Ontem, passamos uma bela tarde com o casal Vicente Barreto-Vânia. Vicente é amigo das primeiras horas em São Paulo, ele chegando de Serrinha (BA), eu de Poços de Caldas.
Apesar de amigos a vida inteira, não conhecia todos os detalhes da sua chegada a São Paulo.
Vicente chegou montado em um aval extraordinário: uma parceria com Vinicius de Moraes, quando ele tinha 23 anos. Vinicius assistiu um show dele, em Salvador, procurou-o no camarim, pediu para que enviasse uma melodia. Vicente enviou uma, no melhor estilo das canções brasileiras de Tom Jobim. Recebeu uma letra à altura.
Em Salvador, ele ficou amigo de um produtor de música. Chegando em São Paulo, foi convidado pelo produtor para conhecer Elis Regina. Teve alguma dificuldade, porque não tinha dinheiro nem para ir de ônibus. Chegando à casa de Elis, deu-se conta que o produtor era irmão da cantora.
Em todos os sentidos, foi um almoço inesquecível. O tabaréu (o caipira, na Bahia) nem sabia como tratar Elis. Mais atrapalhado ficou quando Elis o colocou na mesa do almoço, no lugar em frente a ela, enquanto aguardava o outro convidado que estava chegando. E era Tom Jobim. Aí que o nosso tabaréu se enrolou de vez, sem saber como tratar o mestre.
Tentou puxar assunto comentando um acompanhamento de uma das músicas de Tom, na qual o violonista terminava com um tom menor lindo. E Tom:
– Eu sei. Já estava na música original.
Vicentão se calou.
Mais tarde, Elis e o marido César Camargo Mariano quiseram saber mais de sua vida. Vicente mostrou então um arranjo que fizera de uma das músicas complexas de Gilberto Gil, o “Oriente”. Mariano se surpreendeu com a riqueza harmônica e quando soube que VIcente havia tirado a música de ouvido. Perguntou quem tinha sido seu professor de violão. Surpreendeu-se ao saber que Vicente era autodidata.
Na conversa, Vicente relatou a maneira como um produtor o trouxe para São Paulo e o deixou na metrópole, enfrentando o frio paulistano sem agasalho, sem lugar para ficar.
Imediatamente, Elis pediu a Mariano subir e trazer vários agasalhos, calças, blusas para Vicente.
No dia seguinte Elis foi ao Rio de Janeiro, na gravadora onde trabalhava o infausto produtor. Quando o viu, avançou aos berros sobre ele, recriminando sua irresponsabilidade de jogar em São Paulo um jovem sem nenhuma retaguarda.
Dali em diante, Vicente se tornou um comensal da casa de Elis, almoçando quase diariamente. Mas não conseguiu que ela gravasse uma composição sua.
Desde aquela época, Vicente já tinha uma batida no violão, uma mão direita que simulava uma sanfona de oito baixos. Elis tentou de todo modo que o conjunto que a acompanhava reproduzisse o balanço, e não conseguiu.
A cantora que lançou Milton, Renato Teixeira, Zé Rodrix, Belchior, não pode gravar Vicente, por excesso de virtuosismo de sua mão direita.
Anônimo
30 de junho de 2019 4:47 pmConheci essa música na voz de Vânia Abreu, grande cantora, também irmã de Daniela Mercury, excelente repertório, marca da Bahia pouco comentada e reconhecida, a inteligência e alegria discretas, sorridentes.
Vânia Abreu – “Na Volta Que o Mundo Dá” (Seio da Bahia/1999)
https://www.youtube.com/watch?v=_fdd8mn6onE
Sua Estupidez (participação de Vania Abreu) – Clássica – Daniela Mercury
https://www.youtube.com/watch?v=1gRy2egiz8w
Na Volta que o Mundo Dá – Sr. Brasil – 03/11/2013
https://www.youtube.com/watch?v=7iV_sTibpUQ
Sampa/SP, 30/06/2019 – 16:47
Luiz Carlos P. Oliveira
30 de junho de 2019 5:36 pmBah. O problema é que Elis já tinha, como compositores, Tom e Vinicius, além do João Bosco. Aí fica difícil sobrar alguma faixa para outros compositores, mesmo estes sendo muito bons.
Paulo Vaz
30 de junho de 2019 6:51 pmAssim era Elis que conheci em tempos pré-históricos no Almoço com as Estrelas do Airton Perlingeiro e Lolita Rodrigues. Nunca ouvi esse Vicente mas conheço inúmeras histórias semelhantes envolvendo Elis.
Francisco Pessanha
1 de julho de 2019 5:16 amGrande Nassif, te admiro todos os dias por suas análises econômicas e políticas, e como músico também. Salve Elis Regina e toda a MPB!
Fernando Janson
1 de julho de 2019 6:53 amElis era uma pessoa extremamente generosa. Prova disso foi o apoio dado à Rita Lee quando da prisão por porte.de maconha. Elis foi a única pessoa do mundo artístico que foi visitá-la na prisão e se tornou uma grande amiga de Rita.
Eduardo César Rebelo
1 de julho de 2019 7:59 amConheço o casal Vicente/Vânia desde o início da década de 80
Vicente além de ser um artista extraordinário é um ser humano de primeira linha, só de ser de Serrinha já é um ponto a mais.
Vânia, mineira de Governador Valadares é o alicerce dessa bela história de amor.
Não sabia dessa história e vou cobrar os detalhes na próxima vez que encontrá-los
JULIANA ASSAD FERREIRA
1 de julho de 2019 12:52 pmElis sendo Elis! Máximo respeito a Maior Cantora do Brasil de todos os tempos!!
Abrahao Barros
1 de julho de 2019 4:00 pmElis. Grande em tudo!!!
Alessandra Alcantara
1 de julho de 2019 8:24 pmElis é inesquecível por essência humana e voz. Saudades do Brasil que tinha Elis Regina.