A contradição fatal no populismo de direita
por Andre Motta Araujo
O GLOBALISMO É A ÚLTIMA ETAPA DO NEOLIBERALISMO
Há uma contradição insanável entre os chamados “populismos de direita”, qual sejam as plataformas de Trump, Boris Johnson, Bolsonaro e outros, e o neoliberalismo à moda de Chicago. Os populistas de direita são contra o GLOBALISMO, mas o “neoliberalismo de Chicago só pode existir no mundo globalizado. Portanto, os “populistas de direita” não podem combater o GLOBALISMO e ao mesmo tempo apoiarem o neoliberalismo, o processo é um só.
Os clássicos regimes de direita do Século XX, o FASCISMO italiano e o NAZISMO alemão, eram completamente ESTATIZANTES e não regimes liberais de mercado. É da essência dos regimes de direita fortalecer, e não DESMONTAR o Estado como querem os neoliberais. São ideias contraditórias.
A Itália fascista tinha todos os grandes bancos como entes estatais, o ISTITUTO PER LA RECONSTRUZIONE INDUSTRIALE, o célebre IRI controlava 400 empresas, as ferrovias, os estaleiros, a eletricidade eram estatais assim como o grupo de armamentos ANSALDO, no Terceiro Reich a Hermann Goering Weke AG era a maior empresa da Alemanha, truste estatal de siderurgia, estaleiros e material bélico.
Já no Brasil de 1964, o regime militar criou ou manteve o aparato estatal que já vinha da Era Vargas, expandiu enormemente a PETROBRAS, a ELETROBRAS, criou a EMBRAER, a EMBRAPA, a petroquímica estatal, grandes siderúrgicas, a EMBRATEL, a TELEBRAS e mais de 110 novas estatais.
Poderiam contra-argumentar com o Chile de Pinochet e seus neoliberais de Chicago, mas é preciso conhecer a história completa e não apenas a mitologia, Allende estatizou 800 empresas, Pinochet na sua primeira fase desestatizou a maioria, era a fase Chicago que durou pouco. Com a queda do Ministro da Fazenda Sergio de Castro foram embora os “Chicago boys”, a grande estatal do Chile, a CODELCO, que explora a maior riqueza do País, o cobre, continuou estatal, a fase “Chicago” no regime Pinochet foi de curta duração.
Regimes de direita, para ter lógica interna, são necessariamente nacionalistas e estatizantes, é a sua legitimação histórica. Se foram “neoliberais” e “colaboracionistas” de outra potência, serão regimes fantoches, gendarmes ou capitães do mato de outros interesses ou potências, como foi o direitista regime de Vichy na França sob o jugo alemão, ente 1940 e 1944, ou pior ainda, o neofascismo como polícia do mercado financeiro.
O FASCISMO INVENTOU AS ESTATAIS
O conceito de empresa estatal é uma invenção do Fascismo. Antes do fascismo mussoliniano, o capitalismo se encarregava de construir ferrovias, portos, eletricidade, telefonia, siderurgia, os grandes grupos estavam no apogeu, Krupp, Thyssen, Siemens (Alemanha) Rockefeller, Carnegie, Morgan (EUA), Schneider. Wendel (França), Vickers Armstrong, Mond, Tate, Vestey (Inglaterra), Empain (Bélgica), Wallenberg (Suécia) Putiloff (Russia). No Brasil, o americano Percival Farqhuar implantava ferrovias, portos, bondes, energia elétrica, telefones, o Estado se limitava a defesa e justiça.
Na Itália empobrecida pela Grande Guerra e com indústria incipiente foi o Estado que bancou o desenvolvimento econômico e social pela criação de empresas estatais, um banco de fomento, o 1º do mundo, para o sul pobre, a CASSA PER IL MEZZOGIORNO, foi o Estado que desenvolveu a outrora paupérrima Itália, que por sua fraqueza econômica fez emigrar entre 1870 e 1914 cerca de 6 milhões de seus cidadãos.
