4 de junho de 2026

 Sobre a importância da reprodução sexual

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A reprodução sexual foi responsável direta pela consecução de 2 eventos extraordinários: a geração das grandes de redes de indivíduos conectados wireless que constituem as espécies, unidades evolutivas sujeitas a seleção natural de maneira análoga aos indivíduos e genes; e a ruptura da barreira que impedia os seres vivos de superar o limite de complexidade até então imposto a eles. Nas páginas a seguir, darei uma noção da importância estrondosa dessas duas consequências.

https://jornalggn.com.br/ciencia/uma-heresia-biologica-a-selecao-de-especies/

Seleção de espécies

As espécies podem ser encaradas como entes individuais, seres compostos por indivíduos, assim como os indivíduos são formados por células, embora conectados de maneira wireless, uns aos outros.

Vistas sobe esse ângulo, as espécies competem entre si e se reproduzem, assim como os indivíduos. O modo de reprodução das espécies é chamado especiação. Alguns grupos de espécies reproduzem-se, ou especiam, muito mais que outros, como fica óbvio ao se considerar os grandes lagos africanos e a profusão de espécies de peixes ciclídeos ali endêmicos, isso é, que só existem em cada um desses lagos. O fenômeno assume feições magníficas ao se considerar que tais lagos secaram há coisa de 10 mil, ou 15 mil anos, de modo que as centenas de espécies de ciclídeos que se originaram em cada um desses lagos foram quase todas geradas apenas nesse curto período! Tal constatação se abate de maneira estrondosa sobre a concepção de especiação por isolamento geográfico vigente ainda hoje, solapando-a brutalmente. Acentuemos que tais lagos não oferecem a geografia recortada em arquipélagos propícia à suposta especiação geográfica, mas, ao contrário, consistem em ambientes únicos, muitíssimo fracamente intercalado por barreiras geográficas, neles virtualmente inexistentes.

(Apresento aqui:

https://jornalggn.com.br/ciencia/ciencia-viva/

uma crítica ao modelo de especiação geográfica;

e aqui, o modelo de especiação fetichista, que defendo:

https://jornalggn.com.br/fora-pauta/como-surge-uma-nova-especie-biologica-por-gustavo-gollo

Especiação fetichista

Tenho defendido que a especiação – o surgimento de uma nova espécie – ocorre fundamentalmente através de um mecanismo que a chamei “especiação fetichista”, que ocorre, muito sumariamente, do seguinte modo:

Cada espécie possui um sistema de isolamento reprodutivo próprio que a define e a separa de todas as espécies. Caso duas “espécies” compartilhem o mesmo sistema de isolamento reprodutivo, quando os indivíduos de uma e outra se encontrarem, eles intercruzarão, constituindo um único grupo de indivíduos intercruzantes, ou seja, uma mesma e única espécie.

O sistema de isolamento reprodutivo das espécies inclui uma variada gama de mecanismos de “chaves e fechaduras”, boa parte deles apresentados sob a forma de rituais de corte, nos quais indivíduos de ambos os sexos exibem seus dotes visuais, auditivos, olfativos, comportamentais e demais possibilidades para impressionar e adquirir parceiros para a reprodução. Cada indivíduo possui seus próprios dotes, assim como as preferências que definem o perfil do parceiro ideal. Em cada uma das espécies existentes, dotes e preferências coadunam-se em quase total perfeição, razão pela qual machos e fêmeas correspondem, quase exatamente, à perfeição do objeto desejado por uns e outros. De fato, os indivíduos de cada espécie foram todos eles, em larga medida, modelados, através das gerações, pelas preferências e desejos de seus ancestrais, assemelhando-se ao objeto desejado por eles.

Entre a longa lista de características que definem o indivíduo ideal desejado por cada um, eventualmente inserem-se uns “fetiches”, uns desejos destoantes do ideal comum desejado pelos indivíduos da espécie. A maioria dos fetiches nunca se manifesta, de fato, dada a inexistência de um ser que satisfaça exatamente o objeto de desejo do fetichista. Eventualmente, no entanto, pode surgir um indivíduo anômalo que o faça, assemelhando-se bastante ao objeto de desejo de um pequeno grupo de fetichistas. Caso essa anomalia cause alguma repulsa aos indivíduos comuns da espécie, haverá uma forte tendência a que tal indivíduo acasale-se com os fetichistas, gerando uma prole que tenderá a herdar ambas as qualidades: a característica em questão e o desejo por ela.

Tendo herdado tanto a característica anômala, quanto o desejo por ela, essa prole tenderá a se comportar como um grupo endogâmico, que só se reproduz entre si. O exercício contínuo de tal ação modela os indivíduos cada vez mais precisamente aos desejos dos fetichistas. O resultado do processo é um novo grupo de indivíduos isolado reprodutivamente dos da espécie ancestral, portador de um novo sistema de isolamento reprodutivo próprio diferente do de seus ancestrais. trata-se de uma nova espécie e do sistema de isolamento reprodutivo que lhe é próprio, inerente e exclusivo da nova espécie.

Note a existência de uma correspondência 1 para 1 entre a espécie e seu mecanismo de isolamento reprodutivo, de modo que a criação de um novo sistema de isolamento reprodutivo consiste, também, na geração de uma nova espécie. Por essa razão, podemos analisar a evolução das espécies a partir, exclusivamente, da análise de seus mecanismos de isolamento reprodutivo.

