5 de junho de 2026

O neoliberalismo e a virtude niveladora da guerra

Enquanto era travada nos campos de batalha distantes das principais cidades européias ou nas colônias africanas, asiáticas e americanas, de qualquer maneira sempre longe dos olhos dos moralistas burgueses, católicos e protestantes, a guerra foi  tratada como algo bom e desejável. A guerra podia ser justa e até santa (como foram as cruzadas), mas raramente era considerada um mal desnecessário.

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A partir do momento que a guerra retornou às cidades  – as guerras antigas visavam o assédio, invasão e saque da cidade inimiga – os burgueses, católicos e protestantes passaram a ter um horror ao conflito armado. Não necessariamente por causa das mortes e mutilações que ele provoca e sim porque a guerra moderna tem um grande potencial para destruir aquilo que o burguês mais ama: seu capital, sua propriedade e, consequentemente, a hierarquia social.

O capitalismo é um regime que produz concentração de renda e hierarquia social. Num país capitalista raramente os mais pobres conseguem ascender aos cargos públicos mais importantes e quando isto ocorre  eles se tornam vítimas de perseguições implacáveis (caso de Lula, por exemplo). Este abismo entre ricos e pobres e entre o Estado e a esmagadora maioria dos cidadãos está crescendo nos países que se tornaram neoliberais.

Nesse contexto de separação absoluta entre capital e trabalho é possível ver na guerra moderna uma nova virtude. Desde que o Estado renunciou a arrecadar tributos dos ricos e deixou de ser um mediador dos conflitos de distribuição da riqueza mediante a criação e aplicação de Leis trabalhistas, previdenciárias e sociais, somente a guerra é capaz de produzir o nivelamento político, social e econômico que tanto repugna aos defensores do capitalismo e do neoliberalismo.​

O que vimos pela televisão durante a Guerra do Golfo não foi um show pirotécnico de luzes e de explosões e sim destruição de riqueza acumulada nos prédios, palácios e empresas públicas e privadas que foram bombardeadas. No dia seguinte, momento obviamente não visto pelos telespectadores, os senhores daquele capital foram obrigados a se deparar com a realidade: eles estavam mais pobres, alguns deles provavelmente se tornaram tão pobres quanto seus empregados.

Russos, europeus, chineses e japoneses sabem bem o que a guerra moderna significa, pois diversas cidades deles foram estropiadas ou completamente destruídas durante a II Guerra Mundial. Os bilionários e milionários norte-americanos e latino-americanos, porém, ainda não tiveram a oportunidade de saborear o gosto amargo da aniquilação do capital e da destruição da hierarquia social que acompanha uma guerra mecanizada. Como eles são adeptos do neoliberalismo e querem transformar seus empregados em escravos sem direitos trabalhistas, previdenciários, eleitorais e sociais, talvez tenha chegado o momento de rezar não pela paz e sim por uma guerra mundial que produza o nivelamento político, econômico e social tão indesejado pela elite dos EUA, Brasil, Argentina, Venezuela, etc…

Durante as manifestações contra Dilma Rousseff, fomos obrigados a ver alguns burgueses neo-escravocratas batendo panelas que raramente usam. Seria agradável vê-los batendo-as diante das pilhas de escombros em que seus prédios de apartamentos e mansões foram transformadas por bombardeios aéreos, por mísseis de curto ou médio alcance ou, ainda, pelas granadas disparadas por peças de artilharia a dezenas de quilometros de distância. Mais agradável ainda seria ver a destruição total dos prédios dos bancos e das empresas de comunicação que instigaram o golpe de 2016 e lucraram bilhões de reais com a chegada de Michel Temer à presidência.

A guerra política que os ricos fazem aos pobres na Europa, nos EUA e no Brasil, se tornará impossível quando eles mesmos forem reduzidos à mais abjeta pobreza por uma guerra mecanizada. Portanto, doravante rezarei não pela paz e sim por uma guerra mundial. Alea jact est… cansei do tradicional “pax vobiscum” agora recitarei “societatis pax hominibus miseria est bellum” todas as noites.

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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