Digressões sobre o imaginário coletivo brasileiro. Parte 5, por Rui Daher
“Às vezes me preservo, às vezes suicido”. Saudações, Zeca Baleiro, você a bordo do vapor barato, de Jards Macalé e Waly Salomão. Sejamos modernos. Quem sabe Damares aceita um de nós como namorado? Eu, pela idade e amor ao belo, como Vinicius, o poeta, estou fora! Talvez, o Moro tope. O que ele não faria para eleger-se presidente, em 2022?
No dia 10 de fevereiro de 1980, estive no Colégio Sion, em Higienópolis, São Paulo. Aos 35 anos de idade, há quinze já lutava pensando implantar o socialismo democrático no Brasil. Depois de tantas ações contra a ditadura, as pessoas ali engajadas e presentes, faziam-me parecer possível diminuir a desigualdade econômica e cidadã do País.
Poucas semanas antes, ali perto da Faculdade de Filosofia da USP, rua Maria Antônia, entre a Vila Nova e a praça Leopoldo Froes, estivera no famoso “Bar sem Nome”, do Agostinho, junto ao meu amigo de GV, Bira, e os colegas de FAU, Chico Buarque e Maranhão. Cantamos e bebemos, o que queriam de nós?
Começamos e, de 1980 a 2003, vocês sabem o quanto foi difícil. Mas, concessões aqui, ali e acolá, certa “Carta aos Brasileiros” tangenciou o Acordo Secular de Elites, e o Partido dos Trabalhadores (PT) ganhou as eleições. Lula se tornou presidente da República. Recebeu a faixa em lance caricato, não sei se dele ou de Fernando Henrique Cardoso, este terminando seu segundo mandato.
Alguém estava nervoso naquele momento. As circunstâncias faziam histórico o significado do entrar e sair. Tanto em 2018, se Lula não tivesse sido preso para não concorre, como poderá vir a ocorrer, em 2022, Lula eleito, não acredito que o Regente Insano Primeiro (RIP) teria a mesma dignidade de FHC. Aposto que não.
Não fosse o golpe que alijou Dilma Rousseff de seu mandato, conquistado pelo voto popular sobre Aécio Neves, e assumido seu vice na chapa, o traíra espinhoso, Michel Temer, Jair Bolsonaro vencedor, Dilma, mesmo dilacerada, passaria a faixa a ele, embora como nós, conscientes do crime inafiançável cometido pelos que votaram no capitão mal reformado.
Pelo menos, vergonhas não estaríamos passando. Do outro lado, tínhamos um professor de bons estudos, índole e educação, e não alguém com 28 anos de inatividade política, e declarações toscas, misóginas e racistas.
Mas, dizem, vivemos um regime democrático, onde a vontade popular se expressa pelo voto. Com todas as revelações do Intercept, evidências mostradas por jornalistas honestos, que não entregam suas opiniões por dinheiro ou medo, chegamos ao caos e às trevas, de que, na minha opinião, levaremos décadas para sair.
E qual o imaginário coletivo que, inculcado pelo tripé rentistas-mídias convencionais-seitas religiosas várias, domina o acomodamento de, digamos, nas minhas amostragens, metade da população brasileira?
Pergunte a quem empresário, está empregado, ou vive de ‘empreenduberismo’ como estão suas vidas depois de um ano do governo Bolsonaro? Ouvirão, na sequência:
“Alguns índices mostram que a economia está melhorando, o rombo deixado pelos governos anteriores era muito grande. Precisamos de mais tempo para julgar”.
“Tendo trabalho já está bom. Não vou me queixar. Não dá pra consumir o que consumia antes, mas, graças a Deus recebo meu salário e ainda faço uns bicos”.
“Ué, vou levando. Afinal não vivo de entregar, mano? Hahaha”.
Sugiro, porém, não tentarem comparações. “Mas, entre 2003 e 2016, todos vocês, ricos e pobres, não viveram melhor?”
O imaginário coletivo entrará de sola e responderá: “Sim, mas de que adiantou? Lula e o PT roubaram demais e ainda nos deixaram na situação em que estamos hoje. Quiseram fazer bondades com o chapéu dos outros”.
Volto na parte 6 com o atual poder incumbente. Inté.
Comentários fechados.