12 de julho de 2026

Plano Real e a crônica de um desastre anunciado, por Luís Nassif

Havia pouco conhecimento da economia real entre os formuladores do plano. E foi isso que os impediu de perceber o maremoto que se aproximava.
Divulgação Fundação FHC

O Plano Real reduziu a inflação e ampliou o consumo, mas a economia real foi pouco considerada na formulação do plano.
Choque de juros elevado para conter a pressão cambial causou endividamento e crise no setor produtivo e nas famílias.
Críticas à política de juros foram ignoradas até o governo admitir o erro e reconhecer a crise em meados de 1995.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Toda política econômica nasce de uma hipótese: uma teoria sobre como empresas, consumidores, bancos e governos reagirão a determinados estímulos. O problema começa quando a hipótese se transforma em dogma. Se a teoria prevê que o empresário reagirá de uma forma, mas ele reage de outra, não é a realidade que está errada. É a teoria que precisa ser revista.

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Foi esse o ponto cego do Plano Real. A mudança de moeda e a âncora cambial produziram, de saída, um resultado extraordinário: a inflação caiu e milhões de pessoas, antes confinadas ao purgatório do subconsumo, ascenderam de repente ao mercado. A estabilização teve um efeito social imediato, visível nas ruas, nos supermercados, nas lojas do interior. O país que sobrevivia fazendo conta contra a inflação descobriu, de um mês para o outro, a possibilidade de consumir.

Mas esse salto trouxe uma pressão que os economistas tentaram administrar segurando o câmbio e estimulando as importações. Havia, porém, uma defasagem inevitável entre a abertura do mercado e a chegada efetiva dos produtos importados. Não bastava abrir a porteira: era preciso montar canais de distribuição, redes de fornecedores, estoques, logística, financiamento.

Na época, escrevi sobre essa defasagem. Recebi então um telefonema de José Serra, ministro do Planejamento, querendo saber como eu tomara conhecimento dos trabalhos de Paul Krugman, que tratavam justamente desse intervalo entre abertura comercial e entrada de importados. Expliquei que a informação não viera de paper acadêmico. Viera da economia real: em uma palestra para um grupo atacadista de Uberaba, empresários me explicaram como estavam se preparando para trazer produtos de fora e quanto tempo aquilo levaria.

Esse era o ponto central. Havia pouco conhecimento da economia real entre os formuladores do plano. E foi esse desconhecimento que os impediu de perceber o maremoto que se aproximava.

Com o fim da inflação, as empresas aumentaram estoques de forma desmedida. As famílias se endividaram. O consumo explodiu antes que a oferta importada se organizasse. Quando ficou claro que o movimento poderia pressionar preços e contas externas, a resposta correta teria sido uma redução gradual dos juros, permitindo que empresas e famílias renegociassem suas dívidas e voltassem a um patamar sustentável.

O caminho escolhido foi o oposto. Diante de uma corrida contra o Real, Pérsio Arida promoveu um choque de juros. Em outros países submetidos a ataques cambiais, a defesa também passava por uma alta de juros — mas seguida de uma redução rápida, para impedir que a medida contaminasse as contas públicas, as empresas e todo o tecido econômico.

No Brasil, o choque virou rotina.

Logo após a medida, Pérsio encontrou-se com o banqueiro Fernão Bracher em sua fazenda. O episódio virou escândalo na imprensa. A meu ver, era uma leitura torta: se o objetivo fosse trocar informações sigilosas, haveria telefones e escritórios na avenida Paulista. Não se escolheria uma fazenda no interior de São Paulo. Mas o desgaste político foi suficiente para derrubá-lo.

Em seu lugar entrou Gustavo Loyola, um burocrata do Banco do Brasil, com pouco conhecimento da economia real. Sua postura foi manter indefinidamente as taxas estratosféricas. Bastaria um mínimo de familiaridade com a vida das empresas, das prefeituras e das famílias para prever o desastre que se seguiria.

Lembro-me de uma entrevista, no primeiro semestre de 1995, com o governador mineiro Eduardo Azeredo, na rádio Bandeirantes. Azeredo mencionou o aumento concedido à Polícia Militar e a expansão de gastos em diversos setores. Perguntei se não temia uma reversão da economia. Respondeu que não. Apresentou números de crescimento do ICMS no ano anterior e garantiu que, segundo a MBA, consultoria econômica, aquele crescimento se repetiria. Alertei para o risco de a economia desabar.

Azeredo e Antonio Britto, governador do Rio Grande do Sul, tiveram suas carreiras políticas profundamente atingidas por não perceberem o maremoto que chegava.

A investida contra os juros

A partir de abril de 1995, radicalizei as críticas contra os juros. Em maio, André Lara Resende, que mantinha uma coluna semanal na página 2 da Folha, publicou um artigo contra os “palpiteiros”. Inspirava-se em um texto do New York Times que apontava o suposto absurdo de pessoas sem formação profunda em macroeconomia criticarem formulações econômicas sofisticadas.

Respondi com uma coluna sobre o sebastianismo na economia: a crença de que a opinião pública deveria esperar um Dom Sebastião descer dos céus, em sua Lamborghini, para salvar o país. E explicitei o paradoxo do Real: o Atacado Martins, maior atacadista brasileiro, com receita de R$ 5 bilhões, tivera lucro de R$ 4 milhões; enquanto uma pequena distribuidora da avenida Paulista, com capital de R$ 15 milhões, lucrara mais de R$ 100 milhões.

A flechada atingiu o alvo. Antes do Real, os formuladores haviam definido uma regra de remonetização baseada no dólar: só receberia reais do Banco Central quem trouxesse dólares. Era uma regra clara para beneficiar o que chamávamos de “Paulista” — o centro financeiro de São Paulo, ainda não deslocado para o Itaim.

