Ciência viva, por Gustavo Gollo

Ciência viva, por Gustavo Gollo

A maior parte das discussões científicas é efetuada de maneira mistificadora, através de palavras “cabeludas” que excluem as pessoas comuns do debate. Muitas delas, no entanto, poderiam, e deveriam, ser discutidas por todas as pessoas inteligentes. A ciência é uma atividade viva, está sendo construída. Tudo o que “sabemos” hoje será abalado em algumas décadas, reconstruído de outra maneira, negando boa parte do que se acredita atualmente. Pessoas inteligentes podem acompanhar e participar do processo de discussão que conduzirá a novas visões de mundo, a novas concepções de todas as coisas. (A falta de conhecimento matemático pode ser empecilho real e justificado, a isso. Parte considerável do impedimento de fato existente, no entanto, é consequência do uso de um vocabulário mistificador pelas comunidades científicas, um péssimo hábito que acaba gerando a exclusão de participação externa).

Em 1997, apresentei uma tese contendo um conjunto de ideias revolucionárias. O título do trabalho, “Como surgem as espécies?”, explicitava claramente o problema central nele tratado, um dos temas centrais da biologia: a origem das espécies, ou os mecanismos capazes de gerar novas espécies. A importância da questão tinha sido evidenciada no título da obra máxima de toda a evolução: “Sobre a origem das espécies”, de Darwin, que se referia, exatamente, ao mesmo problema.

Na ocasião, em 97, já havia uma resposta para o problema – de fato, muitas –, a mesma, aliás, em que a maioria, estranhamente, acredita até hoje, chamada “especiação por isolamento geográfico”. Creio ter mostrado que tal solução se baseia em um erro facilmente compreendido, mas percebo, hoje, que a maioria das pessoas, mesmo dos cientistas profissionais, prefere acreditar no que está escrito nos livros e no julgamento da maioria, a se basear na razão. Thomas Khun explicitou boa parte da irracionalidade da comunidade científica que determina esta dinâmica em seu best seller “A estrutura das revoluções científicas”. Ao contrário dele, no entanto, considero a resignação com tal fato um completo despautério. Creio que verdadeiros cientistas deveriam ter obrigação de se guiar pela racionalidade.

 

O jogo da ciência

Ainda que bizarra, a irracionalidade de tal situação suscita sua exploração através de um belo jogo. Seguindo as linhas abaixo, o leitor terá a oportunidade de participar de um dos episódios centrais do jogo da ciência, desvendando a maneira como surgem as espécies.

Especiação por isolamento geográfico

O surgimento de novas espécies costuma ser explicado do seguinte modo: eventualmente, o soerguimento de algum tipo de barreira geográfica pode separar grupos de indivíduos do restante da espécie. A separação pode dividir a espécie em 2 grupos igualmente numerosos, ou pode consistir simplesmente no isolamento de poucos indivíduos, talvez um casal; todo o espectro entre estes extremos é possível. Os grupos podem ser mantidos separados por meio de águas oceânicas entre continentes, ou ilhas; por um grande rio que impeça sua travessia; por porções de terra, no caso de espécies aquáticas, ou por qualquer obstáculo natural que impeça o contato entre indivíduos oriundos de um lado e outro da barreira. Mantidos separados uns dos outros, ambos os conjuntos de populações vão acumulando mutações, junto às consequentes modificações decorrentes deste acúmulo. Com o passar do tempo, ambos os grupos populacionais acabariam por acumular tantas diferenças que seriam vistos como duas espécies distintas, sendo esta, fundamentalmente, a origem das espécies hoje existentes.

Exemplos bastante ilustrativos do fenômeno seriam dados pelas tartarugas gigantes das Galápagos, o arquipélago isolado onde Darwin pôde constatar fortíssimas evidências da evolução. Em cada uma das ilhas deste arquipélago havia uma espécie de tartaruga gigante, cada qual distinta das de outras ilhas. A explicação da formação de cada uma das espécies em decorrência do isolamento geográfico de cada uma das populações insulares, parece cair como uma luva em tal grupo. Do mesmo modo, vários grupos de espécies, neste e em outros arquipélagos, se adequam com perfeição à explicação, exibindo espécies assemelhadas, mas distintas, em cada ilha.

              

Esta explicação, proposta por Darwin, e aceita até hoje, está equivocada, ou melhor, “fora de mira”. A argumentação acima mira no alvo errado e explica a contento a formação de novos tipos, mas nada acrescenta sobre a formação de novas espécies biológicas, quero dizer: conjuntos de populações, real ou potencialmente, (direta ou indiretamente), intercruzantes e reprodutivamente isoladas de outros grupos.

À primeira vista, a observação acima pode parecer mero fruto de implicância, ou algum tipo de afetação com o propósito de encontrar cabelo em casca de ovo; não é. O problema é sério, e real, porque estamos tratando dos fundamentos da evolução. O que queremos explicar é a origem de todas as espécies que conhecemos e que habitam os continentes, principalmente, não apenas aquelas preciosidades raras mantidas em ilhas distantes. O retorno eventual das tartarugas ao continente, eliminando a barreira geográfica que impede o cruzamento entre os tipos, ocasionaria a fusão de todos os tipos em um único conjunto homogêneo, revelando que os grupos distintos, mantidos separadamente, apenas superficialmente se assemelham a espécies biológicas distintas, constituindo, tão somente, tipos diferenciados.