A IMENSA CONTRADIÇÃO
É inconciliável o BOLSONARISMO com o NEOLIBERALISMO, ou manda um ou manda outro. Um regime de direita, abstraindo considerações morais, éticas e civilizatórias, só é operacional com um ESTADO FORTE e anti neoliberal, como Vargas entendeu perfeitamente com o Estado Novo, um regime de direita reproduzindo o Estado fascista italiano, chegando a flertar com o nazismo e que tratou antes de mais nada em fortalecer o Estado e não enfraquece-lo como pretende o plano Guedes de economia, um Estado Mínimo abrindo espaço para um mercado onipresente. NÃO DÁ CERTO. É uma combinação ideologicamente conflitante nas suas raízes.
Neoliberalismo hoje é um processo globalizante que independe de soberanias, ai está a OCDE, a ORGANIZAÇÃO PARA A COOPERAÇÃO E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, cúpula do globalismo mundial, cujo diretor geral é um mexicano, é uma entidade símbolo do ambientalismo e de causas universais onde não prevalecem as soberanias e sim o globalismo. O Brasil quer entrar? Que contradição, mais uma, a OCDE é contra os próprios fundamentos dos populismos de direita, ela é a catedral dos humanismos e da expressão civilizatória de um mundo sem fronteiras.
Estamos vivendo no Brasil em um mar de contradições políticas, sociais e históricas, que em algum momento terão que ser resolvidas.
AMA
Marcelo
2 de outubro de 2019 9:23 am“Regimes de direita, para ter lógica interna, são necessariamente nacionalistas e estatizantes, é a sua legitimação histórica. Se foram “neoliberais” e “colaboracionistas” de outra potência, serão regimes fantoches, gendarmes ou capitães do mato de outros interesses ou potências, como foi o direitista regime de Vichy na França sob o jugo alemão, ente 1940 e 1944, ou pior ainda, o neofascismo como polícia do mercado financeiro.”
Já li essa opinião que vou emitir em outros lugares aqui. Houve uma guerra Híbrida, o Brasil foi derrotado, e esse é um governo de ocupação.
Acho que é a verdade que pode se extrair desse texto.
Anônimo
2 de outubro de 2019 9:42 amE isso que vivemos é a primeira onda…
A segunda onda já está em gestação e virá a partir das religiões evangélicas!
Eles virão com a promessa de humanizar o bolsonarismo!
Em termos materiais, o Brasil tinha tudo para dar certo, mas no lado recursos humanos juntou a cobiça com a ignorância e deu nisso…
Anônimo
2 de outubro de 2019 10:42 amCaro André.
Muito bom o artigo e principalmente a frase de abertura, que apesar de ser um pequeno plágio de Lenin ela expressa extremamente bem a realidade, ou seja, o globalismo como a expansão dos oligopólios imperialistas que eram até 1945 centrados em nações passaram a não ter este centralismo, por isto a tua frase de abertura é corretíssima.
Porém há um erro histórico, que foi corrigido recentemente, sobre o estatismo dos governos fascistas. Um economista catalão, Germà Bel, escreveu dois artigos básicos um sobre a Itália fascista “From Public to Private: Privatization in 1920’s Fascist Italy” e outro sobre a Alemanha nazista “Against the mainstream: Nazi privatization in 1930s Germany” que desmontou esta verdadeira lenda sobre as estatizações destes dois regimes. Só para complementar na própria Biografia do Arquiteto de Hitler, Albert Speer, ele reclama quando assume o ministério do armamento em 8 de fevereiro de 1942 que a economia alemã estava menos voltada para a guerra do que a inglesa, inclusive e ressalta que as fábricas não trabalhavam em três turnos para não diminuir a lucratividade da indústria de armamentos.
Os governos fascistas foram os mais privatistas da Europa, isto Germà Bel prova fazendo uma análise contábil dos governos fascistas, e mostra que os déficits destes foram cobertos pelas maiores privatizações da história que só foram semelhantes no governo Pinochet. As pessoas confundem as ações públicas tomadas durante a guerra que na Alemanha se intensifica pós 1942 resultando num salto de produção de aviões, tanques e demais armamentos.
Logo a única crítica ao teu excelente artigo está na afirmação que os governos fascistas eram ESTATIZANTES e não regimes liberais de mercado. A imensa diferença era que os regimes fascistas eram privatistas para seus próprios capitalistas, ou seja, nada era vendido ao exterior.
