22 de junho de 2026

Suspiro, por Wilson Ramos Filho

Não há cloroquina que resolva o descrédito do aparato repressivo nacional. Eles sabem disso. Eram onipotentes como o desembargador paulista, rasgando a legalidade.

Suspiro

por Wilson Ramos Filho (Xixo)

Nesses tempos de muitas perdas de entes queridos em decorrência das duas pandemias (do vírus e da estupidez) falar em morte beira o mau gosto. Mas é inevitável. Ela está, como uma cinzenta névoa, ubíqua, em nosso cotidiano.

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Todos conhecemos relatos de alguém que aparentava melhora, renovando esperanças entre os seus, antes de falecer. Não há explicação científica para o fenômeno. A perda, nesses casos, vem acompanhada da surpresa. Estava melhorando, com energia e, de repente, se foi. Expirou.

Não se sabe a razão, mas acontece com frequência.

A moribunda Lava-Jato, desmoralizada, pilhada em dezenas de denúncias, como último suspiro, aparenta recuperação. Ou tenta. Volta-se até contra aliados a quem não convém melindrar, como disse Moro em uma das conversas com Deltan, investigando cardeais tucanos.

A Direita Concursada se inquieta. Antes onipotente, teme que seu marqueteiro bordão se efetive. A lei é para todos. Apavoram-se diante da possibilidade de punição aos procuradores filhos de Januário com pouco reputada progenitora. Tentam alguma sobrevida. Alimentam a vultúrica imprensa com midiáticas operações requentadas, abutres, envolvendo governadores para justificar suas competências funcionais, realimentando indignações moralistas, para desacreditar os políticos e a política. Tenta, à beira da morte, repaginar o figurino justiceiro. Aparenta melhora às vésperas de previsível velório, pintura negra de um atormentado Goya.

Esperneiam. Seus crimes estão sendo desvendados pela disputa entre facções. Seus arquivos foram compartilhados com a banda rival. O stf tende a anular dezenas de processos ao reconhecer desmandos na condução dos inquéritos e nos julgamentos. Delações obtidas mediante extorsão e ameaças devem ser invalidadas como provas. A suspeição de Moro já não pode ser escondida. O repasse de informações sigilosas, de interesse nacional, a outros países, traição, de fato, constitui motivo suficiente para apenamentos e para desequilibradas reações de seus acadelados agentes.

O lavajatismo produziu na credibilidade do poder judiciário e no ministério público federal efeito socialmente similar ao vislumbrado nas forças armadas pela incompetência da intervenção militar no ministério da saúde. O desconforto é evidente. O Brasil foi desmoralizado pelo hipócrita discurso moralista.

Não há cloroquina que resolva o descrédito do aparato repressivo nacional. Eles sabem disso. Eram onipotentes como o desembargador paulista, rasgando a legalidade. Não há mais como pedir morísticas escusas. Agiram como bandidos confiando na leniência corporativa. Não contavam, todavia, com as consequências da vaidade exacerbada que fez rachar a unidade simbólica entre Moro e Bolsonaro. Eram uma coisa só, como afirmou a conja. As revelações das relações obscenas, indecentes, dentro do aparato repressivo desnudaram as relações espúrias entre lavajatistas e bolsonaristas.

As guardas municipais, as milícias, as polícias militares, também se viam como onipotentes, blindadas, podiam tudo. Sob Bolsonaro sentiram-se autorizadas a matar, a espancar, a constranger seus adversários e suas vítimas. Espelharam-se no lavajatismo. Podem tudo. Assim como a Direita Concursada, sentem-se superiores. Assim como os mais de seis mil militares que ocupam funções no governo federal, entendem-se inexpugnáveis. Assim como os genocidas em outras latitudes e em outros momentos históricos, não contam com a possibilidade de serem futuramente julgados por seus atos. A história não lhes ensina. Negam-na. Vai dar em nada, presunçosos, supõem. Ou supunham.

A saúde do monstro do autoritarismo boçal, com características franquistas e fascistas, parece hígida durante a pandemia de estupidez iniciada em 2013 e para a qual inexiste vacina eficiente. É só aparência, todavia. Cedo ou tarde a sociedade gerará anticorpos para enfrentá-la, para debelá-la. A história jamais expira, suspira e não acaba.

Na guerra de facções no ministério público federal e na disputa hegemônica entre as antagônicas alas no stf, a retomada do ativismo punitivista se assemelha à melhora que antecede à morte? A resposta a essa indagação situa-se envolta nas brumas onde transitam os desejos e as análises que se pretendem objetivas, inviáveis vaticínios descomprometidos. Suspiremos.

Wilson Ramos Filho (Xixo), doutor em direito, preside o Instituto Defesa da Classe Trabalhadora

#MoroNaCadeia
#ForaLavajato
#ForaBolsonaro

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