
A prisão do hacker em Araraquara, cujo perfil lembra mais a foto de um punguista virtual do que o negativo das imagens públicas de Assange, Manning e Snowden, confirma a suspeita de que as autoridades armaram um circo para destruir a credibilidade do The Intercept. O que elas pretendem é evidente: criar um cenário que justifique a manutenção de Lula no cárcere.
Ao que parece, o Ministro da Justiça e seus fiéis escudeiros na PF e no MPF pretendem oferecer imunidade ao hacker em troca de uma delação orquestrada e feita sob medida (como algumas daquelas que ocorreram durante a Lava Jato). Sérgio Moro mudou de cargo, não de método. Essa constância infernal leva-me direto ao que desperta meu interesse nesse momento: a Divina Comédia, Inferno, Canto 6º.
E io anima trista non son sola,
ché tutte queste a simil pena stanno
per simil colpa.” E più non fé parola.
Io li rispuosi: “Ciacco, il tuo affanno
mi pesa sì, ch’a lagrimar mi ‘nvita;
ma dimmi, se tu sai, a che verranno
li cittadin de la città partita;
s’alcun v’è giusto; e dimmi la cagione
per che l’ha tanta discordia assalita.”
E quelli a me: “Dopo lunga tencione
verranno al sangue, e la parte selvaggia
caccerà l’altra con molta offensione.
Poi appresso convien che questa caggia
infra tre soli, e che l’altra sormonti
con la forza di tal che testé piaggia.
Alte terrà lungo tempo le fronti,
tenendo l’altra sotto gravi pesi,
come che di ciò pianga o che n’aonti.
Giusti son due, e non vi sono intesi;
superbia, invidia e avarizia sono
le tre faville c’hanno i cuori accesi.”
Por volta de 1998 comecei a fazer uma tradução da primeira parte da Divina Comédia (trabalho que interrompi no Canto 32º). Esse fragmento foi traduzido por mim da seguinte maneira:
“Eu alma triste não sou a única punida
aqui: outros também sofrem igual pena
pela mesma culpa” E ficou calada
Eu lhe respondi: “Ó Ciacco, o teu estado
me entristece, a chorar me convida
mas dizei-me, se sabes, até quando”
“haverá entre os cidadãos dois partidos
se lá existe algum justo; e esclarece-me
qual o motivo de tantos conflitos”
E ele disse: “ Após disputas renhidas
derramarão sangue, e a selvageria
de uns expulsará a de outros camaradas”
“Mas depois disto, o selvagem partido
há de cair em três anos e o oposto
subirá pelo isento liderado”
“Por longo tempo terá o negro bando
O colo alcançado, oprimindo o branco
as ameaças desconsiderando.”
“Os justos são dois, mas não são ouvidos
Soberba, inveja e avareza são sempre
as três chispas que acendem os conflitos”
Um pouco adiante o personagem Ciacco, cuja delineação histórica não é muito clara, faz referência a alguns personagens da história florentina:
Farinata e ‘l Tegghiaio, che fuor sì degni,
Iacopo Rusticucci, Arrigo e ‘l Mosca
e li altri ch’a ben far puoser li ‘ngegni,
Farinata e Tegghiaio, ontem briosos,
Tiago Rusticucci, Henrique e Mosca
e outros, em que empregam os seus talentos?
Esses líderes políticos e militares pertencem à geração anterior à de Dante Alighieri. Tegghiaio e Rusticucci pertenceram ao partido guelfo. As disputas entre guelfos e gibelinos (e também entre guelfos brancos e negros), que rasgaram o tecido social de Florença e causaram o exílio do próprio Dante, foram descritas assim por Maquiavel:
“Florença então estava em más condições, porque a nobreza guelfa se tornara insolente e não temia os magistrados; de modo que todos os dias se cometiam muitos homicídios e outras violências, sem que fossem punidos aqueles que os cometiam, por serem protegidos deste ou daquele nobre. Por isso, os governantes do povo, para frearem essa insolência, acharam que seria bom trazer de volta os exilados; isso deu ao legado a ocasião de reunir a cidade; e os gibelinos voltaram.” (História de Florença, Maquiavel, Martins Fontes, São Paulo, 2007, p. 92)
A causa mais evidente destas disputas políticas violentas era a inexistência em Florença de um Poder Judiciário imparcial e capaz de distribuir justiça de maneira impessoal. Além disso, ao fazer justiça com as próprias mãos cada um dos partidos que disputavam o controle da cidade impulsionava a dinâmica fratricida dando ao rival um novo motivo para se vingar. A guerra externa pacificava temporariamente os florentinos, mas não era capaz de eliminar o fundamento mesmo das disputas intestinas: a controvérsia jurídica insolúvel que dividia a sociedade em dois campos irreconciliáveis (o dos nobres, que tentavam impor seus privilégios e; o dos cidadãos que queriam que todos tivessem os mesmos direitos).
“As guerras externas e a paz interna haviam como que extinguido em Florença os partidos gibelinos e guelfos; ficaram acesos apenas os humores que naturalmente costumam existir em todas as cidades entre os poderosos e o povo; porque, visto que o povo quer viver de acordo com as leis, e os poderosos querem comandá-las, não é possível que se ajustem”. (História de Florença, Maquiavel, Martins Fontes, São Paulo, 2007 p. 94)
No Brasil algo semelhante está ocorrendo desde que o juiz da Lava Jato passou a proteger suspeitos (FHC e Eduardo Cunha) e a perseguir Lula com base numa acusação que não para em pé segundo Gilmar Mendes. A condenação do ex-presidente petista no processo do Triplex será inevitavelmente anulada por causa do escândalo noticiado pelo The Intercept, Folha, Veja, etc… O desespero do Ministro da Justiça para tentar incriminar Glenn Greenwald é evidente. O escândalo que ele está noticiando destruiu a imagem de juiz imparcial que Sérgio Moro mantinha em público enquanto conspirava no telefone com Deltan Dellagnol para prejudicar Lula.
É impossível pacificar uma cidade ou um país politizando o Judiciário. Isso só aumenta o grau de desconfiança e a animosidade entre os rivais. E em algum momento a rivalidade parlamentar (nunca é demais lembrar que o vocábulo “parlamentar” pode significar tanto o membro do Parlamento como o ato de participar de conversações e negociações) começa a se tornar mais e mais violenta. Por fim, quando a violência se espalha a tranquilidade civil é rompida em virtude da destruição do espaço delicado que havia sido construído por homens diferentes para possibilitar uma coexistência pacífica.
O motivo das disputas políticas em Florença e no Brasil atual são os mesmos: a distribuição de recursos públicos escassos. Soberba, inveja e avareza continuam sendo as três chispas que acendem os conflitos.
Se mergulharem no conflito ao lado de um partido (em troca de salários acima do teto e aposentadorias abaixo da moralidade), os juízes não serão mais vistos como autoridades isentas e capazes de aplicar a mesma lei a todos os cidadãos. Nesse momento em que o inimigo de Lula utiliza a Polícia Federal e o MPF para tentar inviabilizar a consequência judiciária necessária do escândalo da Vaza Jato o Judiciário deve tomar um cuidado extremo. A libertação do ex-presidente petista é inevitável e o Poder Judiciário deve tomar todas as medidas que forem indispensáveis para impedir qualquer tipo de coação do partido antilulista comandado por Sérgio Moro.
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