
Em 2009, enquanto o mundo tentava se desvencilhar de uma crise gigantesca, o Brasil festejava enormes conquistas sociais recém-conseguidas, e grandes a ponto de sustentar o crescimento econômico do país em meio ao maremoto financeiro que alvoroçava todo o planeta. Depois de 500 anos, tínhamos finalmente entrado nos trilhos e, em reconhecimento, ganhávamos o direito de sediar as duas grandes festas esportivas mundias, os dois eventos mais populares no mundo. A conquista era significativa, as olimpíadas nunca haviam sido realizadas na América do Sul e tal ocorrência decorria da constatação de que as coisas iam muito bem por aqui.
Havia algo além disso, podia-se sentir, muito claramente, um espírito de otimismo e de cooperação que se manifestava não só no país, mas fora dele. No mundo inteiro expunha-se uma visão colorida do Brasil, alardeava-se uma exuberância econômica em nossas terras, contrastando com o pessimismo mundial momentâneo. Confesso que, na época, eu via certo exagero nas descrições do país, mas compreendi o quanto os sonhos e crenças influenciam a realidade. Explicarei.
Por volta de 2009; o Brasil ganhou destaque mundial; saía nas boas manchetes dos jornais do mundo. Noticiavam-se as conquistas sociais locais, o crescimento econômico. Gerou-se um clima de otimismo que favorecia investimentos. O turismo estava em alta…
O Brasil é um país peculiar, tem muitas riquezas. Isso parecerá clichê ufanista, mas o Brasil deve ser o país mais rico do mundo, talvez, muito mais que o segundo. Temos aqui, entre outros recursos, o monopólio de minerais como o nióbio, a matéria-prima dos supercondutores, e do manganês. Mas, nossa maior riqueza é sem dúvida a água, o mais precioso de todos os bens, e tão abundante aqui que não percebemos o seu valor. A quantidade de água por aqui é tão constrangedora que os dados internacionais sobre ela aparecem deturpados. Confiram a seguinte curiosidade: todos os relatórios sobre reservas de águas mundias igualam água corrente e parada. Avalia-se igualmente um rio, uma geleira e um lago. Equipara-se a água contida em uma represa àquela que corre em um rio, sempre se renovando; é como comparar uma quantidade fixa de dinheiro com uma renda mensal. Isso acontece porque uma parcela imensa da água do mundo inteiro corre em nossas terras. A situação é tão gritante que os departamentos de “defesa” de países imperialistas omitem os dados relativos ao Brasil em seus relatórios abertos sobre o tema, fato preocupante, aliás. (Fico pensando no preço de um litro d’água, fora daqui, e na quantidade de água embutida nos produtos exportados daqui).
Então, o país tem abundância de água, de sol e energia, de terras, e de mão de obra. Bastaria agregar a isso uma quantidade de capital, umas ideias, uns projetos, e se obteria uma produção imensa. Esse potencial do país é gigantesco e estava em vias de ser explorado. Bastaria ter alardeado que ele existia, mostrado sua exuberância, a fartura inexplorada, atraído investimentos e colhido os frutos que teriam brotado em abundância. Estava tudo pronto, só faltavam os sonhos, a propaganda, e era isso que as festas esportivas prometiam. Ou seja: estava tudo engatilhado, pronto para acontecer!
Mas antes que os sonhos se concretizassem, uma sombra tenebrosa se acercou desenterrando antigas forças postas à margem com os novos ventos e ressentidas com as mudanças. Os antigos feitores ressurgiram de suas tumbas, os mesmos que haviam sido encarregados de manter o povo sob o jugo da ignorância e da opressão durante séculos.
Somos um país muito atrasado, essa palavra nos descreve com precisão. Somos extremamente ignorantes, como os povos de outros países deixaram de ser em outros séculos. Nossas escolas surgiram milênios depois das de outras terras; mesmo na América do Sul, universidades haviam surgido séculos antes das nossas; sempre fomos muito mais ignorantes até que nossos vizinhos. Nossa “elite” pensa como se pensava em séculos anteriores, vive em outra era.
Acredito que esses antigos feitores tenham sido convocados a restabelecer os velhos grilhões em represália à ousadia que consistiu na aproximação do país com os BRICS.
Melaram tudo.
Se a boa vontade para com o país tivesse sido mantida, se a propaganda se mantivesse favorável aos investimentos, e se os preços dos produtos brasileiros não tivessem sido derrubados, o país estaria explorando o potencial descrito acima, teria crescido uma enormidade e, mais que tudo, teria tirado da miséria e da pobreza um contingente populacional sem precedentes.
