9 de junho de 2026

“Antonico”, por Rui Daher

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por Rui Daher

Sou um pouco tímido. Depois de velho, poucas vezes aderi a multidões. Frequentava estádios de futebol, shows em praças públicas, passeatas, comícios, manifestações e Carnaval. Amigos e primos brincavam comigo por sempre carregar um guarda-chuva para autodefesa. Em minha última aparição, na Avenida Paulista, para juntar-me ao amigo Fernando Juncal, lá fui eu artefato em riste para eventual ataque da armada de Geraldo, o chuchu mais esperto. No lugar de dar mais do que em pé-de-serra, ele come. Confere, José Serra?

Gostei de ver a folia paulistana nas ruas. Fiquei invejoso de não participar de algum bloco. Mas que pode dar em merda, isto pode. E deu.

Logo no início do BRD, Blog-Boteco Rui Daher, esperançoso de algum faturamento, contratei dois repórteres, Nestor e Pestana. Me ajudariam nas entrevistas com os candidatos a prefeito. Bem, quem leu, leu, quem não ainda pode se lamber.

Nestor era o criador de casos violentos e quem sempre dormia ao se debruçar sobre uma matéria. Pestana, mais equilibrado, e eu ficávamos por conta de amenizar seus disparates.

Pois bem, Nestor, acho que nunca o descrevi, é preto, cabelos e barba crespos e grisalhos, e cultiva hábitos etílicos mais pesados, o que lhe traz uma lucidez ímpar e algumas internações em hospitais públicos. Mora no Tatuapé, desfilou na Acadêmicos, e sofreu acidente sério. Na quadra, comemorando a vitória, deu-lhe um troço e entrou em coma.

Das orações, poucas, que lembro da época dos beneditinos já fiz todas, nas demais peço ajuda aos amigos leitores. Mas tem uma que nunca esquecerei.

Ô Antonico, vou lhe pedir um favor que só depende de sua boa vontade”.

Santo Antônio, sempre me dei bem com o senhor, apesar do ciúme de São Bento. Lembro-me de ir ao Largo do Patriarca, levado por minha mãe, a buscar pães em sua igreja. Daí saber de sua boa vontade.

“É necessário uma viração para o Nestor que está vivendo em grande dificuldade”

Senhor, não se trata apenas do acidente. Apesar de sua imensa habilidade com a escrita, ele nunca parou em empregos regulares na imprensa. Não abria mão de suas convicções, agressividade e modo de vida. Sabe, aquilo de chegar na hora, dizer não quando queriam que escrevesse de graça, preferia se endividar em bancos, com amigos, a baixar as calças para patrões gananciosos.

“Ele está mesmo dançando na corda bamba”.

Fui visitá-lo. Eu mais o Pestana. A mulher dele jurou que no dia do desfile ele não tinha bebido nada. Quando chegamos ela ainda estava com a fantasia de baiana.

“Ele é aquele que na escola de samba toca cuíca, toca surdo e tamborim”.

No dia do desfile, preferira não participar da bateria. Disse à mulher que queria se soltar. Se bobeassem, entrecortaria a letra do samba-enredo com gritos de “Fora Temer”. Eu e Pestana temos certeza de que o fez.

“Faça por ele como se fosse por mim”.

Não riam, por favor. Recebi muitos favores na vida. Se foram se esgotando, é porque muito não tenho ajudado. Ainda mais depois que o Datafolha descobriu que os ricos têm dinheiro por serem ajudados por Deus.

“Até muamba já fizeram pra o rapaz, por que no samba ninguém faz o que ele faz”.

Verdade. Quando chegamos no hospital uma multidão negra, mulata, branca, homens e mulheres fantasiados ou seminus, crianças enfeitadas, acendiam velas e jogavam flores para os médicos e enfermeiras que de lá entravam ou saíam. Um perfume de angélicas poderia ser detectado até por câmeras de segurança. Eu juro ter visto Darcy Ribeiro me chamando e depois se perder atrás de uma passista.

