10 de junho de 2026

Ele e o livro, por Márcia Moussallem

“O saber encanta… é preciso se encantar pelo saber. Eu gosto de conhecer, fazer perguntas e refletir”.

do Observatório do 3º Setor

Ele e o livro

por Márcia Moussallem

A vida é realmente difícil e encantadora ao mesmo tempo. O cotidiano sempre é muito cheio de vida, quando nos deixamos levar sem pressa de tudo que nos rodeia. Paciência ao andar… ao olhar para o mundo que nos cerca de muitas surpresas.

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Tive a experiência dessa surpresa do mundo nos últimos dias, quando estava fazendo as minhas caminhadas no período da manhã. Sempre fico admirada com os gestos, expressões e sentimentos das pessoas. Mas, aquele homem, negro, de um pouco mais da meia idade, com seu carrinho de mão cheio de sacos e entulhos, de objetos diversos… mexeu com todos os sentimentos da minha alma.

Estava sentado na sombra de uma calçada, lendo um livro de maneira em que nada mais existia, somente ele e o seu livro. Parei, olhei e perguntei curiosa o que lia. Ele respondeu, mostrou a capa do seu livro e disse: “O saber encanta… é preciso se encantar pelo saber. Eu gosto de conhecer, fazer perguntas e refletir”. Quando escutei isso meu coração se encheu de lágrimas. Ele continuou: “Como ir embora desse mundo sem saber, sem conhecer as coisas… isso é um horror. Temos que conhecer… temos que ler… mas ler coisas importantes. Gosto muito de Platão, Aristóteles… já li toda a coleção dos clássicos”.

Inácio é o nome desse homem, que se encontra em situação de rua, que talvez em muitas noites sinta muito frio e fome, que não tem um cobertor e nem uma cama quentinha, que não tem uma família modelo padrão ocidental, o carro do ano e um salário maravilhoso. Nesse mundo medíocre, é considerado pelos cidadãos de bem um lixo, um vagabundo que merece ser exterminado dessa sociedade.

Inácio é um grande homem, sábio, inteligente, digno. É rico demais diante da grande miséria humana.  Um ser humano abandonado por um sistema excludente e cruel que forma inúmeros cadáveres individualistas, apáticos, consumistas e doentes, pois sempre estão em busca de ter mais, mais e muito mais, e não de ser mais.

Voltei para casa caminhando e olhando para aquele céu azul e sol forte com muitas lágrimas no rosto, com o coração cheio de tristeza, indignação e reflexão. E mais ainda com a imagem de cada rosto, com a certeza de que o nosso povo é lindo e merece uma vida justa e digna.

Mas como a história não é definitiva, seguimos na longa estrada olhando para frente e inspirados na esperança de que  vale a pena continuarmos a luta em defesa de muitos e muitos Inácios desse imenso Brasil.

Márcia Moussallem – É socióloga, assistente social, mestre e doutora em Serviço Social, Políticas Sociais e Movimentos Sociais pela PUC-SP. Tem MBA em Gestão para Organizações do Terceiro Setor. Professora da PUC-Cogeae/SP  e da FGV-Pec/SP. 

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