25 de julho de 2026

Dilma Rousseff e a casa da sua infância, por Luís Nassif

Do Ministério das Minas e Energia ao segundo mandato na Presidência: a força e a teimosia de uma mulher extraordinária.
Dilma Rousseff - 43 anos do PT - Foto de Alessandro Dantas

Dilma assumiu o Ministério de Minas e Energia, enfrentou conflitos e reorganizou o setor após apagão causado por erros anteriores.
Durante seu governo, Dilma focou em ampliar industrialização, infraestrutura e políticas de inovação, mas enfrentou críticas por centralização e decisões econômicas.
Em 2013, alertas sobre queda de popularidade e isolamento político aumentaram; seu governo reagiu com medidas fiscais que agravaram a crise econômica.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Conheci Dilma Rousseff logo que assumiu o Ministério de Minas e Energia. Criou-se de imediato um conflito entre ela e alguns acadêmicos que haviam assumido cargos de peso no setor. Desde o início, Dilma demonstrava segurança e conhecimentos melhores.

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Pegou o setor desarrumado pelos erros de FHC que levaram ao apagão. Montou um grupo de trabalho que delineou algumas propostas em cima de dois objetivos centrais: aumentar a oferta e buscar a modicidade tarifária.

Na ocasião, organizei um seminário dentro do Projeto Brasil. De manhã, juntamos representantes de geradores, distribuidores, transmissores, grandes consumidores e entidades de defesa do consumidor em quatro mesas. Cada qual apresentava, primeiro, todas as inconsistências existentes no plano. Depois, rodava-se, com cada grupo pegando o diagnóstico do grupo anterior e apresentando sugestões.

À tarde houve o seminário maior, com a presença de Dilma, de Maurício Tolmasquim e de Graça Foster. Foram lidos os relatórios. Dilma questionou, esbravejou, argumentou.

Depois, voltou para Brasília. Um mês depois anunciou seu novo plano, incorporando as boas sugestões recebidas, ignorando as irrelevantes ou tendenciosas. Saiu um plano redondo, de um modelo complexo, mas unanimemente elogiado pelo setor.

Mostrou um ótimo discernimento. Anos depois, soube que assim que chegou a Brasília mandou demitir todo o grupo de trabalho anterior e nomeou outro.

Dali para frente, passamos a ter encontros frequentes. Quando foi indicada Ministra-Chefe da Casa Civil, toda vez que ia a Brasília e pedia uma entrevista, ela marcava no final do expediente. Meia hora para discutir o PAC e outros projetos. O restante, para falar de… tias mineiras. Isso.

Nas conversas sobre o PAC, ela mostrava os gráficos, os sistemas de acompanhamento, a maneira republicana com que se desenvolviam as parcerias com estados e municípios, independentemente do partido do governante.

Na época, minhas crônicas de domingo eram memorialísticas, falando de um tempo e uma região que lhe trazia lembranças afetivas da infância e adolescência, antes de ingressar na luta. Chegamos até a lembrar dos bailinhos de Aguaí, cidade que ela frequentava na adolescência, na casa de uma tia, e de bailinhos em que toquei algumas vezes, a convite do meu amigo João Kleber.

Essa era a Dilma verdadeira, desarmada, sem as armaduras que ela vestia quando tinha que assumir as responsabilidades inerentes ao poder.

Quando terminei meu livro “A Casa da Minha Infância”, meu mergulho mais profundo nas lembranças de infância e adolescência que carregamos vida afora, tive um encontro com ela no escritório da Petrobras, na Paulista.

Entreguei o livro, ela viu a capa e começou a folheá-lo sem parar, emocionada. Comentei com ela que, desde que saímos de Poços e meu pai vendeu a casa de família, nunca mais me senti em casa, nas diversas casas em que morei.

Seus olhos umedeceram, e me disse:

— Eu também.

Dias depois, soube que ela tinha acabado de sair do check up do Sírio Libanês, que a diagnosticou com câncer. Tinha sido essa a razão da sensibilidade à flor da pele.

Ali pude vislumbrar a verdadeira Dilma, a mineira sensível, de família que abdicou da vida pessoal, familiar, da proximidade com a mãe, as tias mineiras, por uma vocação superior, pelo Brasil.

