
por Henrique Marques Porto
O Governo do Estado do Rio, desde a gestão Garotinho (quando a rede de Restaurantes Populares foi implantada), trata política social como negócio lucrativo. Terceirizou o serviço nas 16 unidades existentes em todo o Estado. Até empresas de “Catering” exploram o serviço. O preço da refeição dobrou. Agora custa R$ 2,00. O preço de custo da refeição varia entre R$ 3,89 a R$ 8,39. O Governo paga a diferença mais os valores dos contratos. Gasta cerca de 3,3 milhões mensais pelo serviço. Um valor baixo, considerando o alcance e os benefícios do programa. Quer dizer, as refeições populares não são “quase de graça”, como muitos pensam. São pagas com impostos! Agora, o governo calamidade de Francisco Dornelles anuncia o fechamento de três unidades, a começar pela primeira instalada, na Central do Brasil, o Restaurante Popular Betinho –justíssima homenagem a Herbert de Souza. Quem trabalha no Centro do Rio, que tem uma circulação diária de cerca de 2 milhões de pessoas, ficará sem esse equipamento fundamental para qualquer cidade do mundo.
A criação do Projeto
O projeto original dos Restaurantes Populares foi finalizado em 1996 por três pessoas: a Psicóloga Elisa Fucs, por mim e pela Geóloga Irony Cardoso (já falecida), que ofereceu o projeto como contribuição ao Governo do recém eleito Garotinho, em 1998. O projeto existia desde 1996 e não considerava a hipótese de terceirização, que só traz prejuízos aos cofres públicos. Tenho o projeto original e a documentação relativa a ele. Quando mostramos o projeto ao Betinho (Herbert de Souza) ele disse com aquele sorriso cheio de dentes: “-Poxa! Esse projeto é muito bom! Temos que fazer isso logo, porque eu ainda quero comer nesse restaurante!” Bem que tentamos, mas não foi possível. Betinho morreu em agosto de 1997.
O projeto caiu do céu nas mãos do esperto Garotinho, que deu suas ordens: “-Quero um lugar para instalar esse projeto em uma semana!” Chamou os amigos, terceirizou tudo e se apropriou da “ideia”, que sequer original era. O projeto dos Restaurantes Populares foi baseado na experiência da Rede SAPS -bandejões criados pelo Governo Getúlio Vargas em 1951. O famoso “Calabouço” -onde o estudante Edson Luis do Nascimento foi assassinado em 1968 -pertencia à rede Saps, fechada naquele mesmo ano pela ditadura militar.
Apesar das qualidades do projeto, ele não recebeu nenhuma atenção dos governos Estadual e Municipal. Este fez mais. O então prefeito Conde, inexplicavelmente, se colocou contra o projeto e tentou inviabilizá-lo. Com apoio de Betinho, conseguimos um local –o antigo e desativado Entreposto de Pesca na Praça XV, imóvel pertencente ao Governo Federal. Conde pretendia demolir o prédio, para o povo “poder ver a paisagem da Baía de Guanabara”. Não conseguiu, apesar de ter até conseguido o apoio de Fernando Henrique Cardoso para concretizar o desatino. Os jornais publicaram matérias sobre a encrenca.

Betinho ligou para o Ministro da Agricultura, Francisco Sérgio Turra, um homem sério, e pediu sua ajuda. Testemunhei um dos contatos de Betinho com o Ministro. Transbordando simpatia e muito habilidoso, Betinho conseguiu a cessão do imóvel por comodato de três anos. E foi rápido:
“-Quando assinamos? Deixa eu ver aqui na minha agenda” –disse ao Ministro.
O contrato foi assinado em Praça Pública, na Cinelândia, na presença de cerca de 3 mil pessoas. O Ministro discursou, Betinho também, apesar de já muito frágil. Foi seu último ato público. Logo depois adoeceu e nos deixou.
Não conseguimos os recursos (cerca de 400 mil) para construir a primeira unidade do Restaurante Popular. O Termo de Comodato expiraria e não havia como renová-lo. Elisa Fucs, Irony Cardoso e eu tínhamos consciência de que aquela era uma proposta de política pública. Não cabia à Ação da Cidadania executá-la. Era tarefa do Poder Público. O Projeto já era do conhecimento de vários Governadores e Prefeitos. Eu mesmo entreguei, em mãos, uma cópia à Ruth Cardoso, que comandava o “Comunidade Solidária”, que reunia as poucas políticas sociais do Governo de FHC. Quando começamos a elaborar o projeto muitos o consideram uma ideia meio utópica, coisa de sonhadores. Hoje, os Restaurantes Populares estão espalhados por todo o Brasil.
