5 de junho de 2026

Braga Netto, investimento e teto. Estranho, mas bom, por Gilberto Maringoni

Braga Netto transforma Guedes em gado (mais poesia!). Guedesgado. O desenvolvimento farda mas não talha, diria Millôr.

Braga Netto, investimento e teto. Estranho, mas bom

por Gilberto Maringoni

É muito positivo que Braga Netto, general-interventor no Rio à altura do assassinato de Marielle Franco, tenha apresentado o Programa Pró-Brasil. Trata-se de um amontoado de lampejos keynesianos contracíclicos num governo constituído por gente que tem como projeto estratégico reconstituir as dez pragas do Egito ao mesmo tempo. É um importante contraponto à atuação de Paulo Guedes e seus jagunços da alta finança.

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Braga Netto – com a perspicácia de quem não conseguiu esclarecer o mais impactante crime de sangue da década, mesmo com plenos poderes à disposição – no dia seguinte alerta: “Mas não se toca no teto de gastos”.

Fico estupefacto, com encontro consonantal e tudo. Repito mentalmente “não se toca no teto, diz Netto”. “Toca teto, netto”. Uma aliteração, uma sonoridade de poesia concreta, uma onomatopéia verbal percutindo nos salões palacianos. Quase um hai-cai. Tocatetonetto. Braga Netto tem talentos a mim totalmente desconhecidos. Um bardo desperdiçado, alguém a quem sobra farda mas ainda falta fardão de Academia.

Braga Netto é neto com dois tês. Nunca entendi essas consoantes duplas em nomes reluzentes. “Netto toca teto, tê com tê”. Repito nettotocatetotecomtê. Sonoro, gruda na cabeça e repito nettotocatetotecomtê! Um achado, um Virgílio de nome exótico, com um plano fulgurante. Aumento exponencial de investimentos, destravamento obras paradas, geração de empregos sem toque no teto, sem aumento de investimentos.

É bom? É ótimo! Mais do que nada, a iniciativa de Braga Netto desloca importante personagem de sua zona de conforto. Braga Netto transforma Guedes em gado (mais poesia!). Guedesgado. O desenvolvimento farda mas não talha, diria Millôr. E a farda deixa de ser fardo (lirismo, lirismo…).

O incômodo de Braga Netto expõe o incômodo da roubada em que as FFAA se meteram ao se aliarem às milícias para voltar ao poder. Braga Netto quer ser o Geisel do II PND em aliança com a turma dos porões, para viabilizar um neoliberalismo com garantia da lei e da ordem. Mas é bom. Gelo quente, silêncio ensurdecedor, água seca e investimento sem gasto, tá valendo. Dane-se a lógica, pau no financismo.

O melhor de tudo é ver Guedes virar gado e Saschida ser chamado de salsicha.

Gilberto Maringoni

Gilberto Maringoni de Oliveira é um jornalista, cartunista e professor universitário brasileiro. É professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, tendo lecionado também na Faculdade Cásper Líbero e na Universidade Federal de São Paulo.

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3 Comentários
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  1. AMORAIZA

    23 de abril de 2020 8:20 pm

    Delícia de post!
    Mas se “a farda deixa de ser fardo” para o fardado, o fardo da farda para o povo farto ainda se avizinha. A ditadura, essa avezinha, parece ainda respirar e esvoaçante, se eleva altiva a meter seu bico na bica do poder (jardim florido)
    E tome poesia!
    Fazer o quê, neste momento solene?
    Braga Netto, com dos tês, apenas devolve o guedesgado ao seu posto original e sendo Braga Netto um general com dois tês é, pois, filho de braga, neto de braga e bisneto de braga, por isso os dois tês.
    Sobre a intenção do general em promover o desenvolvimento “sem tocar no teto”, em homenagem ao viciante hai kai ““não se toca no teto, diz Netto”, “Toca teto, netto” digo que o general, mesmo que não queira, vai tocar o teto, nem que seja com os seus chifres.
    No mais, razão se dê ao mestre e indesmentível Millor “O desenvolvimento FARDA mas não talha”

  2. jcordeiroas

    23 de abril de 2020 11:54 pm

    Nassif: em tempo de Coronavirus parece que os VerdeSauvas ficaram sem cachorro e sem mato. Mas isto não será empecilho para que continuem bajulando a elite e os governos estrangeiros a quem servem como brilhante desempenho. Dizem até que estão pensando em trocar um capitão por um cabo. Nessa toada, vão botar um soldado de pré para candidato em 2022. E hái de quem os contrariem. A bala tem sempre razão… Por isso, pouco importa o nome

  3. Rui Ribeiro

    24 de abril de 2020 1:22 am

    Para Keynes e Kalecki, o nível de investimento depende da expectativa de demanda efetiva e da eficiência marginal do capital, isto é, da taxa de lucro do capital investido. Por seu turno, a demanda efetiva depende dos gastos (em investimento e/ou consumo). Ora, os capitalistas não decidem quanto vão ganhar, mas decidem o quanto vão gastar (em investimento e em consumo). Logo, é a dona dos gastos que determina a renda, e não o inverso. Portanto, quanto mais elevados os gastos (em investimento e consumo), mais elevados o emprego e a renda e, inversamente, quanto menores os gastos, mais reduzidas a renda e o emprego.

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