Anônimo
2 de outubro de 2019 11:06 amResumo do artigo de Germà Bel “Against the mainstream: Nazi privatization in 1930s Germany”
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A Grande Depressão estimulou a propriedade do Estado nos países capitalistas ocidentais. A Alemanha não foi exceção, os últimos governos da República de Weimar assumiram empresas em diversos setores. Mais tarde, o regime nazista transferiu a propriedade pública e os serviços públicos para o setor privado. Ao fazer isso, eles foram contra as tendências dominantes nos países capitalistas ocidentais, nenhum dos quais reprivatizou sistematicamente as empresas durante os anos 30. A privatização na Alemanha nazista também foi única na transferência para mãos privadas da prestação de serviços públicos anteriormente prestados pelo governo. As empresas e os serviços transferidos para a propriedade privada pertenciam a diversos setores. A privatização fazia parte de uma política intencional com múltiplos objetivos e não era dirigida ideologicamente. Como em muitas privatizações recentes, particularmente na União Européia, fortes restrições financeiras foram uma motivação central. Além disso, a privatização foi usada como uma ferramenta política para aumentar o apoio ao governo e ao Partido Nazista. Privatização, Empresa Pública, Economia Nazista, Alemanha.
Maria Luisa
2 de outubro de 2019 1:12 pmEssas contradições todas em um so governo é possivel porque esse governo age contra os fatos. Isso ai não tem como da certo. Bolsonaro não caiu ainda porque a oposição não existe de fato.
Anônimo
2 de outubro de 2019 1:48 pmMinha Cara.
Oposição há, porém o que mais se vê são pessoas e grupos procurando confundir.
Adair A. Barros
2 de outubro de 2019 5:53 pmOposição com menos de 150 deputados, e uma quantidade ínfima no senado, e com a grande mídia contra, você queria o quê?
Marcelo
3 de outubro de 2019 11:18 amDetalhe que Boa parte desses 150 deputados ainda vota com o Governo. Vide o PDT
Emilio Galhardo Filho
2 de outubro de 2019 2:12 pmNa verdade, o nazismo foi privatizador em todos as áreas da economia.
http://www.ub.edu/graap/nazi.pdf
http://piketty.pse.ens.fr/files/capitalisback/CountryData/Germany/Other/Pre1950Series/RefsHistoricalGermanAccounts/BuchheimScherner06.pdf
“The Economist magazine introduced the term “privatization” (alternatively “privatisation” or “reprivatization” after the German Reprivatisierung) during the 1930s when it covered Nazi Germany’s economic policy.[3][4]”.
https://en.wikipedia.org/wiki/Privatization
Pedro Mundim
2 de outubro de 2019 3:44 pmHitler tinha boa relação com grandes empresários, mas deixou claro que quem mandava era ele. Os grandes industriais podiam continuar formalmente proprietários de sua indústrias, mas não podiam contrariar minimamente a política econômica do reich, ou iriam para a cadeia (vemos aqui uma simetria de espelho com o que ocorria na ex-URSS na mesma época, onde os comissários do partido podiam usufruir de um padrão de vida de burgueses, embora não fossem formalmente proprietários das indústrias que administravam).
Enfim, é isso: o fascismo inverte a relação entre Estado e burguesia que existe nos regimes liberais e conservadores: se naqueles a burguesia comanda o Estado, no fascismo é o Estado quem comanda a burguesia (na realidade o fascismo cria uma burguesia para uso próprio, seja favorecendo empresários amigos, seja enriquecendo seus acólitos, ao mesmo tempo em que persegue e expropria os burgueses não cooptados).
O regime atual que mais se assemelha ao fascismo original é o bolivarianismo venezuelano, calcado no antigo peronismo dos anos 40 (Perón foi um admirador declarado de Mussolini). Vemos aí numerosos pontos em comum: partido único (na prática), organizações de massa, milícias controladas pelo partido, ultranacionalismo, culto à personalidade (primeiro Bolívar depois Chávez, ironicamente Bolívar nunca foi um socialista), fabricação de um inimigo externo para desviar as atenções aos problemas internos, não eliminação do regime capitalista mas controle do Estado sobre a economia, e inclusive a criação da já citada burguesia para uso próprio (ali conhecida como boliburguesia).
