24 de junho de 2026

A deslegitimação da tristeza e da subjetividade no processo de adoecimento físico, por Flávia Andrade Almeida

Deslegitimar e desqualificar a tristeza é passar por cima dos nossos limites emocionais, é como que afirmar que somos máquinas formuladas para a felicidade, produtividade e para a realização.
Foto EmotionCard

do blog Psicologia e Prevenção do Suicídio

A deslegitimação da tristeza e da subjetividade no processo de adoecimento físico

por Flávia Andrade Almeida

A noção de saúde no contexto social parece estar naturalizada. É como se por saúde entendêssemos algo do campo do óbvio. Como se saudável fosse meramente aquele que não sofre de nenhum tipo de perturbação física ou psíquica.

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No campo dos saberes da saúde o conceito vem sendo discutido há algum tempo. A noção de saúde como ausência de doença parece não ser a mais adequada e a Organização Mundial da Saúde adverte que estar saudável não se restringe a não ter doenças. Por outro lado, saúde como estado de bem-estar pode remeter a um entendimento vago e genérico, pois aquilo que pode trazer sensação de bem-estar varia de acordo com cada pessoa.

De todo modo, o que parece indiscutível é que invariavelmente chega, junto a qualquer tipo de adoecimento, a angústia. Geralmente a angústia e a tristeza são relacionadas ao tipo e a gravidade do adoecimento. Algumas vezes estão relacionadas diretamente ao medo da morte. E nesse ponto, perguntamos: em nossa sociedade, há lugar para tristeza, sofrimento, dor, angústia? Essas manifestações psíquicas e emocionais são consideradas no processo de tratamento e/ou reabilitação no campo da saúde?

Aqui a intersecção entre doença, subjetividade e angústia se torna presente e visível, mas não necessariamente considerada. E podemos afirmar que há certa tendência a esconder ou até mesmo tentar anular as angustias decorrentes do adoecimento. É como se o ethos, a racionalidade social vigente estimulasse a ideia de que a satisfação, a produtividade e a felicidade são a tradução da vida e da saúde e  por outro lado, dor, doença e angústia consistissem no seu oposto, no fracasso. Aquilo que traduz supostamente a falha, a fraqueza no bem viver tende a ser banido e junto a isso praticamente se demoniza a tristeza. Há certo imperativo social de que o par tristeza/fraqueza é inseparável. Como se o âmbito do que é humano, existencial não contemplasse a dor e a tristeza. E é justamente no campo da crise e da tristeza que enxergamos o que é essencial: nosso limite próprio, individual e instransferível.

Não é raro nos ambientes médico/terapêuticos ouvirmos dizerem aos pacientes em tratamento “não se entristeça, não chore, você precisa ser forte”, como se o adoecimento não provocasse um choque ao qual é preciso deixar-se reagir e como se o choro impossibilitasse a cura.

Deslegitimar e desqualificar a tristeza é passar por cima dos nossos limites emocionais, é como que afirmar que somos máquinas formuladas para a felicidade, produtividade e para a realização.

A consequência disso é clara: muitas pessoas não aguentam. O limite que se ultrapassa de si, o psiquismo faz emergir muitas vezes em doença, em depressão e, algumas vezes, em desejo de acabar com a própria vida.

Os ideais de saúde, em larga medida, são generalizantes, normativos. Há uma medida do ideal, do considerado típico, normal esperado e os desvios necessitam de correção, e, preferencialmente, rápida, medicamentosa, sem choro e sem reflexão. Não abrem-se as brechas para que cada um, em seu próprio processo individual e limite pessoal se adeque aos poucos às suas novas condições de vida. A doença não é uma dimensão da saúde. A doença é uma dimensão da vida, dizia o filósofo Georges Canguilhem. E é muitas vezes a essa nova condição de vida ocasionada pelo adoecimento que o sujeito pode se adaptar de acordo com suas possibilidades e características próprias.

Canguilhem propunha uma concepção de saúde diferente das noções que podem ser normativas porque pressupõem ideais restritos e generalizantes. Para o filósofo, não é possível, a partir da  ocorrência da doença e mesmo com sua cura, retornar ao ponto zero àquilo que era o sujeito antes do diagnóstico. Há, nesse período, um processo: a doença e suas implicações transformaram as condições de vida, o percurso e a história do sujeito e é nessa transformação que será pensada a sua melhor condição de saúde dali para frente. Falamos aqui mais em reabilitação do que em cura. Para Canguilhem a saúde não se define pela média nem pelo ideal, mas pela plasticidade normativa. Para ele a média e os ideais podem ser impositivos por partirem do universal para o individual. E de acordo com esse filósofo (e médico) a saúde pode ser a capacidade de manter-se em ação, mesmo com limitações. Ou seja, a saúde pode ser a capacidade de se adaptar a condições limitantes de vida, mantendo-se, na medida do singularmente possível, ativo e com a autonomia preservada e respeitada.

