17 de junho de 2026

O Adeus a Maria D’Apparecida, por Henrique Marques Porto

 
 
“Tua voz, d’Apparecida, é aparição
Fulgurante, sensitiva, dramática
E vem do fundo negroluminoso dos nossos corações
E vai e volta e vai
Maria d”Apparecida do Brasil,
Aparecedoramente cantaril.”

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Carlos Drummond de Andrade.
 
do Ópera Sempre
 
 
por Henrique Marques Porto
 
Anteontem foi dia de ficar pensando em ópera –récitas, casos, testemunhos, conversas do passado, coisas do tipo. De repente me lembrei de Maria D’Apparecida. Por onde andaria? O que foi feito dela? Já havia pesquisado sem sucesso, mas resolvi tentar novamente, no vai e vem dos caminhos e descaminhos da web. Queria apenas saber se ela ainda estava viva, onde morava e o que fazia. Há anos li numa revista francesa que ela teria se recolhido num convento de clausura. Embora não tenha conseguido confirmar a notícia, a suposta clausura talvez explicasse a falta de informações e a dificuldade de encontrá-la.

 
Mas, quem procura acha. Pois acabei achando o que não queria. Maria D’Apparecida morreu no dia 4 de julho de 2017.  Seu corpo está no Instituto Médico Legal de Paris desde então, no aguardo de que alguém da família reclame o corpo. Se isso não acontecer até o dia 20 de agosto Maria será sepultada como indigente, em vala comum, num cemitério no subúrbio de Paris. Parece absurdo, mas é verdade. Quem informa é a Chancelaria Brasileira em Paris. Ora, convenhamos! É assim que são tratados os artistas brasileiros que morrem no exterior? Não sou ingênuo. Entendo os necessários trâmites burocráticos, tanto em vida como na morte. É necessário um carimbo quando a gente nasce e outros tantos quando a gente morre. Mas, não exagerem, senhores diplomatas. Tenham um pouco de bom senso e humanidade.
 
Podem me chamar de ranzinza. Vá lá que eu seja. Mas é deverindeclinável do Governo Brasileiro e de suas Chancelarias espalhadas pelo mundo garantir a dignidade dos cidadãos brasileiros falecidos no exterior. Ainda mais quando se trata de alguém que passou grande parte da vida divulgando na França e na Europa a arte e a cultura do Brasil, como é o caso de Maria D’Apparecida, que foi mais embaixatriz do que a maioria dos nossos bravos diplomatas.
 
Mas estamos falando de uma artista que foi hostilizada, sem trégua, no Brasil. Talvez por inveja. Mas certamente por grande carga de preconceito racial, da qual ela foi vítima. Sou testemunha dessa infamidade.
 
Maria D’Apparecida cantou uma única vez no Brasil –no Rio de Janeiro, em 1965. Aqui esteve com o elenco da Ópera de Paris. Na época era a melhorCarmem da França. Foi o que ela cantou aqui, além de O Diálogo das Carmelitas, de Francis Poulenc, sob a batuta de Jacques Pernoo e a direção de Henry Doublier. A crítica não gostou, boa parte do público torceu o nariz, por causa disso ou daquilo. Até o governador do antigo Estado da Guanabara, Carlos Lacerda, O Corvo, resolveu dar pitaco: “-Nunca vi um soprano cantando um papel de meio soprano”. Experto e ladino em política, ignorante em ópera. Mas ele entendeu que devia entrar no coro de maledicências. Apesar desses resmungos, foram necessárias duas récitas extras para atender ao público que fazia fila nas bilheterias. Foram cinco récitas ao invés das três inicialmente previstas. Com teatro lotado em todas.
 
D’Apparecida não era uma cantora excepcional, e tinha consciência disso. Mas era excelente atriz. Carmem é uma personagem cobiçada por praticamente todas as cantoras. Um desafio verdadeiro. Grandes cantoras se aventuraram na Carmem e foram por ela engolidas. Maria Callas, que tinha voz perfeita para o papel, gravou a ópera em estúdio, mas sabia que no palco a história seria outra. Não ousou, respeitou Carmem.
 
No entanto, outras cantoras, com muito menos recursos vocais e teatrais foram felizes cantando a Carmem. A francesa Geneviève Vix (soprano de voz insinuante e grande presença cênica) foi um exemplo da primeira metade do século passado. Muito bonita e sedutora ela entendia aCarmem.  
 
