4 de junho de 2026

Saint-Exupéry e o NOVO RETORNO A CALAIS

Nos anos 1990 aprendi a apreciar os livros adultos de Saint-Exupéry, especialmente Terra de Homens, Voo Noturno e Piloto de Guerra e Correio Sul. Em 2000, as circunstâncias mal esclarecidas da morte do escritor francês durante a II Guerra Mundial me inspiraram a escrever um pequeno conto. Não sobre ele, mas sobre o piloto alemão desconhecido que o abateu. Meu pequeno exercício literário estava condenado a ficar inédito. Resolvi publicá-lo em virtude da solução do mistério http://seuhistory.com/noticias/alemao-confessa-depois-de-64-anos-eu-derrubei-o-aviao-de-saint-exupery. Abaixo o conto de minha autoria.

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NOVO RETORNO A CALAIS

 

 

          – Combustível acabando. Nenhuma atividade significativa no canal. Farei a volta e retornarei a base. Esperem…

          Silenciado o rádio, Hans abriu completamente a mistura de combustível,   apontou  o caça para  sul sudeste,  desceu até 1.500 pés e  iniciou  a perseguição ao  inimigo. Em quase dois anos de serviço,  ele já havia perdido a conta do número de aviões que abatera  desde  que foi enviado para Calais. Conhecia melhor do que ninguém as manobras evasivas mais empregadas pelos ases da RAF, por isto ficou intrigado com a conduta  do piloto daquele  Spitfire. Mesmo depois de avistá-lo, o inimigo  não alterou sua rota.  Continuou  a seguir  diretamente  para St. Lô, como se estivesse fazendo  apenas um vôo comercial em tempo de paz.    Sem  dificuldade, Hans colocou seu caça em posição de ataque e… Hesitou, diante da passividade do inimigo.  Isto nunca tinha acontecido antes. Pela primeira vez desde o início da guerra,  uma reflexão evitou que o dedão do piloto alemão despedaçasse um avião aliado.

          Lembrando-se de Convenção de Genebra, Hans reduziu a mistura de combustível,    estabilizou o caça atras do avião inimigo  e aguardou pacientemente  sua rendição. Porém, o mosquito  apenas manteve  seu curso para St. Lô,  não abaixando o trem de pouso.  Demorou um pouco, mas ao final de uma breve trégua,  Hans tentou comunicar-se pelo rádio com  o inimigo, exigindo dele a  conduta adequada. Como não obteve resposta,  irritado aumentou  a mistura de combustível, desviou o  caça que pilotava do Spitfire e  passou ao lado de sua asa direita, disparando ruidosamente as metralhadoras no ar.   Algumas revoluções depois, o Messerschmitt ME 109 G novamente estava  posicionado no rabo do mosquito e… Hans, novamente hesitou. Nunca havia abatido um avião em situação semelhante. A ausência de reação desarmou  completamente o alemão e ele reduziu outra vez a mistura de combustível.

          Durante alguns minutos, ou  talvez segundos, não se sabe ao certo, os dois aviões seguiram juntos para St. Lô.  A  própria guerra duvidou.  Mas logo cedeu às evidências, reconhecendo que  algo inusitado estava acontecendo naquele momento.   Afinal, no auge do conflito, em  dezembro de 1941, não era sempre que um  poderoso Messerschmitt ME 109 G escoltava ruidosa e pacificamente um Spitfire nos céus do canal da mancha. 

          De olho no marcador de combustível, Hans   comunicou-se com a torre de Calais.

          –   Torre de Calais. Torre de Calais. Abati mais um inimigo, estou retornando  a base.

          Acreditando que o dito ficaria  pelo não dito, que qualquer outro poderia fazer aquilo que  ele não teve coragem de fazer,  Hans acelerou o motor  do Messerschmitt ME 109 G e passou pela segunda vez ao lado da asa direita do Spitfire,   acenando para o companheiro.  Porém, assim que tomou-lhe a dianteira rumando para noroeste e ganhando altura,  seu caça passou a ser perseguido pelo outro avião. 