“Mas hei de vê-lo bem feliz, se Deus quiser”.

É o que todos nós queremos. Fiz promessa de pagar o 13º atrasado. Pestana é testemunha e ofereceu o dele. Tantas matérias para ele escrever. Insistia para que eu permitisse escrever uma sobre o que vai na cabeça do novo ministro do STF e contar a história de uma conversa que ouviu entre Doriana Júnior e Paulo Escafedeu.

“E agradeço pelo que você fizer, meu senhor”.

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Rui Daher

Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor

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  1. Odonir Oliveira

    5 de março de 2017 1:20 pm

    Querido Rui, aqui estão umas leituras de versos para o Nestor

    Quem sabe lhe façam algum bem …

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=lWSR–Rfm3A%5D

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=kTd4ePTnA70%5D

     

  2. ze sergio

    5 de março de 2017 3:07 pm

    antonico….

    Sr. Rui, parabéns à Tatuapé, mas garfaram a minha Dragões. Espetáculo sem igual, todos diziam. Coisas da máfia que controla desde o governo de SP, ao monopólio da TV, ao MP/SP e outras facções de “gângsters”. Mas ano que vem Independente e Dragões. Avalanche Tricolor. E ainda tem gente que quer comparar time e torcidas?! Quanto ao ufanismo, não é religião, é enxergar como as coisas são simples de serem resolvidas e não são. Independente das ideologias que parasitam o Orçamento Público. Aliás parasitar o Orçamento Público é toda a questão, não é mesmo Darcy Ribeiro? Uma vida inteira criticando o uso do Estado e do Orçamento que sempre o sustentou. E todas as amizades que um “homem do povo” pode ter: Presidentes, Ministros, Governadores… Mas fora uma meia dúzia, o restante dos 200 milhões de brasileiros já entenderam, Elites são sempre os outros. Quero democracia de verdade. Não voto obrigatório em urna eletrônica em pleito de 250 milhões de reais a cada 2 anos, para eleger o Prefeito das maiores cidades do Mundo para tratar de poda de árvores. Burocracias, incompetências, desleixo, ditadura e multas para podar uma árvore na porta de casa. Em cidades, todas, com Secretárias do Meio Ambiente. Então vem a Cia. de Energia e destrói completamente a tal na sua porta. E todos se calam. Quanto ao agronegócio, não é política de Estado para bem estar social. Mas produz tal resultado de forma muito mais competente que politicas públicas. Basta ver a miséria do interior do CE, BA, MA, PI e a transformação a partir da chegada da agropecuária extensiva. Deve ser apenas um mecanismo de trabalho e renda para brasileiros que vivem no campo. A ideologização só atrapalha. Mas sem atrapalhar, como justificar salários e pensões nababescas no Poder Público?  O povo vai se tocar e esta gente vai ter que ralar para ter salário, não é mesmo povo das ideologias? Nosso terríveis problemas de 2017 são exatamente os mesmos de 1980, quando do retorno da pseudo-democracia. Mesmos problemas mas soluções diferentes. Os jovens assassinados em Pedrinhas, Alcaçuz ou  RR foram protagonistas destas bárbaries pelas atitudes das pessoas que comandaram este país nestes 30 anos. Tempo maior que a idade da maioria deles. Não aceitarei as desculpas nem subterfúgios de quem defende este período, nunca. Incompetentes e corruptos, impedindo mecanismos verdadeiramente democráticos. Todos. Das ideologias às biografias. (P.S. Quanto às commodities, o mundo vai deixar de comer? Pode ficar sem internet, sem carro, sem celular. Mas sem água e comida? O Brasil não entendeu, mas temos aí uma inversão. São eles que precisam de nós e não o contrário. Podemos produzir celulares, carros e comida. Será que eles podem?) abs. 

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