9 de junho de 2026

O assassino semeou pistas para ser descoberto, por Wilson Luiz Müller

De qualquer modo, apesar do sentimento de culpa,  que projetava na psique do assassino um clamor punitivo, tudo parecia correr a contento, não havendo motivos para alarde.

O assassino semeou pistas para ser descoberto 

por Wilson Luiz Müller

A decisão de matar a mulher que ele considerava um piolho estava tomada. O assassino elaborou um roteiro mental com todos os cuidados que deveria tomar para não ser descoberto. A arma, a roupa, o álibi, as pessoas que poderia encontrar na saída ou no retorno, tudo ele repassou inúmeras vezes em pensamento, a ponto de virar um filme que se reproduzia automaticamente. Enquanto premeditava, a cabeça rodava confusa. Tinha calafrios e sentia o corpo ardendo em febre, ameaça de eclosão de alguma estranha doença.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Morta a mulher-piolho, o assassino, delirante, eufórico, tremendo de febre e de medo, meteu-se na cama, cobriu-se até a cabeça e ficou deitado, imóvel, até o dia seguinte. Ainda sentado na cama, rememorou o seu feito. Não tinha saído tudo conforme planejado, mas o objetivo fora cumprido. O plano era matar apenas a mulher, mas na hora, para não deixar testemunhas, outra pessoa acabou sendo eliminada também. Paciência.

Passado o transe febril em que estava metido há algum tempo, o assassino tentou retomar a normalidade da sua vida. Porém, em quase todos os lugares, tinha a impressão de que as outras pessoas estavam sempre tratando de algum tema que remetia à morte da mulher. E por menos razoável que fosse, ele não se continha e entrava a discutir acaloradamente os diversos ângulos relacionados ao crime; ou então acabava endossando a tese de que nada se perdia com a morte da mulher-piolho. Esse comportamento público – diga-se de passagem – não lhe tinha serventia alguma, muito ao  contrário.

A maioria dos interlocutores do assassino discutia o assunto como se estivesse diante de uma tese acadêmica. A polícia tinha inclusive prendido um suspeito, o qual chegou a confirmar a autoria do assassinato, estória não levada a sério por ninguém do círculo íntimo do grupo de pessoas que se relacionavam com o verdadeiro assassino. De qualquer modo, apesar do sentimento de culpa,  que projetava na psique do assassino um clamor punitivo, tudo parecia correr a contento, não havendo motivos para alarde.

Um investigador, que participava desses saraus metafísicos, tinha grande conhecimento psicológico sobre o funcionamento de mentes psicopatas. Aproximou-se do assassino fazendo-o crer que admirava a sua inteligência desprovida de sentimentalismos baratos, que era aquele sentimento piegas de compaixão pelas pessoas tidas como inferiores. O assassino tinha pretensões literárias e publicava algumas de suas teses inovadoras. O investigador o estimulava a detalhar as premissas filosóficas dessas  teses. Sem se dar conta, o assassino foi revelando, por um processo mental inconsciente de auto-purgação, uma sequência de pistas que deram ao investigador a convicção de que estava mesmo diante do assassino da mulher.

O fato que tinha despertado a atenção inicial do investigador foi um texto  escrito pelo suspeito em que este afirmava que a certas pessoas era permitido não se deter diante de nada, porque elas estavam predestinadas a fazer coisas grandes; tudo lhes era permitido. O astuto investigador disse ao assassino, depois de descobrir a verdade: “um homem destes não se contenta com isso”. Ou seja, quem defendia que a morte de outrem era justificável para o bem maior do que se considerava portador de desígnios superiores, não iria se contentar apenas em falar; iria se sentir autorizado, ou melhor, compelido a realizar o seu pensamento.

Mais que isso não se deve falar, pois poderia estragar a fascinante leitura do romance do escritor russo Fiodor Dostoiévski, “Crime e Castigo”, no qual a trama, resenhada acima, é desenvolvida com a genialidade típica dos antigos escritores russos.

Wilson Luiz Müller – Membro do coletivo Auditores Fiscais pela Democracia

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

5 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. ARMANDO COELHO NETO

    7 de novembro de 2019 11:10 am

    Em tempos de mordaça iminente, o autor já está treinando entrelinhas, sutilezas, duplos sentidos e metáforas para o sarau metafísico por vir. O assassino deixou pistas, sim, por que além de tripudiar da vítima, quer também tripudiar de nós, como que a dizet: EU MATEI, E DAÍ?

  2. Anônimo

    7 de novembro de 2019 11:45 am

    Seria realmente inquietante, mas somente se soubesse que o mentor de determinado assassinato tinha lido “Crime e Castigo”, mas deste perigo o mentor assassino não morre.
    Caso Fiodor Dostoiévski tivesse criado uma situação em que o mentor se percebesse em inesperada situação de perigo, imediatamente teria criado uma personagem para carregar a culpa, quem sabe o charreteiro da região.

  3. Maria Luisa

    7 de novembro de 2019 11:50 am

    Otimo texto. Eh o mesmo sentimento que tenho diante do praticado com Marielle. Eles pensam que têm o direito sobre a vida e morte das outras pessoas e não devem ser responsabilizados. Eh natural matar o indesejavel.

  4. Marly

    7 de novembro de 2019 12:50 pm

    Excelente! Fiz há dia um relato metáfora para compartilhar aos meus contatos. Era de um suposto livro que Agatha Christie escreveria se viva fosse. Ao final, o detetive Ercole Poirot, desvendava o crime e absolvia o depoente que estava sendo acusado de injúria . A cena se passava num condominio luxuoso em uma cidade remota.

  5. Edivaldo Dias de Oliveira

    7 de novembro de 2019 1:30 pm

    A vida imita a arte ou é o inverso?
    É as duas coisas, depende do tempo e da ocasião.
    Tostoi, um conterraneo dele disse: “Se queres ser universal, comece pela sua aldeia”. E aí está Fiodor, universal e profético.
    Se não tivesse a revelação do último parágrafo eu teria dúvidas sobre quem era a Mulher-piolho referida.

Recomendados para você

Recomendados