          Sorrindo aliviado, Hans finalmente entrou novamente em combate. Sem piscar os olhos,  o “barão”, como era  carinhosamente chamado pelos companheiros de esquadrilha,  mergulhou ruidosamente seu caça,  rumou para o norte durante alguns segundos,  contornou a toda velocidade  a sul sudoeste e surgiu novamente no rabo do Spitfire acompanhando-o em sua escalada para  2.000 pés.   O inimigo  balançava na alça de mira,  quando Hans  acionou as metralhadoras. Porém, antes de ser  literalmente recortado pela saraivada de projéteis, o mosquito literalmente parou no ar, caiu sobre sua asa esquerda, ficou de cabeça para baixo e iniciou uma manobra  pouco usual, obtendo novamente vantagem sobre Messerschmitt ME 109 G. 

          Finalmente Hans havia encontrado um piloto a sua altura.  De revolução em revolução, de manobra evasiva em manobra evasiva, os ases da RAF e da Luftwaffe teceram  nos céus  canal da mancha  a mais bela  tapeçaria da segunda guerra mundial. Cada ponto da trama,  era o resultado de uma  manobra perfeita, cada arremate uma evasiva corretamente executada e cada adereço um dos projéteis disparados inutilmente no ar. 

          Hans não poupou esforços para abater Spitfire. Lançou mão de todo seu arsenal de  recursos  e  habilidades aéreas.  Mas, foi tudo em vão.  Naquela tarde, o “barão” não conseguiu atingir a mesma eficiência do passado. O inglês era bom, muito bom. A cada investida, surpreendia-o com uma manobra evasiva espetacular.  Em pelos menos  três oportunidades,  o Messerschmitt ME 109 G pilotado pelo  alemão ficou vários segundos em posição de ser abatido pelo inimigo.  Entretanto,  sempre que se dava por vencido, aguardando o xeque-mate final,  ele era humilhado pelo  desconhecido.  No instante fatal, as metralhadoras do Spitfire calavam-se,  dando  esperança e fôlego ao oficial alemão.  A atitude do inimigo no calor da batalha, gerou um misto de ódio e admiração no “barão”. Era impossível, mas parecia que aquele piloto da RAF voava como ele próprio, apenas pelo prazer de voar.

          A batalha durou  quase  doze minutos. Uma eternidade em termos de aviação militar. No final,  foi o combustível   nos tanques do Messerschmitt ME 109 G   que venceram  Hans, e  o alemão decidiu retornar a Calais. Frustrado pelo fato de ter abandonado o combate mais emocionante de sua carreira militar daquela maneira, o “barão” seguiu para Calais protegido por uma imensa tempestade que avançava para o canal vindo da normandia.

          Seu caça, não havia se distanciado muito do local da batalha, quando Hans lembrou-se de que o Messerschmitt ME 109 G que pilotava não estava com o tanque standard.  A dois dias,  o caça havia recebido um  tanque maior  de combustível. Vôos de reconhecimento sobre o canal da mancha, como o que estava fazendo antes de avistar o Spitfire,  exigiam maior autonomia. Rapidamente, Hans  aumentou a mistura fez meia volta, retomando o curso para St. Lô. Exatamente às 15:04 minutos,  avistou o mosquito. Ciente do perigo, o piloto da RAF não hostilizou o inimigo, apenas corrigiu o curso, ganhando um pouco de altura quando a costa cresceu no horizonte. Porém, desta vez não houve hesitação. Girando sobre o próprio eixo,  o Messerschmitt ME 109 G posicionou-se atras do Spitfire, disparando uma saraivada de tiros de metralhadora.  O ataque foi preciso e mortal.

          Leme danificado, asa esquerda em chamas, o Spitfire  perdeu rapidamente altura descrevendo uma espiral que aumentava à medida que se aproximava da água. A cena toda,  mentalmente gravada da cabina do Messerschmitt ME 109 G pelo vitorioso  piloto alemão, não demorou a ter o desfecho previsível. O canal da mancha recebeu friamente os destroços do avião e o corpo do às da RAF. Emocionado,  o  alemão deu uma razante sobre a sepultura do inglês, disparou alguns tiros de metralhadora   em sinal de pesar, depois apontou o nariz do Messerschmitt ME 109 G para  Calais, retornando à base.

          Quatro anos depois, a guerra chegou ao fim. Em janeiro de 1943, abatido durante uma missão na costa da Inglaterra,  Hans foi feito prisioneiro e tratado de maneira exemplar pelos inimigos. Torturado e humilhado psicologicamente por três meses, acabou revelando  alguns segredos militares e foi deixado em paz em sua cela, recebendo diariamente uma ração exígua de pão velho, batatas e  água.

