Por Rui Daher
Quando o mal não pe percebido e o bem atrasa

Estranhando o quê? Fosse Jean Wyllys (PSOL) candidato em São Paulo, e não no Rio de Janeiro, teria sido eleito deputado federal?
“As identidades políticas são o resultado da articulação – ou seja, da tensão – das lógicas opostas da equivalência e da diferença, e o simples fato de que o equilíbrio entre essas lógicas seja rompido pelo predomínio, além de certo ponto, de um dos dois polos é suficiente para fazer com que o ‘povo’ se desintegre como ator político”.
Creio que esse trecho do livro “A Razão Populista” (Editora Três Estrelas, São Paulo, 2013), do cientista político argentino Ernesto Laclau (1935-2014), poderá iluminar o entendimento sobre a forma como os paulistas, ao contrário de outras regiões do Brasil, procedem em suas escolhas eleitorais.
A gênese conservadora de Piratininga nasceu com a oligarquia rural dos barões do café, seguiu o rito de passagem para a burguesia industrial, mostrou-se explícita como braço civil do golpe militar de 1964 e, daí em diante, não parou mais, concedendo raros intervalos progressistas nos momentos em que o acordo conservador falhava na concessão das benesses de que a elite acredita merecedora.
Lembremos que isso ocorreu e se mantém, justamente, na região mais industrializada do País, onde se formou na efervescência dos chãos de fábricas, expressivos contingentes operários e representações sindicais, a partir da década de 1970, distantes do peleguismo até então vigente.
O avistado por Laclau mostra que, em São Paulo, o rompimento desse equilíbrio pelo predomínio de um desses polos, desde o suicídio de Getúlio Vargas, fez desintegrar o ‘povo’ como ator político, e agora por 60 anos serve como reprodutor do pensamento antitransformador.
Assim, na votação de domingo passado, não se deve estranhar a relação dos políticos eleitos.
São Paulo não tem ‘povo’ como entidade transformadora, mas o ethos do conservadorismo, dos padrões de moralidade, das vestes bem alinhadas, do respeito aos doutores. Nos de cima, a consideração ao camarada abaixo vai até o respeito deste a seu devido lugar. Estes, se a ordem vier com um sorriso, reconhecem a deificação dos méritos de quem chegou lá.
Até aí, é o de sempre. Aécio, Alckmin, Telhada, Tiririca, Russomano, todos justificados à direita. Como o estão os resultados das pesquisas sobre aborto, legalidade de drogas, usos de armas, maioridade penal, casamentos homoafetivos.
Só um ponto é difícil entender.
Houve tempos no Brasil, em muitos países ainda há, em que políticos se mantinham nos cargos por seus atos de seriedade, honestidade, posições na contramão da turba, presença simbólica em atos desaprovados pelos poderes constituídos, padrões éticos demonstrados a cada momento, e até pelo bom humor que traziam à sociedade.
Eram reeleitos por serem do bem e recebiam votos de quem acredita no bem, não importando o partido a que pertenciam ou o tempo em que permaneciam no cargo. Suas qualidades eram reconhecidas intrínsecas.
Em São Paulo, essa evidência deveria se acentuar, sobretudo, quando alguém com tal perfil e passado concorre com políticos capazes de traições, até dentro do próprio partido, perseguições a jornalistas forçando suas demissões, desorientações para fora dos trilhos urbanos, invenções de factoides que poderiam ser cantadas por João Gilberto, e demonstrações de ódio a cada olhar, a cada contrariedade em frequentes derrotas.
Nem Ernesto Laclau, ao analisar gêneses e preconceitos dos processos políticos e dar ao povo centralidade neles, seria capaz de entender a eleição do representante paulista no Senado brasileiro.
Lembro principalmente aos eleitores que derrotaram Eduardo Suplicy nas urnas das três maiores cidades do ABC paulista que ele esteve nas portas das fábricas em que vocês trabalhavam quando das frequentes demissões em massa promovidas pela indústria automobilística, tão protegida ultimamente, e que os futuros ventos neoliberais de suas preferências farão, novamente, baterem às suas portas.
Playing for Change: “A Better Man”

aliancaliberal
8 de outubro de 2014 10:54 pm“r serem do bem e recebiam
“r serem do bem e recebiam votos de quem acredita no bem”
Quem disse que Jean Wyllys é do bem.
Quem não vota no PT é malvadinho.
Zarastro
8 de outubro de 2014 11:01 pmPraticamente tudo o que se
Praticamente tudo o que se opuser a você é do bem, por definição.
aliancaliberal
9 de outubro de 2014 3:03 pmPor que não estou surpreso, é
Por que não estou surpreso, é evidente que quem odeia a liberdade vai se opor ao liberalismo e ao conservadorismo.
Quem deseja o aumento do estado para obter vantagens pessoais não vai achar bom o contrário.
