Enquanto era travada nos campos de batalha distantes das principais cidades européias ou nas colônias africanas, asiáticas e americanas, de qualquer maneira sempre longe dos olhos dos moralistas burgueses, católicos e protestantes, a guerra foi tratada como algo bom e desejável. A guerra podia ser justa e até santa (como foram as cruzadas), mas raramente era considerada um mal desnecessário.
A partir do momento que a guerra retornou às cidades – as guerras antigas visavam o assédio, invasão e saque da cidade inimiga – os burgueses, católicos e protestantes passaram a ter um horror ao conflito armado. Não necessariamente por causa das mortes e mutilações que ele provoca e sim porque a guerra moderna tem um grande potencial para destruir aquilo que o burguês mais ama: seu capital, sua propriedade e, consequentemente, a hierarquia social.
O capitalismo é um regime que produz concentração de renda e hierarquia social. Num país capitalista raramente os mais pobres conseguem ascender aos cargos públicos mais importantes e quando isto ocorre eles se tornam vítimas de perseguições implacáveis (caso de Lula, por exemplo). Este abismo entre ricos e pobres e entre o Estado e a esmagadora maioria dos cidadãos está crescendo nos países que se tornaram neoliberais.
Nesse contexto de separação absoluta entre capital e trabalho é possível ver na guerra moderna uma nova virtude. Desde que o Estado renunciou a arrecadar tributos dos ricos e deixou de ser um mediador dos conflitos de distribuição da riqueza mediante a criação e aplicação de Leis trabalhistas, previdenciárias e sociais, somente a guerra é capaz de produzir o nivelamento político, social e econômico que tanto repugna aos defensores do capitalismo e do neoliberalismo.
O que vimos pela televisão durante a Guerra do Golfo não foi um show pirotécnico de luzes e de explosões e sim destruição de riqueza acumulada nos prédios, palácios e empresas públicas e privadas que foram bombardeadas. No dia seguinte, momento obviamente não visto pelos telespectadores, os senhores daquele capital foram obrigados a se deparar com a realidade: eles estavam mais pobres, alguns deles provavelmente se tornaram tão pobres quanto seus empregados.
Russos, europeus, chineses e japoneses sabem bem o que a guerra moderna significa, pois diversas cidades deles foram estropiadas ou completamente destruídas durante a II Guerra Mundial. Os bilionários e milionários norte-americanos e latino-americanos, porém, ainda não tiveram a oportunidade de saborear o gosto amargo da aniquilação do capital e da destruição da hierarquia social que acompanha uma guerra mecanizada. Como eles são adeptos do neoliberalismo e querem transformar seus empregados em escravos sem direitos trabalhistas, previdenciários, eleitorais e sociais, talvez tenha chegado o momento de rezar não pela paz e sim por uma guerra mundial que produza o nivelamento político, econômico e social tão indesejado pela elite dos EUA, Brasil, Argentina, Venezuela, etc…
Durante as manifestações contra Dilma Rousseff, fomos obrigados a ver alguns burgueses neo-escravocratas batendo panelas que raramente usam. Seria agradável vê-los batendo-as diante das pilhas de escombros em que seus prédios de apartamentos e mansões foram transformadas por bombardeios aéreos, por mísseis de curto ou médio alcance ou, ainda, pelas granadas disparadas por peças de artilharia a dezenas de quilometros de distância. Mais agradável ainda seria ver a destruição total dos prédios dos bancos e das empresas de comunicação que instigaram o golpe de 2016 e lucraram bilhões de reais com a chegada de Michel Temer à presidência.
A guerra política que os ricos fazem aos pobres na Europa, nos EUA e no Brasil, se tornará impossível quando eles mesmos forem reduzidos à mais abjeta pobreza por uma guerra mecanizada. Portanto, doravante rezarei não pela paz e sim por uma guerra mundial. Alea jact est… cansei do tradicional “pax vobiscum” agora recitarei “societatis pax hominibus miseria est bellum” todas as noites.
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