Em uma de suas vindas para tratamento em São Paulo, me recebeu em um hotel no Itaim para falar da Lei do Petróleo. Contava em primeira mão como cada peça foi montada, a ideia dos royalties para educação, a importância da Petrobras como operadora única, a política de conteúdo nacional. E falava do país no futuro, sendo o líder da tecnologia de águas profundas, com sua indústria petrolífera, de máquinas e equipamentos, os fabricantes de plataformas, e o dinheiro jorrando na educação.

A cada passo sondava as reações que seu relato provocava. Naquele dia, não houve tempo para as recordações mineiras. E a conversa foi tão entusiasmante que deixei dez convidados do sarau na porta do prédio me esperando.

Depois, vieram as eleições. Dilma, eleita, me convidou para um café da manhã no Alvorada. Estava eufórica com os desafios, discorreu longamente sobre sua vitrine social, o Plano Brasil Carinhoso, um marco nas políticas sociais mundiais, na opinião insuspeita de Ricardo Paes de Barros, nosso maior especialista.

Tinha acabado de se tornar avó. Levei para ela um CD de cantigas infantis de Villa-Lobos e outro do Madrigal Renascentista, que marcou a vida da juventude mineira nos anos 60. Reagiu emocionada.

Dilma iniciou o governo com dois focos centrais: ampliar a industrialização com o PAC e o pré-sal, avançar mais ainda na infraestrutura com o PAC e investir pesadamente em políticas de inovação.

Seus dois primeiros anos foram um marco na história do país, especialmente quando decidiu acoplar as políticas macroeconômicas ao projeto de país, reduzindo gradativamente a taxa Selic e os spreads bancários.

Gradativamente começou a ocorrer uma movimentação do mercado, preparando-se para sair da renda fixa para a renda variável, os projetos de longo prazo na infraestrutura. Apenas na indústria de fundos de pensão, a redução gradativa da dívida pública, desde 2003, liberaria R$ 50 bilhões apenas pela não renovação dos títulos públicos.

O mercado apostou maciçamente nos novos tempos, com consultores, gestores de fundos públicos, privados e familiares, aceitando o novo normal do país, a busca dos investimentos de longo prazo.

Em fins de 2012, sabe-se lá por que razões, Dilma inverteu a mão. A Selic voltou a subir, pegando no contrapé todos os gestores que haviam bancado a aposta anterior. Reside aí o ódio desenvolvido pelo mercado financeiro contra Dilma.

Ao mesmo tempo, começaram a pulular sinais de um governo paralisado. O estilo centralizador de Dilma começou a mostrar seus inconvenientes. No começo, com poucos focos, Dilma conseguia controlar a máquina. Em uma das primeiras reuniões de Ministérios e bancos públicos, cada convidado tinha à sua frente um computador com uma apresentação minuciosa dos planos de Dilma.

À medida que o tempo avançava, mais temas pululavam à sua frente, mas Dilma se enredava na utopia do controle absoluto, centralizador, com uma desconfiança acentuada das intenções e da competência dos autores. Criou-se a imagem do “espancamento” de projetos, uma sessão em que Dilma crivava o autor da sugestão com toda sorte de perguntas que, se não fossem respondidas, resultavam na desmoralização completa do plano e do autor.

Fora do governo, multiplicavam-se as queixas contra o espírito centralizador de Dilma.

No primeiro semestre de 2013, com Dilma ainda ostentando níveis recordes de popularidade, passei a alertar para a virada iminente do jogo.

A mídia não é ator principal na formação da reputação. Ela é pró-cíclica. Isto é, se há sinais de reversão da popularidade (ou impopularidade), ela atua provocando o chamado “overshooting”, isto é, ampliando radicalmente esses movimentos.

Dilma estava prestes a lançar o Plano Brasil Maior, que injetaria um novo alento no setor de TI (Tecnologia da Informação). Conversando com lideranças do setor, elas estavam iradas com o fato de que o Plano estava mais de dez meses atrasado, parado no Palácio para revisão pessoal por Dilma.

Peça central do plano, a Finep penava com cargos de diretoria vagos, devido à demora de Dilma em assinar a substituição. No Judiciário, desembargadores do TRF3 (Tribunal Regional Federal) estavam indignados com o que consideravam desrespeito com a Justiça, pela demora em assinar a nomeação de quatro ou cinco desembargadores. Foi preciso uma viagem de Dilma para que o vice Michel Temer assinasse — e sofresse críticas do Estadão, insinuando barganhas.