A estratégia era nítida: entregar às instituições financeiras o controle da moeda nova e a reciclagem dos bilhões de dólares que haviam saído do país no período posterior ao congelamento de Fernando Collor.

Pouco antes do Real, André Lara Resende e Luiz Carlos Mendonça de Barros adquiriram uma pequena distribuidora da Pirelli e convidaram algumas raposas do mercado para a sociedade. Assim que meu artigo saiu, recebi convite para almoçar com eles na sede da distribuidora. André estava visivelmente incomodado com a menção ao automóvel. De fato, com os ganhos proporcionados pelo Real, realizara sonhos de infância: comprara um carro de corrida e cavalos.

Tentaram explicar a lógica do plano. Não me convenceram. A guerra continuou.

Em um dos almoços do Conselho Editorial da Folha, alertei Otávio Frias de que vinha uma quebradeira pelo caminho. Eu dava muitas palestras pelo interior, e em todas elas empresários relatavam a mesma coisa: queda de vendas, estoques altos, dívidas crescentes, crédito caro. Frias disse ter recebido um telefonema do ministro Pedro Malan, garantindo que o PIB cairia apenas um ponto.

No mesmo almoço, mencionou-se uma pesquisa do Estadão sobre colunismo. Em Política, os nomes destacados eram Clóvis Rossi e Jânio de Freitas; em Economia, meu nome aparecia entre os mais citados. Gilberto Dimenstein, então chefe da sucursal de Brasília da Folha, ficou incomodadíssimo. Ao fim do almoço, desci para Santos, onde faria uma palestra. Ele me telefonou. Sabendo de minha amizade com Aloísio Maranhão, diretor de redação do Estadão, pediu que eu verificasse se seu nome não aparecera em outra categoria. Respondi que Maranhão não abriria a pesquisa para mim.

Nos dias seguintes, passei a sofrer um tiroteio pesado em sua coluna na página 2. Em um dos artigos, Gilberto chegou a afirmar que quem duvidava do Plano era lobista da Fiesp ou de Naji Nahas. A acusação foi repetida por Márcio Moreira Alves, em O Globo.

No Conselho Editorial, eu havia sugerido a Frias um teste simples: telefonar para “qualquer prefeitura” e perguntar a situação econômica do município. À noite, eu estava em uma cidade do interior fluminense quando recebi seu telefonema. Afobado, dizia ter ligado para algumas cidades e constatado o tamanho do desastre produzido pelo Real. Mas não interferiu na minha polêmica com Dimenstein.

Na mesma época, almocei com Delfim Netto. Ele sugeriu que eu devolvesse os ataques acusando os defensores do Real de “chapa-branca”. Preferi não seguir o conselho. Levar a discussão para o campo das ofensas recíprocas seria entregá-la a qualquer nível de colunista.

O tiroteio de previsões

Durante todo o mês de maio, a disputa com Dimenstein foi diária. Eu publicava um artigo; ele rebatia no dia seguinte, abastecido por análises de Carlos Considera, economista do Ipea incumbido por Malan de municiá-lo.

Em determinado dia, Dimenstein-Considera apresentou dados do ICMS para provar que a arrecadação continuava em alta. Argumentei que havia uma defasagem entre as vendas e o recolhimento do imposto. Em breve, os dados mostrariam a crise. Não se tratava de torcida contra o plano, mas de leitura de fluxo econômico.

A discussão envolvia muitos interesses. Aos poucos, porém, os fatos começaram a se impor. Em certo momento, Dimenstein mencionou cartas de leitores protestando contra sua visão cor-de-rosa da economia e ameaçou entregar os pontos. Respondi com uma coluna sobre Spy vs. Spy, a velha tira em que dois espiões lutavam um contra o outro. Sugeri que havia um “Dimenstein 2” começando a questionar o “Dimenstein 1”. Ele recuou da hesitação e voltou à defesa da economia cor-de-rosa.

Certa vez, invocou uma conversa com um grande auditor para dizer que estava tudo ótimo. Por coincidência, eu recebera um e-mail do mesmo auditor, espantado com o desastre provocado pelos juros nas empresas. Sugeri então a Eleonora de Lucena, secretária de Redação da Folha, que propusesse a Otávio Frias uma saída honrosa para Dimenstein: ambos publicaríamos a malandragem do auditor, o contraste entre as mensagens, e selaríamos a paz. Eleonora voltou com a resposta: Otávio Frias Filho queria ver até onde a disputa iria.

A realidade se encarregou do desfecho. Em meados de junho, recebi um telefonema de José Roberto Mendonça de Barros, secretário de Política Econômica da Fazenda, admitindo que os juros estavam errados e que a quebradeira já estava em andamento. Poucos dias depois, Fernando Henrique Cardoso fez uma declaração pública reconhecendo o desastre.

Na ocasião, eu tinha um programa de economia na TV Record. Preparei um artigo mostrando como a teimosia é má conselheira do jornalista e mencionando a polêmica com Dimenstein. Recebi então um telefonema do próprio Frias:

— Nassif, o Gilberto é uma estrela do jornal, assim como você. Se publicar essa coluna, vai acabar com ele.

Mudei o texto. E a polêmica se encerrou.

O Plano Real foi um divisor de águas. Venceu a hiperinflação e devolveu previsibilidade à vida cotidiana. Mas sua condução posterior revelou um vício recorrente da tecnocracia brasileira: confundir elegância teórica com conhecimento do país concreto. A economia real — atacadistas, prefeituras, pequenas empresas, famílias endividadas — avisou antes. Só foi ouvida depois que a crise já estava instalada. E implementou uma financeirização ampla que, nas décadas seguintes, seria o principal obstáculo ao crescimento do país.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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