Pedro Mundim
2 de outubro de 2019 3:25 pmExato. O regime atual só é “fascista” no sentido atual da palavra, reduzida a mero xingamento. O fascismo original é um regime de massas, ultranacionalista e belicista, que surgiu como contraponto ao comunismo, substituindo o internacionalismo operário pelo nacionalismo fundado na etnia e na raça, não abolindo o capitalismo mas colocando as relações trabalhistas sob a tutela do Estado, mas bastante semelhante em outros aspectos, como o unipartidarismo e a supressão do individualismo. Triunfou sobre o comunismo na Alemanha e na Itália porque fornecia uma alternativa mais fácil e empolgante aos trabalhadores, já que não previa e reconstrução total do sistema econômico e substituía a utopia irrealizável da supressão do Estado pelo fortalecimento de um Estado supostamente benigno.
O governo de Bolsonaro, de matiz liberal e privatizante, não só nada tem de fascista como sequer é compatível com o extinto regime militar de 1964, pelo qual o presidente nutre uma admiração pueril, já que ele próprio não participou deste governo porque não tinha idade.
Zé Sérgio
2 de outubro de 2019 5:22 pmEstado Ditatorial Caudilhista Esquerdopata Fascista. Bipolaridade tem cura? Quem afirmou que Bolsonaro/Guedes não são produtos destas 9 décadas que construímos? Vocês acham que saíram de onde? “… outrora paupérrima Itália, que por sua fraqueza econômica fez emigrar entre 1870 e 1914 cerca de 6 milhões de seus cidadãos…” Até 1929, estes Italianos imigravam para onde? Para a Nação que mais crescia no planeta. 1.a República. República Paulista. E os Alemães, lotando com sua miséria e fome, Navios Desesperados rumo ao Brasil? Fugiam do Nazismo e Fascismo. E o que este prospera e progressista Nação faz em 1930? Muda o rumo e avança em Fascismo e Atraso. E O Mundo atolado nesta nefasta realidade? Se vira e segue para o rumo onde Nós Brasileiros construíamos as estradas. E ainda hoje, queremos brigar com a realidade e a história?!! É Inacreditável !! É Surreal !!! Pobre país rico. Agora se humilha para Europeus? Mas de muito fácil explicação.
Cezarperin
2 de outubro de 2019 6:15 pmConcordo com quase tudo..mas dizer que VARGAS copiou tudo do facismo é exagero…VARGAS criou as estruturas básicas do BRASIl…http://ressurreicaonacionalista.blogspot.com/2011/05/new-deal-foi-inspirado-em-vargas.html
https://humbertocapellari.wordpress.com/2009/08/06/o-new-deal-foi-invencao-de-roosevelt-e-getulio-vargas-palavras-do-proprio-roosevelt/
Era um POSTIVISTA..mas seu filósofo preferido era Sain Simon
Renato
2 de outubro de 2019 7:18 pmSugiro ao autor da matéria que assista a série “Years and years” o da HBO, para melhor entender o atual estágio mundial de implantação do fascismo. Começa com o Trump nos EUA.
LF Pereira
2 de outubro de 2019 7:49 pmLembro que no passado, no governo FHC, houve uma grita em relação à ideia do nome Petrobrax. Era uma questão de marketing, imagem internacional. Motivo: o estrangeiro lê PETRÓBAS e se pretendia tornar o nome mais palátavel, simpático, pronunciável.Esbravejaram: era um disfarçado plano de futura privatização.
Quem gritou: o PT, toda a esquerda e todo o sindicalismo petroleiro que representa funcionarios que se julgam donos da empresa e temiam perder regalias.
Agora, vez em qdo aparecem insinuações de privatização no proprio governo DE DIREITA Bolsonaro. Quem grita? Os mesmos partidos da esquerda, os mesmos sindicatos e associações de funcionarios E pelo mesmo temor.
Houve estatizações de enorme sucesso e importancia desde o Governo Vargas e regime militar. Chega uma hora em que a missão está cumprida e é bom ponderar. É uma esperteza que vira bicho e engole o dono.