Acabei de assistir, na Netflix, a excepcional série sobre a Copa do Mundo de 1970. É uma produção da Netflix e da O2 Filmes, com direção de Paulo e Pedro Morelli, e com Rodrigo Santoro como João Saldanha e Lucas Agrícola como Pelé.
A série retrata a alma brasileira e o futebol, o clima existente na época, os problemas enfrentados pela Seleção após a saída de João Saldanha. E, especialmente, o fantasma de 1950 rondando o vestiário da Seleção no dia do jogo contra o Uruguai.
Há uma reconstituição do clima que se abateu sobre o país com a derrota por 2 a 1 para o Uruguai, na final da Copa, em pleno Maracanã, o Maracanaço, como ficou conhecido. O Brasil tinha um time imensamente superior. Mas duas sequências desastradas da defesa brasileira selaram a derrota. O goleiro Barbosa foi crucificado. E consolidou-se o que Nelson Rodrigues batizou de complexo de vira-lata.
Com meus 8 anos, acompanhei o drama do Barbosa. Desde então, o ídolo caído tornou-se alvo da minha primeira grande solidariedade pelo drama vivido e por ser goleiro do Vasco da Gama, meu primeiro time no Rio de Janeiro. Às vezes, na hora de dormir, imaginava-me voando para o Rio em meu disco voador, para amparar Barbosa. Aliás, meu disco voador me conduziu, além de Barbosa, para Hollywood para trazer Kim Novak e Ava Gardner para uma aposentadoria digna em Poços de Caldas
Na Copa de 1970, assim como todo o país, amanheci com pesadelos em relação ao jogo. O filme reflete muito bem esse drama. Recorre até ao fantasma de Barbosa estimulando à revanche do goleiro Félix.
O que falhou foi na identificação do grande herói do jogo: Clodoaldo. Não apenas pelo primeiro gol, no final do segundo tempo. Mas, especialmente, pelo segundo gol do Brasil. Clodoaldo pegou a bola no meio campo, com uma vitalidade incomum, deu dribles em dois jogadores do Uruguai, passou a bola para Tostão, que esticou para Pelé, que deixou para Jairzinho.
Mesmo com o empate no primeiro tempo, entramos no segundo ainda intimidados pelo fantasma uruguaio. Foi quando Clodoaldo deu sequência a seus dribles, que dissolveu-se o medo e a Seleção voltou a brilhar.
Muito significativas as menções a Dondinho, pai de Pelé. Quando Pelé fez mil gols, a revista Veja me incumbiu de descer a Santos e passar uma semana levantando a vida de Pelé. Fui à casa de Dondinho e o entrevistei. Mas não lhe disse – porque ainda não sabia – que décadas atrás ele foi contratado pela Associação Atlética Caldense por seu diretor de futebol, Oscar Nassif.
Muitos anos depois meu pai me contou. Disse que Dondinho era grande cabeceador. E, há alguns anos, recebi de presente a charge guardada na Caldense, celebrando a contratação de Dondinho. Seu Oscar é o de bigodinho.
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