O passado de Sergio Moro

Grampos irregulares, delações premiadas que visam figuras influentes e poderosas, vazamentos sistemáticos e seletivos, relações promíscuas com procuradores, desprezo pela presunção de inocência, atropelos às garantias constitucionais e discursos meramente populistas. Muito já foi dito e escrito a respeito da Operação Lava Jato e dos métodos empregados pelo ex-juiz Sergio Moro. Mas e se você soubesse – melhor ainda: e se a imprensa nacional e os tribunais superiores agissem como se soubessem – que a veia autoritária e a disposição para extrapolar as leis numa pretensa cruzada anticorrupção são, na verdade, características que acompanham Sergio Moro desde o início de sua carreira na magistratura?

O que teria sido diferente na história recente do Brasil se, em vez de herói nacional, Moro tivesse recebido o mesmo tratamento implacável que teve o espanhol Baltazar Garzon, um célebre juiz expulso da magistratura por ter cometido o “pequeno” erro de admitir a interceptação de pessoas que nada tinham a ver com uma investigação criminal? “Isso é menos do que você pegar um grampo ilegal, dirigido, editado e largar em público claramente para ter comoção e derrubar um governo”, diz o procurador da República Celso Tres ao lembrar que Moro vazou uma conversa entre Lula e a então presidente da República Dilma Rousseff, e jamais foi punido por isso. “Em qualquer país sério, o juiz seria demitido por causa disso. ”

A verdade ofuscada pelo tempo, resgatada no documentário “Sergio Moro: A construção de um juiz acima da lei”, é que o ex-juiz da Lava Jato cometeu excessos em vários processos que instruiu e depois julgou desde meados dos anos 2000, tempos de Banestado. Muito antes da Lava Jato deflagrar sua primeira fase, em março de 2014, os tribunais superiores tomaram conhecimento de que algo de muito estranho acontecia na 2ª Vara Federal, que depois veio a se tornar a 13ª Vara Federal em Curitiba. Mas esses tribunais nada fizeram para barrar o comportamento transgressor de Moro. “Se criou um monstro, que se expandiu [na Lava Jato]”, diz o jurista Cézar Roberto Bitencourt, um dos personagens que aparecem no documentário.

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