28 de julho de 2026

“Não existe um avanço pleno no combate ao tráfico de pessoas”, diz presidente da Asbrad

Em todo o mundo, 25 mil pessoas foram vítimas desse tipo de violação em 2016; mulheres e crianças são as principais atingidas
Foto: Mansi Thapliyal/Reuters

do Observatório do 3º Setor 

“Não existe um avanço pleno no combate ao tráfico de pessoas”

por Mariana Lima

“Nada acontece sem um conjunto de ações que favoreçam o cenário”. É desta forma que Dalila Figueiredo, presidente da Associação Brasileira de Defesa da Mulher, da Infância e da Juventude (Asbrad), percebe a situação do tráfico de pessoas no país.

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A instituição existe desde 1997, e devido à proximidade com o Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, acabou se envolvendo com a causa do combate ao tráfico de pessoas.

O que começou com o atendimento a uma mulher vítima de tráfico e exploração sexual, transformou-se em projetos de acolhida e um serviço especializado.

Além de atender no Aeroporto vítimas de tráfico, exploração sexual ou de trabalho, a equipe do Asbrad oferece apoio a migrantes nacionais e estrangeiros em situação de vulnerabilidade.

“É fundamental ter uma preocupação com o ser humano. É durante a vulnerabilidade do indivíduo que pessoas de mau-caráter surgem para explorar e se aproveitar”, aponta Dalila.

Ela ressalta que o aumento da pobreza, do trabalho precário e da concentração de renda apenas potencializam a exploração humana.

“A quantidade de crianças que estão entrando no país sozinhas ou acompanhadas de adultos desqualificados, vindas da Venezuela, é alarmante. E elas acabam nas ruas ou em abrigos de adultos. Isso só aumenta o risco de elas serem aliciadas”.

De acordo com o Relatório Global sobre Tráfico de Pessoas, produzido pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), crianças correspondem a 30% das vítimas de tráfico humano no mundo.

Com base em dados de 2016, o documento revela que 25 mil pessoas foram traficadas ao longo do ano questão, no mundo.

O relatório ainda informa que são as mulheres as principais vítimas. Elas representam 70% dos que sofrem essa violação de direitos.

A exploração sexual ainda é a principal motivação por trás do tráfico humano em relação às mulheres. Elas correspondem a 75% das vítimas.

A primeira mulher que a Asbrad atendeu foi atraída por uma proposta de trabalho, e acabou sendo explorada sexualmente.

“Após o primeiro encontro com ela, nós nos envolvemos com a causa rapidamente. Muitas destas mulheres perderam o contato com a família e não sabem o que fazer ao chegarem aqui. É fundamental o processo de escuta”.

Em 2018, o Disque 100 registrou 159 denúncias de tráfico de pessoas, resultando em mais de 170 violações.

Em relação à motivação, as denúncias com maior incidência foram as de tráfico interno para fins de exploração sexual (16,9%).

Em seguida, aparecem internacional para fins de exploração sexual (8,1%), interno para fins de adoção (7,5%), interno para fins de exploração de trabalho (6,9%), internacional para exploração de trabalho (5,0%), internacional para fins de adoção (2,5%), internacional para remoção de órgãos (1,8%) e, por fim, interno para remoção de órgãos (0,63%). 57,23% das violações têm outros motivos.

O perfil das vítimas das ocorrências no último ano era, predominante, de mulheres (53,1%), entre 15 e 17 anos (18,9%). As informações estão de acordo com dados internacionais.

Para Dalila, a continuidade destas ocorrências e a dificuldade de manter instituições abertas deixam uma sensação de impotência.

“Não existe um avanço pleno no combate ao tráfico de pessoas. É necessária muita luta e resistência de quem está nesta luta. As ONGs conseguiram construir modelos de combate e disponibilizar indicadores, mas ainda precisamos de mais”.

Assim como a violência sexual, a violência contra a comunidade LGBT+ e demais minorias, o tráfico de pessoas enfrenta a barreira da subnotificação.

Inteligência Artificial no combate

A empresa de tecnologia IBM, em parceria com a rede de organizações Stop The Traffik, desenvolveu uma tecnologia de Inteligência Artificial (IA) gratuita para que órgãos policiais e ONGs consegam identificar e interromper esquemas criminosos ligados ao tráfico de pessoas.

A ferramenta funciona através da plataforma ‘Traffik Analysis Hub‘ (TA Hub), que permite o compartilhamento de informações com base na análise de dados sobre tráfico humano.

A ferramenta é pensada para atuar em perspectiva internacional, já que que o tráfico de pessoas ocorre principalmente nas fronteiras entre os países.

O Hub TA visa rastrear notícias e redes sociais públicas e ligá-las a eventos e tendências do tráfico humano, com informações que estão sendo investigadas, como casos de fraudes bancárias.

O serviço ainda não está aberto para todas as organizações. Por enquanto, apenas entidades convidadas podem colaborar com a base de dados e informações. A proposta é avaliar o funcionamento da plataforma para então aumentar a rede de colaboradores.

A líder de cidadania da IBM na América Latina, Claudia Romanelli, ressalta a busca da empresa por promover ações de impacto social.

“O tráfico de pessoas é uma causa de impacto gigantesco e envolve frequentemente uma população vulnerável. Mulheres e crianças são as principais vítimas desta violência. A construção de uma rede integrada só tende a beneficiar as organizações e o combate”.

Ela aponta que, enquanto a IBM possibilita a ferramenta, é papel das organizações “exercer a gestão destes dados. Coordenando as informações, elas [entidades] conseguem enxergar os padrões de comportamento e identificar as situações de tráfico humano”.

*

A Defensoria Pública da União de São Paulo disponibilizou uma cartilha que reúne orientações para identificar situações de Tráfico de Pessoas. Para ler, clique aqui.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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