 

De modo a explicar a formação de novas espécies biológicas, não podemos perder de vista que estamos tentado explicar o surgimento de conjuntos de populações, real ou potencialmente, intercruzantes e reprodutivamente isoladas de outros grupos. São tais grupos que compõem a diversidade existente à nossa volta. Não existissem barreiras endógenas separando as espécies, e todos os tipos intercruzariam indiscriminadamente, gerando um único grupo homogêneo e destruindo toda a diversidade entre eles; isto ocorreria com todos os seres.

Os seres vivos, no entanto, encontram-se separados em grupos distintos, reprodutivamente isolados de outros, ou seja, encontram-se diferenciados enquanto espécies biológicas distintas e não apenas enquanto tipos.

Resumindo: explicar a formação de novas espécies significa, exatamente, explicar a formação de “conjuntos de populações, real ou potencialmente, (direta ou indiretamente), intercruzantes e reprodutivamente isoladas de outros grupos”. A formação de tipos diferenciados, como as tartarugas das galápagos, não corresponde à formação de novas espécies, fato que pressupõe o surgimento de isolamento reprodutivo entre 2 grupos, sendo isto, exatamente, o que precisa ser explicado. O erro recorrente se deve à identificação de espécies a tipos.

Confira, leitor, que a breve argumentação acima demole a explicação ortodoxa para a especiação, um dos pilares centrais da evolução. Refaça-a e constate que o isolamento geográfico propicia, apenas, a formação de novos tipos que se misturam, caso se encontrem. Note, no entanto, que a diversidade que vemos em nosso mundo decorre, fundamentalmente, do fenômeno de especiação, da formação de novas espécies, cujos indivíduos se reconhecem como tais, tendo sido este fenômeno o originador da diversidade de insetos, pássaros, flores, e de todo o resto, sendo ele a grande fonte de diversificação existente.

                            

De volta ao jogo

Gostaria, uma vez mais, de chamar a atenção do leitor para o jogo da ciência. Perceba que a crítica acima detona a concepção ortodoxa, mas que a quase totalidade dos biólogos crê, até hoje, nesta baboseira chamada “especiação por isolamento geográfico”, confira nos livros e na internet.

Se tiver alguma objeção quanto ao uso de minha expressão “baboseira”, releia o texto acima e tente encontrar alguma falha em minha objeção! Não encontrando, releia novamente e repita isto até não lhe restar nenhuma dívida sobre o argumento. Ou encontre e mostre o erro; aprenderá em qualquer dos casos.

Não encontrando erro em minha objeção, no entanto, constatará a irracionalidade da discussão científica contemporânea, e sua leviandade, apesar das “justificativas” sugeridas por Thomas Kuhn, o autor mais citado em artigos científicos.

Em seguida, entre no jogo! É aberto ao público em geral, divertidíssimo, muito melhor que a maioria dos jogos à venda, ou disponíveis na rede, usualmente, passatempos fúteis. Recomendo especialmente aos jovens a participação no jogo da ciência.

Tendo detonado a explicação ortodoxa para o importantíssimo fenômeno da especiação, o passo seguinte consiste, naturalmente, na busca para a solução do problema:

Como surge uma espécie biológica?

O leitor poderá conferir minha resposta.

Recomendo, no entanto, que, antes disso, entre na brincadeira e busque, por si mesmo, preferencialmente em grupo, inventar sua própria solução para o problema (por alguma estranha razão, a palavra “inventar” costuma causar calafrios em pessoas tacanhas, especialmente as imbuídas de determinações científico-burocráticas impeditivas de qualquer criatividade. Nunca permita que te impeçam de inventar!). Tente, você mesmo, resolver o enigma proposto!

DICA: a antiga concepção, pré-evolucionária, de espécie como um tipo, é o que tem confundido os biólogos. Não perca de vista a definição de espécie biológica. Mantenha em mente o fato de que explicar o surgimento de uma nova espécie consiste em explicar o surgimento de “conjuntos de populações, real ou potencialmente, intercruzantes e reprodutivamente isoladas de outros grupos”.

 

Advertência: assim como meus outros textos científicos apresentados aqui no ggn, este texto, provavelmente, será censurado, ou melhor, abafado, oculto de modo a não poder ser encontrado, assim como meu “Teoria da evolução”, que continua na rede, mas que dificilmente lhe será mostrado pelo google, embora esteja aqui:

https://jornalggn.com.br/fora-pauta/teoria-da-evolucao-por-gustavo-gollo

Tendo resolvido o enigma proposto e construído sua própria solução para o problema da origem das espécies, convido o leitor para comparar sua resposta com a minha, apresentada aqui, e também sob censura:

https://jornalggn.com.br/fora-pauta/como-surge-uma-nova-especie-biologica-por-gustavo-gollo

E, lembre-se, com suficiente criatividade, sempre é possível melhorar o que já está pronto. (Pode começar tentando mostrar que minha proposta está errada, o jogo da ciência se baseia, sempre, na dúvida: duvide de tudo o que lhe informarem, duvide sempre!)