O médico pediatra e psicanalista inglês contemporâneo, Winnicott, também entende a capacidade criativa como indicação de saúde pessoal. Para Winnicott é imprescindível integrar-se psiquicamente e desenvolver a capacidade de recriar-se, mesmo diante de sofrimentos, sejam eles físicos ou psíquicos. E Winnicott vai além, pois enfatiza a importância de se compreender e respeitar as próprias angústias como parte da constituição de si e da reinvenção da própria potência para a vida. É muitas vezes nos momentos de dificuldade e crise que os indivíduos refletem e enxergam os próprios medos, angústias e limites, os quais é preciso respeitar. Lembramos, nesse ponto que tristeza, angústia e sofrimento não são sinônimos de depressão. A tristeza e o sofrimento psíquico podem estar relacionados e podem ser sintomas de depressão, mas não se trata da mesma coisa. Podemos estar em sofrimento psíquico, o qual precisa ser compreendido em sua singularidade, sem estarmos necessariamente com quadros depressivos (que requerem tratamento adequado).

Para Winnicott, em suma, recuperar a saúde (física e psíquica) é um processo que precisa ser vivenciado pela pessoa como uma criação sua para que sua reabilitação esteja de acordo com seu sentido individual de existir.

Se seguirmos o entendimento de Canguilhem e Winnicott o objetivo dos tratamentos não seria apenas a extinção de sintomas, mas a reabilitação do indivíduo como um todo, como um ser humano momentaneamente abalado que precisa de apoio para que reencontre sua potência individual como ser criativo e capaz de se reinventar. De acordo com Canguilhem, não é possível recuperar necessariamente a mesma potência biológica de antes do adoecimento, mas, justamente por não sermos máquinas, podemos estar sempre em transformação e amadurecimento. Somos o resultado de nossas trajetórias e elas incluem os adoecimentos, as crises e as angústias. Nossa constituição enquanto sujeitos inclui nossas cicatrizes físicas e emocionais.

As concepções de saúde de Canguilhem e Winnicott se aproximam da noção de grande saúde, proposta pelo filósofo alemão Nietzsche. Para Nietzsche a grande saúde não é um ideal único e absoluto, mas uma concepção que engloba momentos de enfermidade e que consiste em nossa capacidade plástica, mutável de manter a potência de vida mesmo quando em momentos de crise.

A reflexão sobre essas diferentes noções sobre saúde nos faz ver que passar por momentos de dificuldades decorrentes de adoecimento e sentir-se emocionalmente abalado é parte do processo de adaptação e dele faz parte a angústia. A tristeza, portanto, tem importância fundamental no enfrentamento de diversas situações da vida, entre elas o adoecimento. Nesse sentido é imperativo afirmar: estar doente não é estar condenado a uma vida ruim e estar triste não é estar ou ser fraco. Estar enfrentando um processo de adoecimento pode não ser fácil, e muitas vezes não é. Pode não haver necessariamente uma cura, mas a possibilidade de bem-estar e adaptação apesar de determinada condição física. E estar triste é reconhecer a própria subjetividade, da qual pouco se fala nos tratamentos de saúde. Estar triste é reconhecer que há processos nas nossas vidas que podem ser mais dolorosos e que podemos aprender a lidar com eles. Significa ainda que temos POTENCIAL para aprender a lidar com momentos de adoecimento e de crise.
Por outro lado, deslegitimar tristeza e desconsiderar a subjetividade não contribui para cura ou recuperação, pois para que haja adaptação é preciso antes que se saiba os limites de si e é justamente deles que a tristeza nos fala. Desqualificar e pretender esconder a tristeza não é portanto, sinal de força, mas de desrespeito consigo mesmo. O respeito ao próprio momento e ao processo individual de adaptação são fundamentais e estes sim, sinais de compatibilidade com a saúde integral. É preciso proporcionar acolhimento para a recuperação do sujeito, inclusive para que se recupere da própria tristeza.

Flávia Andrade Almeida é Psicóloga Clínica e Hospitalar, Especialista em Psicologia da Saúde, Psico-oncologia e Prevenção do Suicídio. Mestranda em Filosofia (Suicídio na Biopolitica) e autora do blog e página Psicologia e Prevenção do Suicídio.

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