Maria D’Apparecida é outro exemplo. Foi uma aparição fulgurante na França dos anos sessenta. Mostrou aos franceses uma Carmem que eles não conheciam. Sensual, provocante, atrevida. Arretada! Uma Carmem que continha a negritude da mulher brasileira, e particularmente, da mulher carioca.
 
 
“Quand je vous aimerai? Ma foi, je ne sais pas…
Peut-être jamais!.. peut-être demain!..
Mais pas aujourd’hui… c’est certain.”
 
 
Carmem, Theatro Municipal do Rio de Janeiro, 1965.
 
 
A entrada em cena de D’Apparecida foi com as mãos nas cadeiras, olhando e sorrindo para os homens, mas altiva, não de forma vulgar. Lembro que a voz soou com menos volume do que o desejável. Mas ela, ainda assim, ficou senhora do palco. Era uma Carmem negra e Maria d’Apparecida se orgulhava de ser negra, algo que os patetas racistas não entendiam.
 
Por sua Carmem recebeu um Orphée d’Or em 1967.
Em 1974 sofreu grave acidente automobilístico, o que a obrigou a abandonar o canto lírico. Passou a se dedicar à divulgação da música popular brasileira. Fez shows e gravou muito. Seu disco mais conhecido é“Maria D’Apparecida et Baden Powell”, de 1977. 
 
Recorte enviado por Maria D’Apparecida 
 
Voltou poucas vezes ao Brasil. Jamais foi chamada para cantar.
A exceção foi em 1965, com o elenco da Opera de Paris. Houve quem quisesse barrá-la, mas o então diretor do teatro Municipal, Murilo Miranda, garantiu sua presença. Quando ele saiu, D’Apparecida foi para o índex. Os franceses voltaram ao Rio nos anos seguintes, mas ela não estava no elenco. “-A direção do teatro decidiu me barrar, é exatamente isso que quero dizer.” –afirmou sem papas na língua numa entrevista.
Maria D’Apparecida tinha temperamento doce e amável, mas que ninguém ousasse pisar em seus pés.
 
No final de sua estreia no Rio, na Carmem, meu pai e eu, que tinha 15 anos, fomos ao palco. Naquela época isso era permitido. Meu pai já a conhecia e se corresponderam por algum tempo até sua morte, em 1969. Ele me apresentou.
 
“-Esse aqui é meu filho.”
“-Oh! Très charmant!” – exclamou sorridente e arrematou com beijos nas minhas bochechas. Quase caí sentado, bem ali onde o otário do Don Joseacabara de assassinar Carmem
 
Ela era linda! Não sabia se olhava para os lados, se procurava algo inexistente nos bolsos, se estancava a incômoda revolução dos hormônios ou se tentava um olhar mais atento no ousadíssimo decote a dois palmos do meu nariz. Ah, os 15 anos…
 
Maria D’Apparecida era mulher espiritualizada. Uma alma grande. Bonita, inteligente e corajosa. Fez muito pela cultura do Brasil e não teve o reconhecimento que lhe é devido. Nosso maior poeta dedicou-lhe versos. E Drummond não escrevia versos para qualquer um. Poucos conhecem ou deram atenção.
 
Maria D’Apparecida, artista sensível, olhar arguto e doce, sorriso acolhedor.  
Très charmant

 

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  1. lucianohortencio

    6 de agosto de 2017 9:59 am

    Maria d’Apparecida merece sepultamento condigno!

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=Xz6dyerTAYY&list=PLCkmYOs4j7omhWKbWnPxMS0b-IHxEbikk%5D

    1. Nilva de Souza

      7 de agosto de 2017 3:02 am

      Oi Luciano, tudo bem?
      Voce

      Oi Luciano, tudo bem?

      Voce tem alguma novidade? 

      Falei com uma amiga juíza no Rio e ela disse pra gente entrar em contato com algum órgão/comitê de Direitos Humanos e também com o sindicatos dos artistas do Rio.

      Passei isso pro Nassif e estou postando aqui pra todos verem.

      Beijao 

  2. lucianohortencio

    6 de agosto de 2017 10:20 am

    A MULATA É A TAL!!!