Zarastro
9 de outubro de 2014 3:11 pmConservar?
Como diz minha prima, “conservar o quê?!”
E de resto, quem desde sempre têm mamado nas tetas do estado são os grandes empresários que você defende.
Sergio Saraiva
9 de outubro de 2014 8:29 amTelhado de vidro.
Do bem é o Telhada, ele vai matar todos os bandidos que te metem medo.
E vai matar os seus datas as também.
Ele é do bem … ele é do bem….
Oda Nobunaga
8 de outubro de 2014 10:58 pmAgora não adianta falar que
Agora não adianta falar que São Paulo é isso ou aquilo. Aqui é uma cultura diferente, conservadora até, mas não nos esqueçamos que o PT nasceu aqui também. Nessa mesma terra elegemos uma nordestina pra prefeita e também uma sexóloga. O PT deveria mergulhar na sua própria política interna em São Paulo e ver onde errou. Sair dos gabinetes e ficar mais próximo do povo. Se a grande mídia é a inimiga, por que o PT não cria um jornal de esquerda? Por que não compra uma tv???? sei lá., As vezes eu me sinto pregando no deserto, tendo que buscar aqui e ali fatos que defendam o partido.
Zarastro
8 de outubro de 2014 11:05 pmA autocrítica é necessária sim
Afinal de contas, somente com o reconhecimento de nossos erros é que aprendemos a ir em frente.
Por outro lado, não adianta nada o PT comprar uma estação de TV – até porque as concessões de serviços de telecomunicações são outorgadas pelo congresso nacional, onde o PT – mesmo com a maior bancada do congresso – está em minoria. E depois, se isso realmente funcionasse a TV Brasil seria líder de audiência, e não é. O que daria certo, em minha opinião, seria fazer jornaizinhos de distribuição gratuíta e colocar gente dando isso em estações de trem, nos cruzamentos, dentro dos ônibus, como fazem por exemplo o Metro e o Destak aqui em São Paulo.
Oda Nobunaga
9 de outubro de 2014 12:00 amPode ser. Mas achar que o dna
Pode ser. Mas achar que o dna paulista é diferente é besteira. O sujeito que fica exposto ao bombardeio conservador da mídia dificilmente fica imune.
Motta Araujo
9 de outubro de 2014 12:53 amNão há problema algum em ter
Não há problema algum em ter uma estação de TV, tem que cumprir uma burocracia ou comprar uma TV já instalada, sempre há vias à venda, o problema é ter COMPETENCIA para gerir uma estação e esta atrair espectadores.
Aliás varios sindicatos tem TVs.
Alguns petistas estão alimentando uma autoilusão, de que é a midia quem faz a cabeça dos votantes, tem alguma influencia mas não é assim tão direto, o eleitor não é um robô, é a vida quem constroi a visão do eleitor, a midia tem alguma parte disso mas nunca foi tudo como certos ideologos do PT querem fazer crer, sempre na linha da teoria da conspiração: um só fator explica tudo e sempre é culpa de alguem de fora, nunca é nossa culpa.
ljunior
9 de outubro de 2014 10:28 amO problema da mídia é econômico
Oda, primeiramente, devo concorcordar com você em relação aos erros do PT. Existe conservadorismo em SP, mas o PT dormiu no ponto com a tese do “controle remoto”.
Mas em relação à mídia, o problema não é de audiência. O problema é econômico.
Existe um tripé que sustenta a Globo: Ibope, Agências e BV (Bônus de Veiculação).
O Ibope diz quanto as TVs têm de audiência. Se a medição tiver os mesmos erros das pesquisas (o que não é difícil) então essa medição pode estar errada a favor de alguém. O Ibope diz que a Globo tem 50%.
As agências preferem anunciar na Globo. O fato é que a Globo, mesmo com 50% da audiência, detém 80% do valor investido em propoganda o que permite que ela compre 100% do Brasileirão e transmita apenas 10% e ainda ter lucro.
Assim, apresentamos o BV, que é um valor que a Globo paga as agências no início de todos os anos para que elas dirijam os recursos de seus clientes (Anfavea, Ambev, Telefônicas etc.) para a Globo e não para a concorrência.
Para você ter uma ideia, sabe quem é a segunda empresa que fatura em propaganda no Brasil? Record? Tente de novo. SBT? Passou longe! A segunda empresa que mais fatura em propaganda no Brasil é a Google!!!
O que o governo deve fazer é acabar com essa propina chamada BV, pois ela causa um problema de concorrência.
A segunda coisa que deve acontecer é acabar com o monopólio do Ibope na medição da audiência. Para isso, está entrando no Brasil a GFK, uma empresa alemã que mede audiências. Quando a verdadeira audiência da Globo aparecer (o que deve ser em torno de 20% de um número cada vez mais reduzido de aparelhos de TV) as empresas vão pensar se vale a pena investir o rico dinheirinho deles para uma audiência bem menor do que se fala.