Essas olimpíadas deveriam estar sendo a consagração de um enorme sucesso, a comemoração de uma realização recente de um povo em vias de libertação; bastaria ter mantido a propaganda internacional, os bons ventos.
Indignadíssimos ante tal possibilidade, no entanto, insultados por ela, os antigos feitores, respaldados pelas forças mais cruéis e mesquinhas existentes no planeta, iniciaram forte coro para impedir tal consagração, que acabaria por permitir que o país finalmente se firmasse sobre suas próprias pernas.
Fizeram uma lambança.
O dado econômico mais surpreendente sobre o país, nessa época, penso, consiste no aumento da produção, apesar da derrubada violenta de preços. Apesar de preços aviltadíssimos, o país continuava a crescer a passos largos, demonstrando o vigor intenso da infraestrutura previamente montada. Isso está sendo jogado no lixo. Estamos sendo direcionados para um enorme buraco.
Apesar das críticas frequentes relativas ao seu potencial alienador e outros, os esportes e as olimpíadas têm alguns papéis interessantes. Além de incentivar a prática de esportes, recomendação salutar, as olimpíadas permitem que se façam determinadas avaliações.
Podemos ver, com clareza, as fortes evidências do crescimento chinês e asiático. Apenas uns 20 anos atrás, a participação asiática era apenas secundária nos jogos, raramente viam-se asiáticos disputando medalhas. Nesses jogos, os chineses devem continuar ampliando a vantagem que já demonstram sobre os EUA há alguns anos (nesse momento, os americanos estão ganhando de 20 a 13, mas esperemos). Esse fato ilustra com muita clareza o que tem acontecido no mundo em todas as esferas. Note, os chineses superaram os americanos nas competições esportivas americanas. As olimpíadas têm sido moldadas pelos americanos pelo menos desde o fim da segunda guerra. Predominam nela os jogos americanos, como o vôlei e o basquete, e a vasta distribuição de medalhas em piscinas. É na competição delineada pelos EUA que os americanos estão sendo superados pelos chineses. Nas próximas versões dos jogos, se eles continuarem existindo após as mudanças que em breve assolarão o planeta, com a redução da influência dos EUA no mundo, as distorções impostas aos jogos para o favorecimento dos EUA deverão ir sendo retiradas. Diminuirão, por exemplo, as medalhas em piscinas, e serão incorporados esportes asiáticos. Os jogos ganharão novos perfis, novas regras e árbitros, consolidando e ampliando a hegemonia chinesa e sua supremacia sobre os EUA. As “bombas químicas” ingeridas pelos atletas sofrerão controles mais imparciais. Japoneses, coreanos e demais asiáticos seguem no mesmo rastro dos chineses.
Uma utilidade dos jogos consiste em ilustrar o que se passa no mundo. As olimpíadas podem servir de modelo para a análise do que se passa em todas as esferas; a distribuição de medalhas permite que determinadas avaliações sejam efetuadas com clareza e precisão; os jogos constituem uma metáfora muitíssimo ilustrativa.
Com relação ao Brasil, algo análogo vinha ocorrendo. O potencial esportivo brasileiro, assim como o econômico, estava em vias de ser explorado. Tivéssemos mantido a simpatia dos poderosos do mundo e nossos atletas estariam revelando um desempenho surpreendente, colecionando um grande número de medalhas. Nosso potencial esportivo é, certamente maior que o inglês, poderíamos amealhar aqui mais medalhas do que os ingleses em Londres, mas não faremos isso, nossa atuação será decepcionante. (A população brasileira é maior e mais jovem que a inglesa, nosso perfil socioeconômico também nos favorece nos esportes, além de uma possível “vantagem racial”, se tal coisa de fato existir). Mas nossa atuação será um fiasco, apesar de esforços do governo mantidos até pouco tempo. Creio que nossa atuação esportiva será um fracasso em decorrência das mesmas forças que desmantelaram nossa economia e política. O desastre brasileiro nas competições olímpicas resultará da antipatia internacional angariada com a mudança de ventos ocorrida em 2012/13. A divisão interna semeada aqui pelas mesmas forças também terá contribuído para a consolidação do fiasco.
Que lambança, que papelão. Nossos feitores, os responsáveis pelo fracasso, são criaturas muito reles. Se esmeraram até em melar a participação brasileira nos jogos para eliminar o que seria forte propaganda em eleições futuras.
As criaturas nauseantes preferiram melar tudo a perder os privilégios que mantiveram por séculos, em especial o de segurar o chicote. Note que todos ganharíamos, todo o país, inclusive eles. Mas todos perdemos com o desmonte econômico; mas a visão do povo se erguendo, saindo do lamaçal de miséria imposto por eles é demasiado acintosa para tais criaturas.