    Amigo Humberto Marques Porto,

    Excelente e oportuníssimo seu alentado post.

    Forte abraço do luciano

     

    https://jornalggn.com.br/blog/lucianohortencio/maria-dapparecida-a-musa-de-a-mulata-e-a-tal

  3. Maria Luisa

    6 de agosto de 2017 1:34 pm

    Precisamos de mais ajuda

    Tive o prazer de conhecer essa adoravel cantora através de um post musical do Luciano Hortencio tempos atras, como tantas descobertas musicias fiz nos otimos artigos culturais do GGN. Eh com tristeza que soubemos que Maria d’Apparecida havia falecido e que se encontra nesse estado de espera para que se faça seu funeral. 

    Meu amigo Marcos e eu estamos a procura da familia da Maria D’Apparecida Marques e temos muitas questões para as quais não temos as respostas e isso complica essa procura. 

    Quando telefonei ao IML ontem pela manhã, eles logo me perguntaram se eu era do Consulado Brasileiro e depois se eu fazia parte da familia etc. Estão surpresos com a demora para solução da liberação do corpo de uma artista brasileira, da qual o Consulado até aqui não se manifestou claramente, apenas pediu esse prazo de 10 de agosto. Entre as questões que temos, nos soubemos que  Maria d’Apparecida teria deixado testamento. Se isso for verdade, quem é o tabelião (notaire em francês) em que ela fez o testamento? (não conseguimos falar com ninguém do Consulado. Liguei la na sexta-feira e o Marcos telefonou para pessoas que la trabalharam sem resposta). Normalmente, quando uma pessoa falece, o tabelião é informado e ele sai à busca dos herdeiros. E essa é uma tarefa normal dos tebeliões, eles sabem como proceder para encontrar os herdeiros.

    Se a Zezé Motta não conseguir contactar o irmão (ele ainda esta vivo?) de Maria d’Apparecida, então o tabelião, do qual ela pagou para fazer esse testamento, deve ou deveria estar à procurar de sua familia, qualquer herdeiro que seja. O Consulado precisa nos atender e nos dar mais informações para que possamos resolver o caso de Maria d’Apparecida antes de 10 de Agosto. E nos não estaremos em Paris ao longo dessa semana e so retornaremos, eu pelo menos, la pelo fim do mês. O que dificulta um pouco mais a nossa ação. Mas temos telefonado para o Brasil, mandando mensagens a amigos e conhecidos etc e não deixaremos, se pudermos, que Apparecida seja enterrada sem uma presença amiga.

    1. Nilva de Souza

      7 de agosto de 2017 2:54 am

      Oi, Maria Luisa, td bem?
      Tem

      Oi, Maria Luisa, td bem?

      Tem alguma novidades? 

      Falei com uma amiga juíza  no Rio e ela disse que deveríamos procurar alguém/algum comi-te de Direitos Humanos e o Sindicato dos Artistas.

      Ja avisei o Nassif pelo face.

      Beijão 

       

    2. Cristina Ferreira Gomes

      15 de agosto de 2017 3:24 am

      Morte de Maria D Aparecida

      Rio 14.07.2017

       

      Boa noite,

      Sou filha do afilhado de Maria D aparecida, sempre tivemos muito contato com ela através de carta, telefone e quando a mesma vinha ao Brasil, vinha sempre visitar meu pai.

      Em 2012, recebemos a última carta, ela se desculpando que havia vindo ao Brasil 4 vezez mas não pode entrar em contato, pois uma grande amiga, que ela considerava uma irmã estava muito doente. E que da próxima vez viria nos visitar como sempre fazia e pediu que mandassemos notícias de todos. Era uma madrinha presente na vida do meu pai, desde sua infância, pois ela o recebeu para batizar quando ainda era uma adolescente e desconhecida, tinha muita consideração pela minha avó.

      Passou um ano e estanhamos a falta de notícias, ligamos para seu apartamento em Paris e ninguém atendia, fizemos isso semanalmente. Mandamos diversas cartas mas nada.