Na área de direitos humanos, o grupo de educação inclusiva mostrou-se indignado com a decisão de Dilma de pressionar senadores para flexibilizar a Meta 4 do PNE (Plano Nacional de Educação), sobre educação inclusiva, abrindo espaço para a ação deletéria das APAEs, para atender aos interesses de sua Ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, candidata ao governo do Paraná.

Além disso, havia sinais nítidos de falta de critério de Dilma na escolha dos assessores, ou na colocação de pessoas certas em lugares errados. Senadora corajosa e inteligente, Gleisi não tinha dimensão para tocar a Casa Civil. Perdeu-se uma brilhante senadora em troca de uma ministra inexperiente. E no Tesouro colocou um técnico que não tinha dimensão sequer para secretariar o governo gaúcho.

Do mesmo modo, o estilo Ideli Salvatti nada tinha a ver com a função de coordenação política. Foi por breve tempo uma eficiente Secretária de Direitos Humanos.

Mas nada se equiparava à manutenção de seu homem forte, o Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo. E, especialmente, o duo econômico, Guido Mantega, na Fazenda, e Arno Augustin, na Secretaria do Tesouro Nacional.

Na ocasião, um emérito político gaúcho agradeceu-me as críticas que eu fazia a Dilma. Qualquer companheiro que ousasse criticá-la estava sujeito a brigas e rompimentos pessoais.

A formação de imagem do governante, ainda mais em organizações complexas — como o próprio Estado brasileiro —, se dá pela soma de avaliações objetivas de pessoas que tratam diretamente com eles. Estava nítido, para mim, que na hora em que se ampliassem as avaliações sobre Dilma, haveria uma queda brutal nos seus índices de aprovação. E tinham-se todos os ingredientes à mesa. Bastaria um evento qualquer para desmoronar sua imagem.

Devido às críticas, Dilma me convidou para uma conversa em “off” — que acabou saindo, parte dela em “on”, devidamente autorizado por ela.

Na conversa, disse-lhe da minha apreensão com a futura queda de sua popularidade. Contei-lhe que o novo fórum de embates políticos eram as redes sociais, que havia uma jovem militância animada, mas abandonada pela presidente, sem bandeiras legitimadoras para levantar. Dilma, de fato, tinha aberto mão de qualquer tentativa de levantar bandeiras políticas e sociais. Disse-lhe da importância de montar uma rede pública para captar as demandas da sociedade, oportunidade aberta, inclusive, pela constatação do uso das redes sociais e de telefonia pela espionagem americana.

Da conversa chegou a nascer uma iniciativa interna de montagem de uma rede social. A ideia foi abandonada alguns meses depois, caracterizando uma constante no governo Dilma: os programas cancelados por falta de acompanhamento da presidente e de sua dificuldade em delegar. Faltava a Dilma uma Ministra-Chefe da Casa Civil, como ela foi com Lula.

Na conversa, uma necessidade constante de se explicar, de mostrar que não errou. Explicou que a alta da Selic se deveu à previsão de alta nas taxas de juros do FED. E que, aumentando antecipadamente a Selic, evitaria a fuga de dólares. Tentei mostrar que não fazia sentido, que a alta dos juros dos EUA, quando viesse, seria cautelosa, devido às implicações sobre a economia mundial. E muito mais prudente seria esperar a alta para depois reagir. Pouco adiantou. Ela tinha na ponta da língua a explicação técnica para a elevação da Selic e dali não arredaria pé.

Fui franco em prever a queda na popularidade. Mas nada que se aproximasse da previsão do que ocorreria dois meses depois, nas manifestações de junho de 2013. Falei-lhe da necessidade de capturar os sons das redes, montando uma rede social própria que acolhesse as sugestões dos usuários — algo que Barack Obama faria algum tempo depois. O momento era oportuno, pois logo após as revelações da espionagem americana sobre a própria presidente.

Nos dias seguintes, Dilma encomendou a rede para Valdir Simão, assessor especial da Presidência e com fama de ser o melhor gestor público. Mas, alguns meses depois, Simão recebeu outra incumbência e a ideia murchou, como todos os projetos que Dilma abandonava.

