Conheci João Bosco de um modo bastante singular.
Em 1972, O Pasquim anunciou a parceria de Aldir Blanc com um compositor mineiro que jamais havia gravado. A ideia, concebida por Sérgio Ricardo, era brilhante: um compacto simples encartado no jornal, reunindo, de um lado, um artista consagrado; do outro, um estreante promissor.
No lado A estava Tom Jobim, com a primeira gravação de “Águas de Março”. No lado B, “Agnus Sei”, de João Bosco e Aldir Blanc.
Aquele compacto realizou dois feitos históricos. Apresentou ao público a primeira gravação de uma música que se tornaria um dos maiores clássicos da canção brasileira e lançou um compositor até então desconhecido, destinado a ocupar um lugar permanente na história da MPB.
No Bachianinha, nosso boteco de estimação em Poços de Caldas, anunciamos a descoberta aos amigos. Foi quando Nilton Moraes, que estudava em Ouro Preto, cortou nosso entusiasmo:
— Conheço esse João Bosco. É um chato.
Como assim?
Nilton explicou. Sempre que Vinicius de Moraes aparecia em Ouro Preto reunia os estudantes em algum botequim. Comprava duas garrafas de uísque: uma para os alunos, outra para si. Havia sempre dois violonistas na roda. Um atendia aos pedidos da turma. O outro insistia em tocar apenas suas próprias composições.
Era João Bosco.
Durante anos não deixamos Nilton esquecer aquela definição. Só o perdoamos quando desapareceu da cidade, depois de participar do último assalto político a um banco.
Enquanto isso, João Bosco passava a integrar nosso altar particular de ídolos. Primeiro vinham os fundadores: João Gilberto, Vinicius, Tom Jobim, Carlos Lyra, Roberto Menescal. Depois, a primeira geração da MPB: Edu Lobo, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento. Em seguida, a segunda geração: Ivan Lins, Djavan, o Clube da Esquina e João Bosco.
Passei a acompanhar cada lançamento. Vieram “O Mestre-Sala dos Mares”, “Kid Cavaquinho”, “De Frente pro Crime”, “O Bêbado e a Equilibrista”. Cada disco parecia ampliar ainda mais o universo daquele compositor.
Lembro-me de uma discussão na Veja. Uma colega assumira provisoriamente a editoria de Música e escreveu que “De Frente pro Crime” era pobre musicalmente porque se apoiava em poucos acordes. Não resisti. Expliquei-lhe que a genialidade estava justamente ali. A repetição criava uma espiral hipnótica, girando sobre si mesma como uma roda de capoeira, sustentando a narrativa extraordinária de Aldir Blanc. A economia harmônica era parte da invenção.
Ao longo dos anos trabalhei em diversos veículos, escrevi muitas crônicas musicais, mas convivi pouco com João Bosco. Recordo apenas uma noite no Alemão, quando minha amiga Ângela Ziraldo insistia para que eu lhe mostrasse algumas composições minhas. Recusei. Sabia muito bem a distância que separava um cronista curioso de um criador daquela estatura.
Com Aldir Blanc a relação acabou sendo mais próxima. Ainda procuro em meus arquivos um e-mail que ele me enviou depois de ler um artigo que publiquei na Folha, quando morreu Raphael Rabello. Escreveu dizendo que, quando chegasse sua vez, gostaria de receber homenagem semelhante. Anos depois convidou-me para escrever o texto da contracapa do CD comemorativo de seus cinquenta anos de carreira.
Com João Bosco ficou apenas a admiração silenciosa.
Era um violão como nunca se ouvira no Brasil. Nele pareciam ressoar, ao mesmo tempo, os tambores de Minas, o barroco das igrejas, o choro, o samba, a música africana e a arquitetura do contraponto de Bach.
João começou tocando de ouvido, influenciado pelo pai e pelo avô, em Ponte Nova. Mais tarde estudou violão clássico, passando pelo método de Villa-Lobos e mergulhando na obra de Bach. Deste herdou o contraponto, a independência das vozes e a ideia de que o violão pode conter uma pequena orquestra. De Dilermando Reis assimilou a elegância da tradição brasileira filtrada pela técnica erudita.
Sua mão direita tornou-se um caso de estudo. O polegar desenha um baixo permanente, quase como um surdo de escola de samba. Indicador, médio e anelar constroem melodias e harmonias independentes. Tudo acontece simultaneamente, como se três músicos diferentes ocupassem o mesmo instrumento.
Mas João Bosco costuma dizer que o segredo não está na técnica. Antes de localizar uma melodia no braço do violão, canta-a ritmicamente. O ritmo vem antes da harmonia. Primeiro nasce o corpo da música; depois, as notas encontram seu lugar.
Talvez esteja aí o mistério de sua obra.
Não é apenas um virtuose. Não é apenas um compositor excepcional. Não é apenas um violonista capaz de ser colocado ao lado dos maiores.
O que faz de João Bosco um artista singular é ter colocado uma técnica extraordinária a serviço da alma brasileira. Seu violão nunca soa como demonstração de habilidade. Soa como memória, como história. como o Brasil falando por cordas de aço.
De João Bosco
Que texto lindo, Nassif .
Se um dia eu cair em algum abismo que seja Abismo de rosas do violão de Dilermando.
Se eu morrer nessa queda que seja Na cadência bonita do samba.
Se os sinos tocarem , que sejam Sons de Carrilhões. Se algum jornal publicar meu obituário quero que seja um release como esse que você escreveu. Tal qual você escreveu pro meu amigo Rafael. Tal qual você escreveria pro meu irmão Aldir. Quero um texto seu feito só pra mim.
Obrigado amigo querido.
Esqueci de comentar um dia desses pra você que assisti um show do Anisio Silva no cinema vitória em Ponte Nova naqueles anos 60. A minha preferida era Interesseira…
Abração
Tadeu Silva
19 de julho de 2026 9:54 pmO quê?
Nelson Viana dos Santos
20 de julho de 2026 6:31 amUm texto muto lindo. Nassif conseguiu explicar, colocar em palavras, aquilo que a gente sempre sentiu ouvindo as músicas desse artista extraordinário. Aldir, gênio, foi parceiro de outros compositores excelentes, mas a parceria com João Bosco ficará marcada para sempre na história da música popular brasileira como algo único. Em tempos de lavagem cerebral da mídia por causa do copa do mundo, é sempre oportuno lembrar que o melhor do Brasil é sua música. Oitenta anos de idade…obrigado João Bosco, vida longa e muita saúde!
João de Deus
20 de julho de 2026 8:27 amJoão é gênio indiscutível. Pena que, diante da polêmica em torno de “Gol anulado”, não teve a grandeza do Chico ao abrir mão de cantar “Com açúcar, com afeto”. Seria tão mais fácil dizer que não canta mais a música. Até por se tratar de uma obra menor, muito longe de figurar entre suas melhores. Como no caso do Chico.