“Antonico”, por Rui Daher

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por Rui Daher

Sou um pouco tímido. Depois de velho, poucas vezes aderi a multidões. Frequentava estádios de futebol, shows em praças públicas, passeatas, comícios, manifestações e Carnaval. Amigos e primos brincavam comigo por sempre carregar um guarda-chuva para autodefesa. Em minha última aparição, na Avenida Paulista, para juntar-me ao amigo Fernando Juncal, lá fui eu artefato em riste para eventual ataque da armada de Geraldo, o chuchu mais esperto. No lugar de dar mais do que em pé-de-serra, ele come. Confere, José Serra?

Gostei de ver a folia paulistana nas ruas. Fiquei invejoso de não participar de algum bloco. Mas que pode dar em merda, isto pode. E deu.

Logo no início do BRD, Blog-Boteco Rui Daher, esperançoso de algum faturamento, contratei dois repórteres, Nestor e Pestana. Me ajudariam nas entrevistas com os candidatos a prefeito. Bem, quem leu, leu, quem não ainda pode se lamber.

Nestor era o criador de casos violentos e quem sempre dormia ao se debruçar sobre uma matéria. Pestana, mais equilibrado, e eu ficávamos por conta de amenizar seus disparates.

Pois bem, Nestor, acho que nunca o descrevi, é preto, cabelos e barba crespos e grisalhos, e cultiva hábitos etílicos mais pesados, o que lhe traz uma lucidez ímpar e algumas internações em hospitais públicos. Mora no Tatuapé, desfilou na Acadêmicos, e sofreu acidente sério. Na quadra, comemorando a vitória, deu-lhe um troço e entrou em coma.

Das orações, poucas, que lembro da época dos beneditinos já fiz todas, nas demais peço ajuda aos amigos leitores. Mas tem uma que nunca esquecerei.

Ô Antonico, vou lhe pedir um favor que só depende de sua boa vontade”.

Santo Antônio, sempre me dei bem com o senhor, apesar do ciúme de São Bento. Lembro-me de ir ao Largo do Patriarca, levado por minha mãe, a buscar pães em sua igreja. Daí saber de sua boa vontade.

“É necessário uma viração para o Nestor que está vivendo em grande dificuldade”

Senhor, não se trata apenas do acidente. Apesar de sua imensa habilidade com a escrita, ele nunca parou em empregos regulares na imprensa. Não abria mão de suas convicções, agressividade e modo de vida. Sabe, aquilo de chegar na hora, dizer não quando queriam que escrevesse de graça, preferia se endividar em bancos, com amigos, a baixar as calças para patrões gananciosos.

“Ele está mesmo dançando na corda bamba”.

Fui visitá-lo. Eu mais o Pestana. A mulher dele jurou que no dia do desfile ele não tinha bebido nada. Quando chegamos ela ainda estava com a fantasia de baiana.

“Ele é aquele que na escola de samba toca cuíca, toca surdo e tamborim”.

No dia do desfile, preferira não participar da bateria. Disse à mulher que queria se soltar. Se bobeassem, entrecortaria a letra do samba-enredo com gritos de “Fora Temer”. Eu e Pestana temos certeza de que o fez.

“Faça por ele como se fosse por mim”.

Não riam, por favor. Recebi muitos favores na vida. Se foram se esgotando, é porque muito não tenho ajudado. Ainda mais depois que o Datafolha descobriu que os ricos têm dinheiro por serem ajudados por Deus.

“Até muamba já fizeram pra o rapaz, por que no samba ninguém faz o que ele faz”.

Verdade. Quando chegamos no hospital uma multidão negra, mulata, branca, homens e mulheres fantasiados ou seminus, crianças enfeitadas, acendiam velas e jogavam flores para os médicos e enfermeiras que de lá entravam ou saíam. Um perfume de angélicas poderia ser detectado até por câmeras de segurança. Eu juro ter visto Darcy Ribeiro me chamando e depois se perder atrás de uma passista.

“Mas hei de vê-lo bem feliz, se Deus quiser”.

É o que todos nós queremos. Fiz promessa de pagar o 13º atrasado. Pestana é testemunha e ofereceu o dele. Tantas matérias para ele escrever. Insistia para que eu permitisse escrever uma sobre o que vai na cabeça do novo ministro do STF e contar a história de uma conversa que ouviu entre Doriana Júnior e Paulo Escafedeu.

“E agradeço pelo que você fizer, meu senhor”.

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