Agora o Governo Pezão/Dornelles está desmontando um programa que combate a fome, gera renda (direta e indireta) e humaniza a Cidade. A notícia me deixa triste. Mas, se o vice Dornelles quiser, é só chamar. Elisa e eu podemos mostrar para ele o Projeto original e explicar como aplicá-lo sem prejuízo para os cofres públicos ou para os bolsos dos contribuintes e dos usuários dos Restaurantes Populares. Afinal, são eles que pagam a conta e enriquecem as empresas que administram os restaurantes. Empresas que reclamam de barriga cheia, enquanto esvaziam as barrigas dos pobres ou as enche de comida ruim e que faz mal à saúde.
Cláudio José
3 de julho de 2016 11:53 amParabéns pela brilhante ideia
Parabéns pela brilhante ideia e projeto, que o mundo inteiro copie essa ideia!
cristina almeida
3 de julho de 2016 6:16 pmrestaurante popular
Caro Henrique,
O prefeito Patrus inaugurou o primeiro restaurante popular em Belo Horizonte em 1994.
Henrique Marques Porto
3 de julho de 2016 11:03 pmRestaurante de BH
Cristina,
Nós tomamos conhecimento do Restaurante Popular de BH (perto da Rodoviária) e fomos lá conhecer de perto o projeto e conversar com os técnicos. O restaurante, na verdade, foi criado numa gestão anterior (acho que do PMDB). Mas parou de funcionar cerca de um ano depois, por descuido e má gestão. Quando Patrus assumiu retomou o projeto sob nova orientação. Apoveitamos muita coisa da experiência de Belo Horizonte. Por exemplo, a Prefeitura investia apenas o correspondente a 25% dos custos totais, incluindo a cessão de funcionários da Prefeitura (auxiliares administrativos, cozinheiras e copeiras, por exemplo). A cobertura dos custos era completada com parcerias, inclusive com o setor privado. Uma fórmula inteligente. Outra boa iniciativa foi dar prioridade aos pequenos produtores de Minas na compra de alimentos, sobretudo legumes, verduras e frutas. Aproveitamos essas ideias na elaboração do projeto para o Rio, adaptando-o à nossa realidade e mencionando a experiência de BH, é claro. A história do projeto é bem maior que esse pequeno resumo. Contar tudo ia tornar o texto muito grande para um blog. Obrigado pelo seu comentário, que permitiu esclarecer essa informação.
Abraço,
Henrique
Edson Goncalves
3 de julho de 2016 11:39 pmPatrus Ananias é o criador dos Restaurantes Populares
Quem criou os restaurantes populares foi Patrus Ananias como prefeito de Belo Horizonte em 1993.
http://pt13mg.blogspot.com.br/2012/09/a-verdadeira-historia-do-restaurante.html?m=1
Henrique Marques Porto
4 de julho de 2016 7:44 pmRestaurantes Populares
Caro Edson,
É inegável a importância de Patrus Ananias no resgate do programa de Restaurantes Populares. Mas, ele é bem antigo. Os primeiros restaurantes surgiram em 1940, no Governo Getúlio Vargas, que em 5 de agosto daquele ano criou o Serviço de Alimentação da Previdência Social (SAPS). A rede funcionou por 27 anos e foi fechada pela ditadura militar em 1967, sob o argumento de que as unidades abrigavam “reuniões sindicalistas de esquerda”. No ano seguinte, pouco depois do assassinato, pela polícia, do estudante Edson Luis do Nascimento, no Rio, no Restaurante Calabouço (da rede SAPS), foram fechadas as últimas unidades. Quando elaboramos o programa para o Rio, em 1996, conseguimos localizar antigas funcionárias do SAPS (nutricionistas e assistentes sociais) que nos deram informações preciosas sobre o programa do governo Getúlio. Era bem mais ambicioso que o ataul. Pretendia, além do acesso à alimentação boa e de baixo custo, melhorar a qualidade dos hábitos alimentares dos brasileiros. Um exemplo: come-se arroz branco demais, um alimento de baixo valor nutricional, mas que “enche o bucho”, como se diz. Almocei diversas vezes em restaurantes da Rede SAPS. Eram bandejões de verdade, e não um prato colocado num bandeja. O bandejão de aço permitia servir refeições balanceadas.
