Pelé, Tostão, Rivellino, Gérson e Jairzinho) e contrastando o romantismo daquele drible com a crueza física do esporte.
Ao lado disso, a virtude da minissérie e descrever o Caldeirão Político da Ditadura Militar: conquista do Tri é indissociável do momento mais sangrento da Ditadura Militar brasileira (o governo Médici).
A série constrói brilhantemente essa dualidade ao descrever a queda de João Saldanha (Rodrigo Santoro): A transição do comando técnico — com a saída do jornalista comunista e a entrada de Zagallo — ilustra o nível de interferência e vigilância do regime.
E a instrumentalização da Seleção: como os militares monitoravam os jogadores (especialmente Pelé) por medo de protestos ou de supostas ameaças de sequestros de guerrilha, enquanto o aparato estatal usava o ufanismo do “Pra Frente, Brasil” e do “Ame-o ou Deixe-o” para mascarar a violência dos porões da repressão.

Contrastando com o contexto político a minissérie consegue Humanizar os principais ícones do escrete, mostrando-as como homens cheios de dúvidas, vaidades e medos diante de uma pressão absurda.
Rodrigo Santoro entrega uma atuação magnética e enérgica como João Saldanha.
Bruno Mazzeo constrói um Mário Zagallo complexo, equilibrando suas famosas superstições, sua inteligência estratégica e a difícil missão de assumir o time às vésperas do Mundial.
E Lucas Agrícola assume a responsabilidade de viver Pelé e se sai muito bem, mostrando um Rei vulnerável, solitário e sobrecarregado pelas expectativas de uma nação inteira e pelas cobranças silenciosas do regime político.
Corporatização do futebol
O pano de fundo atual para analisar essa minissérie sobre a Copa de 1970 é a irresistível tendência da corporatificação do futebol brasileiro com duas características: primeiro a comodificação dos jogadores, formados para serem exportados, privilegiando força e velocidade no lugar do drible (essência da cultura brasileira do futebol).

Segundo, a verticalização organizacional: não há mais jogadores líderes que, dentro do campo, durante o jogo, exortem e comandem os jogadores. Todos se tornam dependentes do técnico, hoje elevado a um CEO, uma estrela igual ou maior do que os jogadores. Os atletas perderam a autonomia dentro do campo e são subordinados ao técnico-CEO, dentro de uma típica organização corporativa verticalizada.
A minissérie resgata um futebol que não nascia em planilhas de scout ou em academias de alta performance focadas em força e velocidade, mas sim na pura essência do drible e da improvisação.
A produção detalha como aquela seleção reuniu, simultaneamente, os camisas 10 de seus respectivos clubes (Pelé, Tostão, Rivellino, Gérson e Jairzinho). Juntar tantos criativos era um “absurdo” tático para a época, mas funcionou porque havia espaço para a plasticidade e para a cultura brasileira do improviso. O drible era a solução de problemas complexos na base da genialidade individual.
Hoje, o mercado europeu busca e formata o jovem jogador brasileiro como uma commodity pronta para o encaixe tático: forte para recompor a marcação, veloz para transições rápidas e disciplinado.
A série joga luz sobre uma era onde a técnica refinada moldava o esquema, e não o contrário.

A liderança horizontal vs. O técnico-CEO verticalizado
O ponto mais fascinante da produção está nos bastidores e na dinâmica de vestiário daquela campanha.
Fica nítido que o treinador (Zagallo) não operava no topo de uma pirâmide como um CEO intocável. Uma das cenas mais emblemáticas da obra — baseada em relatos históricos — mostra lideranças cascudas como Gérson, Carlos Alberto Torres (o Capitão) e o próprio Pelé indo até os aposentos de Zagallo para interceder pela escalação e posicionamento de Tostão. Havia um diálogo de alto nível.
Dentro das quatro linhas, as decisões eram descentralizadas: Gérson (o “Canhotinha de Ouro”) organizava o time gritando e apontando o dedo, e Carlos Alberto exercia uma autoridade moral e tática imediata, sem precisar olhar para o banco de reservas a cada lance.
Atualmente, a autonomia sumiu. O jogador virou um “cumpridor de funções” dependente do banco de dados e das ordens do treinador. Se o time moderno parece anestesiado e carente de líderes viscerais, é porque o sistema corporativo do futebol transferiu todo o protagonismo e o poder de decisão para a figura do técnico-estrela.
A grande ironia: A Saga do Tri mostra que a comissão técnica de 1970 (que incluía o preparador Cláudio Coutinho e o jovem Carlos Alberto Parreira) inaugurou a introdução da ciência e da preparação física ultra-rigorosa no futebol brasileiro.
No entanto, aquela estrutura nascente encontrava a oposição e resistência de uma geração marcada pela galhofa de Garrincha ao acompanhar uma detalhada preleção tática do técnico Feola na Copa de 1958, antes da partida contra a União Soviética: “Tudo bem, seu Feola, mas o senhor já combinou com os russos?”
Hoje, a corporatização inverteu a lógica, usando a tática e o físico para enquadrar e limitar o talento.
| Ficha Técnica |
| Título: Brasil 70: A Saga do Tri |
| Criação: Rafael Dornellas, Naná Xavier |
| Roteiro: Maíra Oliveira, Felipe Sant’Angelo |
| Elenco: Rodrigo Santoro, Lucas Agrícola, Ravel Andrade, Marcelo Adnet, Bruno Mazzeo |
| Produção: O2 Filmes |
| Distribuição: Netflix |
| Ano: 2026 |
| País: Brasil |
Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunicação Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi. Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.
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