Sem essas duas pernas do tripé, a Globo cai e isso vai permitir o surgimento de outras mídias.
É assim que a Globo vai cair. Isso, claro, se o PT ganhar E fizer o que tem que ser feito. Com Aécio, a chance de isso acontecer é ZEROOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO.
Gilberto Cruvinel
8 de outubro de 2014 11:05 pmE o bem cativo estar do ativo mal
William Shakespeare
Soneto 66
tradução de Ivo Barroso
Farto de tudo, a paz da morte imploro
Para não ver no mérito um pedinte,
E o nulo se ostentando sem decoro,
E a fé mais pura em degradado acinte,
E a honra, que era de ouro, regredida,
E a virtude das virgens violada,
E a reta perfeição ser retorcida,
E a força pelo fraco subjugada,
E a prepotência amordaçando a arte,
E impondo regra o tolo doutoral,
E a verdade singela posta à parte,
E o bem cativo estar do ativo mal:
__Farto de tudo, a morte é o bom caminho,
__Mas, morto, deixo o meu amor sozinho.
…………………………………………………………………………………….
SHAKESPEARE, William. “Soneto 66”. In: BARROSO, Ivo (tradução e apresentação). William Shakespeare 50 Sonetos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.
Motta Araujo
9 de outubro de 2014 12:56 amSerra pode ser tudo o que o
Serra pode ser tudo o que o autor do post disse mas o Suplicy não é uma opção viavel, nem o proprio PT queria ele de novo como candidato, como é publico e notorio, ele forçou a barra para ser candidato, nunca fez nada de aproveitavel a não ser cultivar factoides bobos.
Oda Nobunaga
9 de outubro de 2014 3:57 amConcordo. Mesmo assim o
Concordo. Mesmo assim o Suplicy é um político muito melhor que o Serra.
ljunior
9 de outubro de 2014 10:14 amContradições…
O povo vai à rua nas passeatas de Junho pedindo ética na política e votam no candidato que disse para nunca mais votarem nele se ele não terminasse o mandato de prefeito:
https://www.youtube.com/watch?v=fotg2zt2-tU
ISSO que o povo de São Paulo cometeu! Elegeu um contumaz mentiroso no lugar de uma pessoa contra a qual não existe uma vírgula em relação à honestidade e correção.
Mas esse é o povo que elegeu Tiriria e Celso Russomano.
Esse é o povo “informado” (segundo FHC) que acha que vai mudar o Brasil com voto de protesto em Tiririca.
Infelizmente, nós paulistas temos mais é que comer capim mesmo. Isso se tiver água pra regar a grama!
altamiro souza
9 de outubro de 2014 1:00 amótimo post.
lamento
que tb
ótimo post.
lamento
que tb lamento.
entendi melhor o caso sp.
altamiro souza
9 de outubro de 2014 3:59 amé a hegemonia, cara!
pelo que
é a hegemonia, cara!
pelo que entendi, essa teoria de laclau, nada mais é do que a síntese da chamada hegemonia política de um setor social sobre outro.
a grande burguesia voraz capitalista de são paulo hegemoniza
o poder político e economico através da dominação dos setores
inclusive da grande mídia dita golpísta,
que ancora todos esses interesses dessa
burguesia nacional vinculada aos interesses
burgueses internacionais,
cujo símbolo até cultural é a avenida paulista,
região dos bancos e da financeirizaçõ da economia.
o tal do equilíbrio.entre as “lógicas opostas da equivalencia
e da diferença” foi rompido pelo predomínio exacerbado e
violento do setor mais forte da economia e da política.
o que a ditadura conseguiu pela violencia
(acabar com o sindicalismo etc),
a elite paulista conseguiu pelo convencimento
falacioso e mentiroso de sua grande mídia invencionista
de todos os enredos para alcançar seus objetivos.
se o povo não reagir é capaz mesmo de começar
a desintegrar-se em sua unidade mais forte,
como por exemplo, no abc, onde se iniciaram
as grandes lutas contra a ditadura e a tentativa
de equilibras as forças com o capital,
com a construção de entidade simportantes como a cut etc e tal….
o pt…
os movimentos sociais.
como esses novos atores das manifestaçõs de 2013
não são sindicalizados nem participam institucionalmente
da política brasileira, passaram a ser atores meio aleatórios,
sendo inclusive usados como massa de manobra,
na minha opinião,
pelo meios de comunicação, interesados em desconstruir o governo dilma
e os movimentos sociais, os trabahadores,etc …..
duvido que essa classe tranalhadora se desintegre
assim sem mais nem menos, sem luta,
mas periga perder forças importantes para poder reagir
de forma mais consistente a essa violencia dos interesses
vorazes do capital espoliativo e expropriatório.