No fundo, o que levou a esse desequilíbrio foi a queda nos preços das commodities, mostrando que o longo ciclo de alta, que garantia espaço no orçamento, tinha chegado ao fim.

Os movimentos de junho, de certa forma, foram um presente para Dilma, o alerta necessário para que promovesse o aggiornamento, que se abrisse para o mundo real, movimentos populares, associações empresariais, sociedade civil.

Aparentemente Dilma não entendeu os sinais.

Fechou-se ainda mais, tanto para o meio externo quanto em seu próprio governo. A inflexão na Selic, o aperto no crédito vieram se somar aos efeitos da crise internacional, derrubando as cotações de commodities.

Persisti nas críticas e os contatos acabaram. O último encontro foi um convite para assistir ao filme “A Noite que Durou 25 Anos”, documentário sobre a queda de Jango, em uma sessão no Palácio do Alvorada.

Lá, Dilma reuniu cerca de 15 pessoas, entre assessores próximos e jornalistas. Saiu do filme emocionada.

— No comício da Central, Jango estava cercado de pessoas e não tinha a menor ideia de como estava sozinho.

Olhei para a presidente e aí, sim, foi possível entender o isolamento com que Brasília enreda os seus. Dilma não tinha a menor ideia sobre o isolamento de seu governo.

O governo Dilma tornou-se um barco que, atingido por uma onda, começa a balançar cada vez mais. Com o câmbio contido, a queda do mercado interno se somou a um aumento cada vez maior da penetração de produtos importados. Para não mexer no câmbio e nos juros, Dilma começou a recorrer cada vez mais às gambiarras.

Na época, o então Ministro do Desenvolvimento Fernando Pimentel sugeriu isenção das contribuições previdenciárias sobre a folha para setores mais diretamente afetados pela competição externa.

O que era para ser seletivo tornou-se generalizado. A cada sinal negativo da economia, Guido Mantega convocava uma entrevista, anunciava um novo benefício na folha e uma nova projeção otimista que era derrubada pelos dados a seguir. Tornou-se quase um governo pavloviano, reagindo por reflexo às más notícias que iam se acumulando. O governo ia se fechando cada vez mais aos movimentos sociais e empresariais.

Dilma fechou-se completamente a qualquer crítica ou conselho externo. Entrou em uma corrida sôfrega de distribuir isenções fiscais para setores cada vez mais amplos, e sem nenhuma ameaça externa.

Cavava-se um buraco enorme.

Há muitos anos havia uma discussão sobre a melhor maneira de financiar a Previdência: se com desconto em folha, se com um percentual da receita. O desconto em folha penalizava o emprego e beneficiava os setores intensivos em automação. Só que a mudança para a cobrança sobre faturamento teria que ser precedida de estudos aprofundados, inclusive para calcular qual alíquota seria suficiente para garantir a mesma arrecadação do desconto em folha.

O programa de subsídios, no entanto, era uma improvisação ampla. Definiam-se os setores beneficiados e as empresas poderiam optar por um sistema ou outro. Em qualquer hipótese, a empresa iria optar obviamente pelo sistema que arrecadasse menos.

No entanto, Dilma acionava o Secretário do Tesouro Arno Augustin, que apresentava contas mostrando a solvabilidade do modelo. Os estudos dos técnicos do Tesouro, com conclusões contrárias, não eram divulgados. Ali se abriu a boca do jacaré entre receitas e despesas.

Em meados de 2014, ainda se tentou revascularizar o governo através da assinatura do decreto de lei regulamentando as diversas formas de participação popular no governo, criadas pela Constituição de 1988.

A maneira como ocorreu era sintomática da resistência de Dilma a qualquer forma de arejamento do seu governo. Antes do anúncio, escrevi um conjunto de artigos sobre o fechamento do governo. No final do governo Lula, parecia irreversível o modelo de governar abrindo-se para a sociedade, do CDES aos conselhos empresariais e aos movimentos sociais. Na era das redes sociais, da participação direta, não haveria outra forma de governar.

Um dia recebo telefonema de Gilberto Carvalho, a mente mais lúcida do governo, cuidando de uma secretaria da presidência. Vou ao Palácio e lá ele me mostra o decreto que estava prestes a ser assinado. Ora, era tudo aquilo que a gente defendia, o modo moderno de governar.