Ciência é esse tipo de jogo, uma brincadeira simples, nada mais, o resto é mistificação.

 

Iniciei este texto com uma alusão a minha tese de 97, desenvolvida sob o espírito lúdico aqui proposto – toda boa ciência é feita desse modo. A tese de 97 incorporou ainda uma simulação do modelo de especiação proposto. Na ocasião, desenvolvi um programa que resultou na primeira espécie gerada em computador. Tentativas anteriores, como um jogo popular na época chamado “Sim life”, pressupunham o modo de especiação por isolamento geográfico, criticado acima, razão pela qual não permitiam o surgimento de espécies biológicas. Na ocasião, eu tinha em mente o uso de meu programa na construção de máquinas inteligentes. Uma tendência da época consistia em gerar uma população de jogadores de xadrez, por exemplo, que disputariam partidas entre si, permitindo, em seguida, a reprodução dos vencedores na expectativa de que herdassem de seus progenitores as características que os haviam tornado vencedores. Supus que populações mais complexas, divididas em espécies, talvez pudessem contribuir com a seleção dos melhores jogadores, aguçando o que poderia ser chamado aprendizado de máquina. Devo confessar, todavia, que, na época, dei pouca importância à simulação, considerando o modelo de especiação proposto o ponto central da tese. Secundariamente, a tese implicava ainda a demonstração da inconsistência do conceito de espécie biológica, conforme interpretado até hoje.

Certas vicissitudes, no entanto, inexplicavelmente, deixaram meu programa, assim como meu modelo de especiação, guardados, com pouquíssima divulgação, basicamente comunicações boca a boca, e através de chats. 10 anos depois, um brasileiro publicou na Nature um programa similar ao meu. Bobeei.

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4 comentários

  1. Viva a ciência

    Olá Gustavo,

    Aprecio muito o seu “espírito de jogo”, como você diz, e acho que essa postura é fundamental para que surjam novas ideias, e para que os cânones sejam apreciados pelo seu conteúdo, e não por uma reverência à autoridade.

    Infelizmente, tenho constatado que é em grande parte fútil discutir ciência na internet, pois quando quis “jogar o jogo da ciência”, normalmente me defrontei com pessoas que tinham “carimbos ideológicos” em mãos, afoitos por carimbar essa ou aquela ideia como sendo de “extrema direita” ou coisa que o valha. Isto é, falta interlocução sincera. Não é só um problema dos argumentos de autoridade, é uma incapacidade de se abrir para a argumentação lógica e/ou factual. A “verdade”, esta coisa que não habita a casa da ciência, embora lhe seja o motor, parece não ter mais valor hoje. Talvez porque diante da verdade, todos tenhamos nosso quinhão de ignorância. E “Narciso só acha feio o que não é espelho”.

    Vejo muitos jovens nas universidades desautorizarem ideias não pelo seu mérito, mas por sua idade. “Isso está ultrapassado”, independente do valor intrínseco daquela ideia. Ou o apoio a uma idéia por parcialidade política ou ideológica. Ademais, para se jogar, há que se ter espírito de jogo, mas na internet é mais comum encontrar o outro, o de porco.

    Para além disso, parabéns pelo seu trabalho e pela alegria em pensar que você deixa transparecer em seus textos. Um abraço!

    • Apelo à Novidade

      Os jovens que apelam à novidade não por seus méritos, mas apenas por sua novidade, se não mudarem, depositarão seus país num abrigo de velhos, alegando que eles estarão ultrapassados.

      Sad but true

  2. Para se formar e avançar, a ciência precisa de conceitos

    As palavras “cabeludas” são os conceitos científicos. Sem esses conceitos, a ciência não seria o que é.

    Se você acha que o problema está nos cientistas escolherem palavras cabeludas, sugira nomes alternativos para os conceitos de osmose e metabolismo, por exemplo. E o conceito de massa crítica seria substituído por qual palavra careca?

    E uma palavra careca para substituir apótema?

    Diria Marx que:

    “Toda ciência seria supérflua se a aparência e a essência das coisas coincidissem imediatamente”.

    E mais ainda:

    “As verdades científicas serão sempre paradoxais, se julgadas pela experiência de todos os dias, a qual somente capta a aparência enganadora das coisas”.

     

    Gollo, você queria um caminho real para a ciência mas isso não é possível, tendo em vista que:

    “There is no royal road to science, and only those who do not dread the fatiguing climb of its steep paths have a chance of gaining its luminous summits.” – Marx

  3. Lá vem o Gollo de novo…

    E que espécies nao surgem só por isolamento geográfico é sabido por todo mundo, seu sabichão. Vc cria um espantalho, o atribui aos cientistas, o combate, e acha que fez algo de válido. Passa fora, vá falar do que entende.

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