          Um ano depois do final da guerra,  o “barão” foi libertado, retornando a Leipzig, sua  cidade natal.  A  Alemanha estava destruída, Hans também.  Deprimido, durante algum tempo,  ele apenas  perambulou pelas ruas de Leipzig, perguntando-se  porque tudo aquilo havia acontecido. A guerra é assim mesmo,  primeiro dilacera  a  humanidade dos soldados,  depois  recruta-os para outra  tarefa inglória,  buscando alguma explicação.

          Durante  os anos da reconstrução, Hans trabalhou como mecânico e eletricista de aviões. Na verdade, ele não teve dificuldades para adaptar-se à nova vida. Antes mesmo de  alistar-se,  ele já era obcecado por tudo relacionado a mecânica e  aviação.

          Aos doze anos, em um velho quadriplano de propriedade do pai, Hans aprendeu a voar. Aos dezesseis, já  montava  e desmontava aquela relíquia  como se estivesse brincando. Aos dezenove, foi admitido na Luftwaffe. Aos  vinte e dois, concluiu com  distinção todas as matérias  da  academia,  sendo transferido para a base aérea de Frankfurt.  Pilotando um caça bombardeiro de mergulho Junker JU 87 B1, participou da campanha alemã na Espanha, sendo laureado com uma cruz de ferro por mérito em combate. Antes de ser abatido, ele  recebeu muitas, muitas  outras condecorações. Porém, a guerra acabou, as medalhas se perderam em algum porão e o tempo foi transformando em pó todas as glórias e estórias do “barão”.                    

          Em  janeiro de 1955, a Alemanha já não era tão Alemanha, nem os alemães tão alemães. Deprimido, agora o “barão” era somente  o mecânico Hans. Um ex-oficial  da Lufthwaffe  profundamente arrependido. Arrependido por  ter abatido covardemente um avião que não esboçou qualquer reação. Dia após dia, noite após noite,  o alemão foi destruindo sua intimidade consigo e afundando no alcoolismo. Ele sofria por acreditar que tudo poderia ter  ocorrido de forma diferente, mas  sabia que não haveria um  novo retorno a Calais em 12 de dezembro de 1941.

          No ápice de uma crise de depressão, quando já estava amaldiçoando até  mesmo o primeiro dia em que  levantou vôo com um avião,  em razão de uma feliz coincidência,  Hans veio a conhecer a  obra  prima de  Raimond Spencer Jr., um escritor  inglês que ajudou-o a encarar a guerra e a vida de outra maneira.  No livro, cujo nome pode ser literalmente traduzido como “Trabalhadores do Ar”, o escritor/personagem,  aliás, também  exímio aviador,  definia a  vida como um vôo  solitário feito  as cegas. A cada homem,  o autor  atribuía um avião, a cada  avião infinitas  rotas e apenas duas opções:  voar com ou sem ansiedade e temor.   O vôo e a vida seriam apenas alegorias da suprema diversão, em que cada segundo deve ser e é apenas uma celebração.

          O pouco  de humanidade que restava àquele homem alquebrado pela guerra, massacrado pelo presente, sem perspectiva de futuro e prestes a  cometer o suicídio,  identificou-se de tal  forma com idéias  do autor e  com maneira inusitada empregada por ele para expressá-las,  que  não tardou para que  o livro de Raimond ocupasse a cabeceira  da cama de Hans.

          “Trabalhadores do ar”  era um livro absolutamente despretensioso.  Composta de vinte e nove estórias engraçadas, estranhas ou simplesmente absurdas, que não guardavam nenhuma relação causal entre si, a obra conduzia  o leitor pelos inexplicáveis  labirintos da psique humana. Ao  longo da narrativa, os personagens  apareciam, desapareciam  e ressurgiam  aqui e ali, sempre vestidos com  novas mascaras, como se fossem  apenas figuras caricatas  interpretando outras caricaturas. Acontecimentos corriqueiros,  comuns  acabavam tendo os desdobramentos  mais inesperados e incomuns.

          Ao longo do livro, o novo amigo do alemão demonstrou-lhe que o  passado, o  presente e o futuro simplesmente não existem. Dependem  exclusivamente da  explicação que  damos  para  certos fatos, delimitando  nossa imaginação acerca de  como, onde e  por que estamos levando, levamos ou levaremos nosso avião.