Quando estávamos montando o projeto para o Rio de Janeiro fomos a Belo Horizonte conhecer de perto o Restaurante Popular de BH e conversar com os técnicos. Aproveitamos algumas ideias, adaptando-as à realidade do Rio. Trabalhamos num contexto adverso, sem nenhum apoio do governo do Estado, e sendo hostilizados pela Prefeitura. Herbert de Souza, o Betinho, pela Ação da Cidadania Contra a Fome (eu era um dos coordenadores no Rio), conseguiu local (indicado pela equipe do Projeto) e buscava financiamento externo para criar a primeira unidade. Apesar da hostilidade dos governos conservadores do Rio, estávamos dispostos a assumir o projeto. Mas, com a consciência de que se tratava de uma proposta de política pública, a ser executada pelo Poder Público.
Sobre a experiência da Rede SAPS, ver em http://www.historia.uff.br/stricto/td/1541.pdf
Abraço
Jofran Oliva
4 de julho de 2016 1:42 amAlmoço no Restaurante. . .
Almoço no Restaurante Popular de Maringá-PR, sempre que vou a essa cidade. Servem de segunda a sexta feira 2.000 refeições, “comida digna e a preço justo” como já ouvi estudantes se referindo a esse restaurante. Arroz e feijão à vontade e porções de carne, salada, legumes e uma fruta, laranja ou banana. Custo de R$2,00. Aposentados, operários e estudantes são a maioria dos frequentadores desse restaurante. Toda cidade acima de uma certa população, digamos 100.000 habitantes deveria ter um restaurante popular. Isso deveria ser lei.
Vava Brandao Fenty
27 de janeiro de 2018 12:25 amRestaurante Popular de Petrolina
epois de receber uma série de melhorias e ser entregue de volta à população, o Restaurante Popular de Petrolina vem se tornando referência em alimentação no Nordeste. O equipamento chamou atenção do secretário executivo do Conselho de Desenvolvimento Rural Sustentável de Pernambuco, Ivaldo Ferreira, que visitou o espaço nesta sexta-feira (26).
O Diretor de Segurança Alimentar de Petrolina, Fausto Alencar, que recepcionou o secretário executivo, lembra que o objetivo do Restaurante Popular é oferecer um serviço de excelência à população. “O Restaurante tem atraído atenção de várias pessoas ligadas à questão alimentar porque este é um modelo de sucesso na segurança alimentar. Um ambiente agradável, alimentação de qualidade e higiene adequada é isso o que oferecemos aqui, diariamente”, disse.
Após conhecer o equipamento, Ivaldo Ferreira, elogiou o ambiente. “Saio daqui muito feliz porque é um grande prazer saber que tantas pessoas que antes viviam em situação de insegurança alimentar agora estão tendo a oportunidade de se alimentar aqui. Preciso parabenizar o prefeito do município por fazer parte deste sistema de fortalecimento da segurança alimentar em Pernambuco”, disse Ivaldo.
O equipamento que fornece mais de 1800 refeições por dia vem chamando atenção de diversas autoridades: em outubro de 2017, representantes do Ministério do Desenvolvimento Social da Argentina viajam ao Sertão pernambucano para conhecer a iniciativa. Poucos dias depois, o cônsul geral dos Estados Unidos, John Barrett, também visitou o equipamento no qual almoçou ao lado do prefeito Miguel Coelho.
O Restaurante Popular funciona na Rua Januário Alves, área central de Petrolina. No equipamento são oferecidas refeições, de segunda à sexta, em dois horários: das 11h às 13p0 e das 16h às 17p0. O almoço custa apenas R$ 1,50 e o jantar sai por apenas R$ 0,50.
Liziane Santiago
1 de abril de 2018 9:31 pmInformações
Boa Noite;
Gostaria de saber como poderia entrar em contato com Henrique Marques Porto, tenho visto que ele publica muito a cerca dos Restaurantes Populares e eu estou estudando sobre o tema e gostaria de me aprofundar e se possível trocar algumas experiência, pois as matéiras que tivesse acesso nota-se o grande conhecimento e envolvimento ness política. assim acredito que seria de grande enriquecimento para o meu trabalho.
Obrigada
Jaqueline Brito
21 de fevereiro de 2020 12:41 pmBoa tarde, gostaria de saber qual a fonte de pesquisa utilizada sobre os restaurantes populares do BRASIL, tenho tido dificuldades com muita informação sobre e sem de fato ao certo saber qual a real história e comprovada dos restaurantes populares.