      Entrei em contato por e-mail com a embaixada brasileira em Paris, pedindo ajuda, recebi a resposta com uma pergunta? Vcs são parentes, informei que a mesma não tinha mas nenhum parente vivo, só dois afilhados e um deles era meu pai, falei do nosso contato com ela e que estavamos preocupados, pois ela havia nos informado que estava com problemas de coração e estava tomando muitos remédios…já sabíamos que o apartamento dela em Paris já havia sido vendido por ela, há um método de venda do imóvel para pessoas de idade, ela continua no imóvel e paga um aluguel, o novo proprietério só toma posse apoés o falecimento.

      Sei também que a mesma deixou tudo pago através do seu banco,  para sua cremação e o translado das cinzas para o Brasil. 

      SÓ RESTA SABER, SE NÃO HÁ PROBLEMAS DE DINHEIRO, E SE NÃO HÁ MAS PARENTES VIVOS, O QUE PODEMOS FAZER PARA TRAZER SUAS CINZAS, ONDE ELA QUERIA QUE FICASSE, AQUI NO BRASIL.

       

      QUEM QUISER PODE ENTRAR EM CONTATO COMIGO PELO EMAIL: [email protected]

      Cristina Gomes

       

       

       

  4. jcordeiro

    6 de agosto de 2017 6:40 pm

    Ato Decente

    Nassif: será que Aluisin 1Mi (segundo Odebrecht) não poderia, num ato de decência, coisa que dizem dolorosa prá qualquer do bando, não poderia recomendar que a chancelaria brasileira reclamasse os restos mortais dessa nossa conterrânea? Ou mesmo Don Raton, que tem domicilio na Cidade Luz, tirar algum de sua “cota 1994/2002” para fazer com que voltasse à terra natal o insepulto corpo dessa “Diva”? É possível que isso não lhes rendam uns troquinhos ou alguma maracutaia. Mas, já ouvi falar de atos caridosos até de mafiosos e maucarates. Não custa tentar. Fale com eles…

    Se um governo trata assim os artistas, imagine o que não faz ao Povão.

  5. Almeida

    6 de agosto de 2017 6:57 pm

    Maria d’Apparecida, uma cantora brasileira.

    Fiz uma postagem, há três anos atrás, com esse título aqui → Maria d’Apparecida, uma cantora brasileira https://jornalggn.com.br/blog/almeida/maria-dapparecida-uma-cantora-brasileira

    “Eu sou cantora brasileira”, assim ela se apresentava ao público francês:

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=1zTAbZ9S-yE%5D

  6. Nilva de Souza

    6 de agosto de 2017 9:07 pm

    Apesar de eu ter me afastado

    Apesar de eu ter me afastado da delicadeza, hoje não deu pra passar imune a algumas postagens.

    Fiquei muito mal em saber do falecimento e das condições que se encontra o corpo de nossa diva. Quanta desumanidade com quem jamais esqueceu sua pátria e fazia questão de se apresentar e ser reconhecida como brasileira.

    Agradeço emocionada ao Luciano, à Maria Luíza e ao Marco que estão tentando ajudá-la para que tenha um enterro digno.

    Agora, lendo este relato do Henrique, que a conheceu pessoalmente e desfrutou de sua amizade, não dá pra não sentir o quão pequenos somos enquanto país, desprezando um talento tão excepcional, com nosso preconceito arraigado, estrutural, com nossa crueldade. 

    Custa-me crer neste absurdo.

    Amigos queridos. Não sei como poderia ajudá-los na busca por solução, mas, contem com minha solidariedade.

    Coloco-me à disposição, se puder fazer algo.

    Beijao nocês.

     

    ——-

     

     

  7. Nilva de Souza

    7 de agosto de 2017 3:14 am

    Olá, Henrique, tudo

    Olá, Henrique, tudo bem?

    Falei com uma amiga juíza do Rio, e ela disse que devemos procurar alguma organização de Direitos Humanos e o Sindicato dos Artistas do Rio, pra pressionar, visando a solução do caso.

    Passei pro Nassif e pro pessoal daqui. Tomara que consigamos resolver e fazer o sepultamento aqui.

    Beijao 

     

     

     

  8. Cristina Ferreira Gomes

    15 de agosto de 2017 4:05 am

    Morte de Maria D Aparecida

    Sr. Henrique,

     

    Sou filha do afilhado da Aparecida. Tenho muitas informações que podemos juntar para resolver a vinda dela para o Brasil.

     

    E-mail: [email protected]

     

    Obrigada

     

    Cristina Gomes

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