3 de agosto de 2026

Do Baião de Tomás à Batucada da Vida, por Luís Nassif

No som, duas celebrações distintas da vida e da família, duas obras-primas separadas pelo tempo e unidas pela força da memória popular.
Elis Regina - Editora Leya - Reprodução

“Baião do Tomás” celebra o nascimento e a continuidade familiar em uma pequena cidade do interior paulista.
“Na Batucada da Vida” retrata o nascimento abandonado e a luta pela sobrevivência na cultura popular do samba.
As duas canções mostram contrastes do Brasil: a ternura da família e a dureza da vida nas ruas.

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Primeiro, a Bandeirantes. Depois, a estrada para Mogi Mirim, passando por Aguaí e São João da Boa Vista. De São João já se avista a serra que me levará a Poços de Caldas.

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No som, duas celebrações distintas da vida e da família, duas obras-primas separadas pelo tempo e unidas pela força da memória popular. A primeira, “Baião do Tomás”, de Luiz Tatit e Chico Saraiva, lançada por Tatit em 2005. A segunda, “Na Batucada da Vida”, samba-canção de Ary Barroso e Luiz Peixoto, gravado originalmente por Carmen Miranda em 1934 e retomado, décadas depois, por Elis Regina no disco de 1974.

Com Tomás, a celebração coletiva: os primos, os tios, os tios dos tios, os filhos das filhas, a cidade inteira vindo ver o menino que acaba de nascer.

Quando o filho do filho do pai / Nasceu tão bem / O avô que era pai do seu pai / Foi ver o neném / Ele viu que seu filho sorria / Isso já lhe agradou / Era o filho que o filho queria / E que agora chegou / Tinha um pouco do pai / E mais um pouco do avô

É uma pequena engenharia poética. Tatit brinca com a sintaxe familiar para mostrar como uma criança reorganiza todos os lugares da família. Não é apenas a chegada de um bebê. É a recomposição de uma árvore inteira: o pai vira pai de alguém, o avô se reconhece no neto, a mãe convoca sua própria mãe, e cada personagem encontra no recém-nascido uma continuação de si.

No outro extremo, “Na Batucada da Vida” apresenta o nascimento sem festa, sem família reunida, sem avô comovido diante do berço. É a criança largada à própria sorte, nascida não sob o signo da continuidade familiar, mas da sobrevivência.

Ali, a chegada ao mundo não é anunciada por parentes, mas pela rua. Há a porta dos enjeitados, o capacho, a cachaça, a pancadaria, o samba e a batucada.

A canção é de 1934, período em que o samba começava a deixar os espaços populares mais marginalizados para se converter em linguagem nacional. Carmen Miranda, ainda antes da consagração internacional, grava essa personagem feminina que nasce abandonada, cresce sem proteção e atravessa a vida entre a violência, a polícia, o desprezo e o canto. Quarenta anos depois, Elis Regina lhe daria outra densidade: menos brejeira, mais dramática, fazendo da personagem quase uma síntese das mulheres pobres empurradas para a rua e para a própria sorte.

É uma das mais fortes imagens da música brasileira: a infância como abandono e, ao mesmo tempo, como inscrição imediata no mundo popular. A tragédia individual se mistura à festa coletiva. A criança nasce ferida, mas nasce dentro do ritmo.

Em “Baião do Tomás”, a família se reconhece no recém-nascido. Em “Na Batucada da Vida”, a personagem nasce sem reconhecimento algum — e precisa arrancar da própria vida uma identidade.

Talvez seja essa a ponte entre as duas canções: ambas tratam do nascimento como destino. Em Tatit e Chico Saraiva, o destino vem embalado pela ternura da linhagem. Em Ary Barroso e Luiz Peixoto, vem marcado pela brutalidade social, mas também pela potência da cultura popular, capaz de transformar abandono em canto, pancadaria em ritmo, desamparo em batucada.

Na estrada para Poços, as duas músicas se alternam como dois retratos do Brasil. O Brasil da família que se prolonga nos filhos, nos netos, nos nomes repetidos. E o Brasil dos enjeitados, dos que chegaram sem convite, sem amparo, mas que acabaram inventando, no samba, uma forma de existir.

No fundo, talvez a batucada da vida seja isso: a capacidade brasileira de transformar a falta em linguagem, a dor em música, o abandono em presença. O país que celebra Tomás é o mesmo que abandona a menina no capacho. E a música brasileira, quando atinge seu ponto mais alto, é capaz de reunir os dois extremos: a ternura da casa e a pedagogia dura da rua.

“Na batucada da vida”:
Na porta dos enjeitados
Deitadinha no capacho
E fui adormecer como um despacho
Mamei um litro e meio de cachaça, bem puxados
Depois do meu batismo de fumaça
Em grossa pancadaria
Que acabou de madrugada
De noite teve samba e batucada
Juntou uma porção de vagabundo da orgia
No dia em que eu apareci no mundo

O baião de Tomás – Aqui estão os links para ouvir “Baião do Tomás”, de Luiz Tatit e Chico Saraiva, no Spotify:

Aqui estão algumas opções para ouvir “Na Batucada da Vida” no Spotify:

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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