          Numa das  estórias mais intrigantes do livro,  Tod desafia a um só tempo a lógica  e  a ilusão.  Conduzindo o vôo 234, de Londres para Washington, em pleno  Atlântico Norte,  o piloto  da Pan Air resolve abandonar tudo, apenas   para ressurgir nos céus londrinos batendo os braços durante uma  parada militar.  Apavorados, os tripulantes e passageiros do avião  são incapazes de compreender a atitude do rapaz, tentando em vão convencê-lo  a não  abandonar o comando da aeronave.  Mas, era tarde demais.  Enquanto todos falam, Tod  vai desaparecendo. Há muito já havia aprendido que nesta vida somente tem valor o que se faz  por si com alegria e prazer. Ao fim de algum tempo, diante da multidão estupefata,  flexionando poderosamente os braços no ar,  Tod reaparece voando serenamente nos céus de Londres  exatamente como queria, durante uma parada militar.  Porém,  antes de pousar, o homem-pássaro é abatido a tiros  por um jovem soldado que ainda não  aprendeu que viver e sonhar são a mesma coisa que abraçar o mundo ou simplesmente…  voar. Como um meteoro, em uma fração de segundos, Tod atinge ruidosamente o solo. Quando a multidão se aproxima para olhar seu cadáver, ele se levanta sorri e fala no ouvido do soldado que acreditou-se capaz de  o matar:

          “- Não. Não dê tréguas ao pesar. A liberdade é mais necessária e poderosa que o  próprio ar. O ar sempre se contém em seus limites, faz o avião levantar vôo, manobrar e pousar,  mas também destroe o recipiente se a pressão aumentar e esmaga a aeronave se o leme não funcionar. É muito bom ser livre, respeitando  a própria liberdade meu rapaz.  Foi tudo magnífico. Eu experimentei minha liberdade de voar e  você  a  sua de atirar. Na ante sala da eternidade, ainda tomaremos juntos o chá. Até lá…” 

          Dizendo estas palavras, Tod  desaparece silenciosamente  sob o olhar curioso da multidão e retorna ao comando de seu avião.

          Através de  sua obra,  por caminhos tortuosos, Raimond Spencer Jr.  ensinou novamente  a  Hans que ele era livre e não fizera outra coisa na vida inteira senão… voar.  Que sua humanidade poderia desaparecer  neste,  mas também poderia ressurgir em qualquer outro lugar. Que ele sempre foi exatamente o que quis ser e se não estava satisfeito,  bastava  mudar a rota de seu  avião ou a maneira de o pilotar. Com isto, em pouco tempo o “barão” sentiu-se jovem novamente. Jovem o bastante para ousar.  Primeiro venceu a depressão, depois o alcoolismo.  Com paciência, economia  e  dedicação no início dos anos 60,  Hans mudou-se para o Brasil e  conseguiu voltar a voar. Voar pelo simples prazer de voar.

          Pilotando um velho bimotor, durante quase oito anos,   Hans cruzou em todas as direções os céus da Amazônia,  transportando  os sonhos e os devaneios dos seus passageiros. Naquele período, o mais feliz de sua breve existência, o avião foi seu quarto, o céu sua residência, a floresta sua sala de estar  e os  homens rudes, garimpeiros, índios e funcionários públicos os companheiros  de  viagem.  A liberdade entrou novamente em  ação, irrigando  totalmente a vida  do  ex-às  da Luftwaffe.

          Ao cabo de sua  jornada,   depois de  voar durante uma noite inteira sob forte tempestade,   finalmente Hans foi abatido por uma pane elétrica ao  nascer do sol.  Sem temor ou ansiedade,  ele voou  serenamente para a morte.  A floresta recebeu calorosamente seu  corpo. A terra sepultou  os restos de seu  avião.  No derradeiro instante, chamuscadas e envoltas pela fumaça, as folhas do livro que mudaram a vida do ex-oficial alemão  foram espalhadas pelo vento iluminadas pelo clarão  da explosão.

          Enfim, o destino construído por ambos havia se cumprido, unindo-os e separando-os duas vezes,  apenas para colocá-los novamente face a face diante do grande mistério na ante sala da criação. Em 12 de dezembro de 1941,   Hans reverenciou  com  tiros o sepultamento inimigo desconhecido; em novembro de 1972,   Raimond  encerrou com palavras o cortejo fúnebre do amigo que nunca  chegou a conhecer . O às inglês e o “barão” alemão estavam finalmente em paz.  O primeiro não queria chegar e não chegou a St. Lô, o   segundo conseguiu um novo retorno a Calais.

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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