Mas, já me perco em digressões nebulosas. Comecei essa conversa para enfatizar o que teria sido se não tivéssemos dado azo a forças tenebrosas organizadas longe daqui, e não tivéssemos jogado contra nós mesmos.
Tivéssemos mantido o espírito que nos estava tirando da miséria, que nos permitiu trazer os jogos para o país, e teríamos continuado a crescer economicamente, disparando, com isso, uma recuperação social sem precedentes. Se não tivéssemos passado a jogar contra nós mesmos estaríamos vivendo uma euforia socioeconômica, e nos despedindo de um passado de penúria para o qual voltamos a atolar. Tivéssemos mantido a unidade e estaríamos vibrando eufóricos com a atuação vitoriosa dos atletas brasileiros, a recolher inúmeras medalhas. Ah, e teriam sido os jogos da inclusão.
A desorganização dos jogos, o desinteresse por parte da população, e até o fraquíssimo desempenho dos atletas, toda a falta de brilho que vemos nos jogos decorre de nossa desunião, do fato de termos estado jogando contra nós mesmos. Como somos ingênuos e manipuláveis.
Por um curto tempo, vivemos um sonho. Por um instante, vislumbramos uma condição diferente para nós mesmos e para o país. Por um curto lapso, saboreamos conquistas ao alcance de nossas mãos. Mas jogamos tudo fora, melaram tudo. E agora quase não podemos acreditar que tudo aquilo foi possível, que poderíamos estar participando do mundo como protagonistas. Por um momento ocupamos o centro do palco, tentarão nos fazer esquecer esse fato, tentarão nos convencer de que nada disso existiu, e que nada disso é possível; que sempre fomos e sempre seremos apenas espectadores do grande teatro que se desenrola lá no centro do mundo.
Mas 2009 existiu, e por um instante, quase nos apoderamos de nossos destinos. Mas ainda somos muito ingênuos.
Athos
13 de agosto de 2016 4:28 pmFoi um erro
De Lula.
Dilma tomou um pé na bunda.
E Lula ganhou um cancer, como todos os outros líderes de esquerda da América Latina , exceto Evo.
Celso Carlile
13 de agosto de 2016 6:20 pmA culpa não é dos “feitores”
É mesmo uma obsessão erigir um totem chamado “elite” e jogar nele a culpa de todos os nossos males. Foram então esses tais feitores que liquidaram o bom momento de 2009 porque queria ver o país permanecer pobre e atrasado. Faz sentido isso?
Claro que não! Eram justamente os mais ricos que vinham obtendo os maiores lucros no bom momento da época passada. Dizer que rico quer a recessão e o atraso é uma contradição de termos. Isso é bobagem. O que liquidou com o bom momento que o país vivia em 2009 foi a Nova Matriz Econômica, que substituiu a marco-economia herdada do Plano Real pelos ditames do nacional-estatismo já esgotado desde os anos 80. O resultado não poderia ser outro. Enquanto ainda havia saldo positivo, o país teve um crescimento expressivo no ano de 2010 – ano da eleição de Dilma – mas depois começou a ratear até parar por completo, isso enquanto o resto do mundo se recuprava da crise de então. O eleitorado ainda deu um crédito de confiança a Dilma em 2014, apesar das claras mostras de impaciência sinalizadas em 2013, ma quando ficou claro que Dilma havia mentido, o povo abandonou-a de vez. Foi isso o que aconteceu. A culpa não é de “feitores” nem do mordomo, embora digam que o atual presidente interino tem cara de mordomo.
Clovis 50
14 de agosto de 2016 12:14 pmVi que tem alguns direitista
Vi que tem alguns direitista da elite que se sentiram atingidos pelo seu artigo, são os viúvas do reacionarismo, que jamais se elegerão mesmo com a falta de consciência cidadã que grassa entre os mais necessitados. Mas mesmo eu sendo de esquerda também gostaria de discordar do seu raciocínio. No meu humilde entender o país não deveria ter patrocinado nenhum evento de massa enquanto não se consolidasse no cenário desenvolvimentista (à China), pois isso drena muitos bilhões de reais em detrimento de muitas outras prioridades. Realizar eventos é megalomania desnecessária num país que tem centenas de outras carências.
Outra coisa, foi falar que foi esquecido de divulgar o potencial natural do país, quando na verdade priorizou-se outra: falar de produção de etanol. Vergonha outra vez. Como disse Joseph Stiglitz, o mundo precisa de grãos alimentares e não de etanol, Resumo: foi só erros graves para um governo que se pretendia social.