6 de junho de 2026

O trigo no joio da imprensa, por Luciano Martins Costa

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Do Observatório da Imprensa

O trigo no joio da imprensa

Por Luciano Martins Costa

Já se afirmou aqui, em algumas ocasiões, que a imprensa brasileira não guarda mais uma relação orgânica com o jornalismo. Essa assertiva tem provocado protestos de jornalistas, alguns dos quais, sobreviventes nas grandes redações, atuam quase como guerrilheiros em trincheiras da boa conduta profissional.

De fato, afirmações genéricas sobre o engajamento da mídia tradicional no terreno político partidário tendem a destacar o joio, e eventualmente o observador esquece que também há algum trigo no capinzal.

A metáfora tem fundamento no fato de que o joio sempre brota em meio ao trigal, e nas culturas chamadas orgânicas pode ser usado para atrair fungos, ajudando a controlar certas pragas. Nesse caso, porém, o agricultor sabe exatamente onde estão as fileiras da gramínea venenosa, e arranca a planta daninha que invade as leiras de trigo. O perigo acontece na colheita, porque misturar o joio e o trigo pode dar a perder todo o trabalho.

Quando se diz que não há mais uma relação orgânica da imprensa com o jornalismo, também se está a afirmar que a imprensa perde sua justificativa moral quando abandona o propósito da objetividade e substitui a abordagem complexa pelo atalho linear entre o fato e a opinião que lhe interessa. Transformada massivamente em uma instituição comprometida com um viés hegemônico, a mídia se transforma em uma cultura de joio, com algumas touceiras de trigo aqui e ali.

Esse é o contexto no qual se encaixa a frase da presidente da República sobre o ânimo dos jornais em promover investigações paralelamente ao trabalho das instituições oficiais: a investigação jornalística só tem valor no campo do jornalismo de qualidade, onde predomina a busca da objetividade e não a colheita conveniente de versões com finalidade política. A demonstração mais clara desse desvio é a seletividade na produção de escândalos conforme o perfil político dos protagonistas.

A corrupção é fenômeno histórico, e vem à luz graças à autonomia que foi concedida aos órgãos policiais nos últimos anos, mas a imprensa esconde alguns casos e escancara outros conforme seus interesses.

A pauta constrangida

As queixas dos colegas jornalistas que se sentem injustiçados pela crítica genérica têm razão de ser, se considerarmos que eles representam uma exceção na cultura geral do antijornalismo. Por isso, é conveniente fazer um parênteses na análise diária da imprensa para observar como as empresas de comunicação se transformaram em produtoras massivas de joio, mas precisam de vez em quando oferecer ao público um punhado de trigo.

A boa semente pode ser encontrada, eventualmente, em artigos e colunas que, mal ou bem, servem para resguardar o que resta de credibilidade aos meios de comunicação hegemônicos. Mas não há hipótese de o leitor ou telespectador encontrar tais visões que se contrapõem à opinião predominante exibidas com destaque nas primeiras páginas dos jornais ou nos blocos mais extensos dos noticiários da televisão. Esses objetores sobrevivem em suas trincheiras, fazendo eventualmente um tímido contraponto ao material grosseiramente manipulado que alimenta as manchetes.

Pode-se imaginar a cautela que precisam ter os jornalistas conscienciosos numa reunião de pauta, para não ofender o pensamento dominante. Em uma redação como a do Globoou do Estado de S.Paulo, por exemplo, há relatos de confrontações que resvalam para o desrespeito pessoal e a humilhação pública. Na Folha de S.Paulo, um repórter experiente confidencia que evita as reuniões para não se submeter a propostas de pautas indecorosas.

E onde se esconde esse jornalismo que ainda se preocupa com aquelas qualidades que definem a boa imprensa? Na maioria dos casos, ele se enfurna em cadernos temáticos, onde algumas questões importantes podem se abordadas com mais profundidade. Na maioria das empresas de comunicação, há um editor especial para tais publicações periódicas, que têm um processo à parte para a coleta de apoio publicitário.

Segundo o editor de um desses produtos, o principal desafio, nesse caso, não é driblar a pressão dos editorialistas, mas administrar o conflito de interesses com o departamento comercial. Esses cadernos são como uma touceira de trigo no campo de joio em que se transformou a imprensa brasileira.

 

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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5 Comentários
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  1. Tio Almir da Bahia......

    28 de setembro de 2014 1:55 pm

    Matéria por controle remoto…

    ¨Bandeira eleitoral, Mais Médicos não prioriza municipios do Nordeste

    JULIANA COISSI
    PATRÍCIA BRITTO
    DE SÃO PAULO
    FELIPE BACHTOLD
    ENVIADO ESPECIAL AO INTERIOR DO RS

     

    28/09/2014  02h00¨ ¨ …………………………………….

    …Olha só como o maior jornal do Brasil, agente do PIG,  faz uma matéria contra o  Mais-Médicos….De dentro do aquário da redação paulista e indo para o interior do RS….

    Ou o cabra digitou errado  RS  ao invés de RN,  ou o caso é sério…

     

     

  2. helcio dias de sa

    28 de setembro de 2014 2:01 pm

    O trigo no joio da imprensa

    Fui garçom do barzinho PUB,da Associaçao mineira de imprensa,galeria de arte e teatro anexos e todos os donos da liberdade de expressao/prostitutas intelectauis, frequentando o whiskey amigo que oferece uma tranparencia e tanto depois de muitas doses.tambem fui garço da dalca durval chateaubriand,irmao do dono dos associados,a globo da epoca.Minha profissao invisivel,garçom,mobiliario humano despercebido como gente,abriu todas as minhas lentes para afirmar hoje aos 66 anos de idade.O “crime organizado”tem seu comando/ começa no cartel midiatico, que o Capilè do midia Ninja nao sabe se è quadrilha ou cartel,passando pelo judiciario serviçal,vacas de presepio que completa a fotografia.

    1. Maira Vasconcelos

      28 de setembro de 2014 4:13 pm

      oi, helcio.

      que curioso encontrar-te por aqui contando tantas coisas interessantes. sabe, se eu pudesse entrevistaria o senhor e o colocaria em minhas a-crônicas, porque garçons atentos costumam fazer bem o trabalho e ainda escutam muita coisa dos seus clientes, e olha só por onde andastes. Você mora onde no Brasil? Um abraço e fico satisfeita em tê-lo como leitor, ainda mais agora que descobri seu curriculo! 

  3. Luiz Moreira

    28 de setembro de 2014 2:43 pm

    Realmente Senhor Luciano! É

    Realmente Senhor Luciano! É muito joio para pouco trigo!

  4. altamiro souza

    29 de setembro de 2014 2:25 am

    a grande mídia é a

    a grande mídia é a banalização do joio

    sobre o joio.

    a erva daninha nefasta

    sai do aquário e da pauta

    dominados por interesses patronais

    e ecnmicos do capital,

    para a redação,

    que ou se submete ou pega o boné para garantir um pouco mais de tempo de vida.

     

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