Diferentes taxas de especiação

Considere 2 mecanismos de isolamento reprodutivo distintos, um deles muito rico e elaborado, decorrente de uma complexa exibição ritualística na qual, em meio a danças e manifestações sonoras e olfativas os indivíduos exibem o colorido variado de seus corpos, enquanto o outro é muito mais simplificado, decorrente de umas poucas manifestações dos indivíduos. Assim sendo, o primeiro mecanismo só poderá ser descrito por uma longa lista de manifestações e características, digamos: A, B, C, D… … X, Y, Z, enquanto o outro mecanismo corresponde a uma sucessão de manifestações muito mais simplificada, descrita, digamos, por algo como: a, b, c. Consideremos ainda que cada etapa listada no primeiro corresponda a manifestações estritamente definidas, enquanto o segundo permita manifestações menos definidas e mais amorfas. Em tal caso, se as espécies correspondentes a cada um dos mecanismos de isolamento reprodutivo propostos forem constituídas por uma quantidade equivalente de indivíduos, a probabilidade de surgimento de fetiches correspondentes a inversões, transposições, modificações e deleções das letras que constituem as etapas do mecanismos será muitíssimo maior no primeiro que no segundo mecanismo, podendo-se afirmar que os mecanismos de isolamento reprodutivo mais complexos tendem a ocasionar taxas de especiação mais altas que os mais simplificados. É essa a causa da existência de enxames de espécies, conjuntos de espécies aparentadas surgidas em relativamente pouco tempo. Em vista disso, não surpreende que tais enxames se manifestem em grupos que ostentam ornamentações sexuais bastante conspícuas, como os ciclídeos citados acima, beija-flores e orquídeas.

Em vista de tudo isso, concluímos que parte considerável da diversidade encontrada entre os seres decorre de tal fenômeno, sendo as espécies que vemos, não apenas compostas pelos indivíduos mais aptos, mas também por corresponderem às linhagens de espécies mais especiadoras. (Tendo se originado em decorrência da fixação de um antigo fetiche, a nova espécie vê-se compelida a encontrar um nicho ecológico próprio, diferente do da espécie ancestral e, subsequentemente, feições próprias que adequem seus indivíduos ao novo nicho).

https://jornalggn.com.br/ciencia/uma-explicacao-para-o-equilibrio-pontuado/

Uma vez surgida, a nova espécie constitui uma rede wireless que pode ser encarada como um único ser competindo com outras espécies. Tal “indivíduo” – a espécie como um todo –, constitui um grande acréscimo de complexidade aos indivíduos que a compõem. A formação de tais grupos, quando do surgimento da reprodução sexual, constituiu, de imediato, um salto na complexidade das criaturas então existentes.

A ruptura da barreira de complexidade

Replicadores devem se replicar, e aqueles que o fazem mais hábil e constantemente constituem as linhagens que se perpetuam, sendo todas as linhagens existentes hoje, as decorrentes daquelas que, efetivamente, mais se replicaram. Essa máxima compele os replicadores a se replicarem o mais rápida e repetidamente que possam, dado que os que assim o fazem se multiplicam e são vistos por aí, enquanto os outros, não.

O acúmulo de complexidade tende a favorecer a sobrevivência de um organismo. De modo a sobreviver por mais tempo, as criaturas adquirem mais e maiores defesas a sua sobrevivência. Tais aquisições correspondem a aumentos de complexidade. Ocorre que o aumento de complexidade de um replicador tende a dificultar sua replicação, tornando-a mais onerosa e lenta. Assim, o aumento de complexidade dos seres, ao passo que tende a ampliar-lhes o tempo de vida, tende também a aumentar-lhes o tempo necessário para a replicação. O efeito conjunto é o de uma maior lentidão concomitante ao aumento de complexidade.

Após longas eras de convivência nos mares primordiais do planeta, as criaturas primevas haviam atingido um limite de complexidade a partir do qual os ganhos em tempo de vida decorrentes de eventual aumento de sua complexidade, era superado pelas desvantagens decorrentes da correspondente lentidão em sua replicação. Esse limite correspondia a uma barreira que impedia o aumento de complexidade das criaturas.
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O surgimento da reprodução sexual, no entanto, lançou, em uma única tacada, seres poliploides a patamares de complexidade nunca vistos anteriormente. O inauditismo de tal processo permitiu que as criaturas geradas pelo estranho processo de reprodução, recém-criado, grassasse virtualmente sem qualquer competição, produzindo uma enorme profusão de seres de complexidade até então inusitada.

Foi essa condição de “reserva de nichos” exclusivos para criaturas complexas que possibilitou a implantação da reprodução sexual e que, até hoje, permite a manutenção desse modo de reprodução tão absurdo e ineficiente.

https://www.academia.edu/39990541/O_paradoxo_da_reprodu%C3%A7%C3%A3o_sexual

https://jornalggn.com.br/blog/gustavo-gollo/a-teoria-da-origem-parasitaria-da-reproducao-sexuale-do-espermatozoide-por-gustavo-gollo/

Por essa razão, a gênese da reprodução sexual talvez tenha constituído o maior salto evolutivo desde o surgimento dos seres vivos.

https://www.youtube.com/watch?v=Qw_S3T25pBc

https://www.youtube.com/watch?v=Qw_S3T25pBc

Leia também:

https://jornalggn.com.br/artigos/o-grande-momento-da-historia/

https://jornalggn.com.br/ciencia/teoria/

Gustavo Gollo é multicientista, multiartista, filósofo e profeta

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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