Foi realizada uma entrevista coletiva com blogueiros. Na saída do encontro, Carvalho me chamou de lado e me fez uma confissão surpreendente:

— Sou eternamente grato pelo que você fez.

— E o que eu fiz?

— As críticas contra os fechamentos das consultas populares no governo.

Foram as críticas que demoveram Dilma de sua teimosia em assinar um decreto que poderia ter sido essencial para a revitalização do governo.

O decreto foi soterrado por uma avalanche de críticas imbecis da mídia, taxando-o de bolivariano, cubano, castrista e outras ilações conspiratórias. Dilma resistiu, assinou, mas o decreto não saiu do papel, e Gilberto Carvalho saiu do governo.

Com as eleições, supunha-se que Dilma tivesse feito uma imersão em política e saísse renovada. As eleições foram decididas no segundo turno. Pesaram na vitória de Dilma o exército de trogloditas que passou a apoiar Aécio, as vociferações contra os avanços sociais e a percepção de que, se com Dilma havia uma paralisação dos avanços sociais, com Aécio haveria um enorme retrocesso.

Dilma participou de eventos públicos e tomou banho de povo. Nesse ínterim, o CGEE (Centro de Gestão e Estudos Estratégicos) elaborara um minucioso plano de governo abordando todos os aspectos essenciais para uma política pública integrada. Supunha-se que, no dia seguinte à proclamação da vitória, Dilma pudesse sair andando, preparando as bases do segundo governo.

Por aqueles dias, entrei em contato com alguns interlocutores dela, para entender seu estado de espírito. Alguns deles passaram a impressão ligeira, sem muita convicção, de que ela teria captado a voz das ruas, entendido que sua vitória se devera à tomada de posição de setores modernos da sociedade.

Outros sustentavam que Dilma saíra da campanha convicta de que foi uma vitória pessoal sua, quando decidiu partir para o ataque contra Aécio.

Marquei um almoço com o marqueteiro João Santana para tirar as dúvidas. De fato, Dilma tomara uma imersão de povo. Mas estava certa de que a vitória se devia às suas decisões pessoais.

Estava testado ali o ovo da serpente que levaria aos desastres posteriores.

Qualquer analista minimamente antenado com o quadro político sabia que o terceiro turno se iniciaria no dia seguinte ao da proclamação dos resultados. E sabia também dos problemas enfrentados pela economia, embora poucos previssem o tamanho do estrago nas contas fiscais com a queda imprevista do nível de atividade econômica.

Não faltaram ideias para Dilma. De minha parte, sugeri que ela definitivamente marcasse um reencontro com a sociedade civil, fazendo algo similar ao que Fernando Collor produziu no Bolo de Noiva: a convocação de todos os segmentos sociais e econômicos para uma grande discussão sobre o Brasil, da qual se tirariam os pontos centrais a serem implementados no segundo governo.

Nos meses seguintes, Dilma sumiu de cena. Não apareceu para agradecer a seus eleitores, para informar sobre os próximos passos. Limitou-se a cuidar de si, com uma imersão em um programa de emagrecimento e a saborear a vitória.

Assumindo, rendeu-se à enorme pressão do mercado. Colocou Joaquim Levy no Ministério da Fazenda e sancionou o mais desastroso plano econômico da história — depois do pacote de Delfim Neto em 1980.

A economia estava em plena queda. Comércio e indústria acumulavam estoques, famílias acumulavam endividamento. O caminho lógico seria um processo gradativo de transição para uma etapa mais moderada, permitindo às empresas reduzirem estoques e às famílias reduzirem endividamento.

Em vez disso, ouviu-se o mercado. Primeiro, um choque cambial e de tarifas, uma restrição maluca ao crédito. Certa vez fui a Brasília e um dos ministros me expôs a crença interna. Com o pacote, a curva longa de juros começaria a cair. Quando estivesse mais baixa, haveria uma invasão de investimentos financeiros, externos e internos, que relançaria a economia.

Mas deixa a imagem indelével de pessoa pública das maiores que o país encontrou e de personagem essencial para resolver a crise das elétricas e para garantir o sucesso do governo Lula 2.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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