
por Sebastião Nunes
O milagre aconteceu quando ele chegava aos 78 anos e ela passara dos 90. Bem velhos os dois, podiam estar enterrados e descansados, mas esperaram pacientes para se encontrar no milagre do reconhecimento tardio.
Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas tinha nome comprido e pomposo, mas vida extremamente simples. Nasceu na pequena cidade de Goiás, ainda no século XIX. Era singela, confusa e de pernas bambas, como ela mesma contava. Teve uma única professora, a “Mestra Silvina”, com quem aprendeu a ler e muito do que soube da vida. Mulher comum e quase anônima, exceto para vizinhos e parentes, casou-se com um advogado chamado Cantídio e, no rastro dele, perambulou durante 45 anos pelo estado de São Paulo: Avaré, Jaboticabal, Andradina, até chegar à capital. Teve seis filhos, dos quais resultaram 15 netos e 29 bisnetos, bem se nota ser matrona daquelas antigas famílias perdulárias, que faziam filhos como coelhos. Viúva, voltou para a terra natal, a cidade de Goiás, e ali passou a fabricar e vender linguiça e doces cristalizados, quando já completara 54 anos. Viveu desse modo anos e anos, muito velha para sonhar com um novo príncipe, muito diligente para ser bruxa janeleira, até cair e quebrar o fêmur, aos 88 anos. Mas Ana, Aninha, era teimosa e recuperou-se, embora passasse a usar muletas e tivesse de abandonar o fabrico de linguiça e doces. Foi quando aconteceu o milagre. Simples, trivial, quase desnecessário. Seria que Deus olhou lá de cima, viu aquela velhinha esperançosa, e então se comoveu?
A ESTRELA ENRUGADA
No dia 27 de dezembro de 1980, com 90 anos na cacunda, recurva e de ossos trêmulos, Aninha recebeu o melhor presente de Natal com que jamais sonhara, mesmo que dois dias atrasado. Carlos Drummond de Andrade publicou, no Jornal do Brasil, a crônica “Cora Coralina, de Goiás”, em que exaltava a velha senhora com ternura, com muita ternura, como quem exalta o espanto. Ou sacode um espantalho empoeirado.
Drummond era generoso. Foi através dele que Adélia Prado, a grande poeta encafuada em Divinópolis, até então discreta professora municipal, conseguiu editora federal para seus poemas, recebeu elogios em outra crônica famosa e tornou-se – de repente – poeta nacional. Beirava os 40. Não foi por falta de seus esforços que Emílio Moura, o comprido e modesto amante de cigarrinhos de palha, permaneceu confinado naquela Minas então provinciana (mas será que mudou alguma coisa?), cultivando poemas interrogativos, jovens poetas desconfiados e alunos reticentes. Sim, além de grande poeta, Drummond era generoso, essa moeda tão rara entre escritores, gente que adora passar rasteira uns nos outros. Como jogador de futebol e político. Mas Cora Coralina merecia o belo presente. Quer ver como merecia?
A ESTRELA ESFORÇADA
Aos 17 anos, Aninha já era redatora do jornal “A Rosa”, do qual ninguém jamais ouviu falar. Não importa. Aos 20, publicou seu primeiro conto, “Tragédia na roça”, no Anuário Histórico Geográfico e Descritivo do Estado de Goiás. Se alguém leu, ninguém sabe, ninguém contou, sequer aos passarinhos. Então quase meio século se passou sem que nada acontecesse, quando ela voltou cheia de filhos para casa e escreveu o belo “Cântico da volta”. Que ninguém publicou. Mas todos adoravam suas linguiças e doces cristalizados. Eta doceira de mão cheia!
Dez anos depois – já completara 75 anos – saiu finalmente seu primeiro livro, “Poemas dos becos de Goiás e estórias mais”. Corria o ano de 1965 e a editora era a José Olympio, nacional e respeitabilíssima. Mais um ano, outra publicação, “Meu livro de cordel”, edição um tanto provinciana, pela Editora Cultura Goiana. A publicação da editora carioca rendeu frutos municipais e até estaduais. E ficou nisso.
Mas a velha era durona. Espalhava os livros pelo Brasil em busca de leitores. “Olha aí, gente, como eu escrevo bonito”, explicava entre devaneios e cochilos. Quem respondia era o silêncio. No máximo um afago modesto, tipo a escolha como “Mulher do ano”, em 1976, pelo Grêmio Lítero-Musical Carlos Gomes, de Goiânia, capital do literariamente modesto estado de Goiás, com suas modestas, embora pretensiosas e pomposas, entidades culturais.
A ESTRELA SOBE-E-DESCE
No entanto, tendo publicado o primeiro livro “de verdade” aos 75 anos, Aninha queria mais. Não sapateava e esmurrava as portas porque quebrara o fêmur – lembra? – e andava de muletas, além de ser educada à moda antiga, e não ficava bem esmurrar as portas da fama. Mas de tanto querer e batalhar viu abrirem-se as portas de aço escovado do reconhecimento – não direi da fama –, consequência da crônica de Drummond.
Depois, disso, arregalaram-se os olhos da crítica e a percepção do mundo, como é praxe entre medrosos, reticentes, puxa-sacos e preguiçosos. Reconhecida como “grande escritora”, tornou-se motivo de homenagens e espanto. Na verdade, essa glória tardia durou pouco, apenas entre os anos de 1980, quando nasceu escritora para o Brasil aos 90 anos, e 1985, quando sentiu-se enfarada e se foi, aos 95.
A ESTRELA DO LUSCO-FUSCO
Aninha esperou 90 anos pelo reconhecimento. Sobreviveu até mesmo à fratura do fêmur, aos 88, só por conta desse bendito reconhecimento. Hoje, se você digitar “Cora Coralina” no Google obterá, em menos de um segundo, algo como 500.000 respostas.
“Que coisa!”, exclamaria ela, espantada. “Não sabia que era minha sina ser tão famosa!” Serve para alguma coisa? Não sei, mas imagino que sirva. Se ela esperou 90 anos para alcançar um pouco de sucesso, imagino que lá, no assento etéreo a que subiu, esteja bem alegrinha.
Ilustração: cercada de eritrinas postiças, a casa da velha senhora Aninha Coralina.
maria rodrigues
7 de agosto de 2016 1:16 pmPessoas como Cora Coralina
Pessoas como Cora Coralina existem aos montes Brasil afora. São iluminadas, cheias de prosas e versos para se abrir ao mundo, mas que passam suas vidas como anônimas. Cora pelo menos ainda conseguiu que Drumond sentisse sua alma e lhe desse a oportunidade de não partir desta vida sem o reconhecimento de sua inteligência e capacidade para escrever, e poetizar sua vida, que é a vida da maior parte das mulheres brasileiras. Tenho por ela um carinho imenso. Ela ajudou a muitas brasileiras de sua contemporaneidade, como minha mãe, que partiu em 2007 aos 99 anos, a verem suas vidas pregressas com outro olhar, como que se possível fosse, voltariam no tempo para traçarem por si novos destinos. E nem falar da pureza daquela velhinha quando aparecia nas televisões para falar de sua vida, ou declamar suas poesias, Uma imagem que ficou impreganada em mim.
De fato, entre os escritores e poetas existe muita resistência quanto aos novos. São vaidosos demais para abrirem a roda comum e diexar entrar o outro. Vaidade e insegurança. Por isso, não se pode falar em Cora Coralina sem também citar Drumond, pois ela foi cria dele para o mundo dos intelctuais.
Lucinda
17 de outubro de 2017 6:41 pmQue história mais bonita,
Que história mais bonita, amei!